terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Nihil Morari

Observo o nada
mas é o nada
que me observa.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Fio de memória

2010 chegando galere \o. Então, para finalizar o ano de 2009 que, para muitos foi maravilhoso, para outros foi péssimo e para tantos outros como eu, foi bem meia boca, estaremos nessa semana no puteiro mais limpinho do mundo virtual, o desce mais um, fazendo uma ode ao ano que se aproxima.
Que prá vocês ele tenha em dobro todas as coisinhas maravilhosas que lhes aconteceram em 2009. E que não seja apenas neste ano, porque não desejar isso a longa data?
E que a cerveja nunca acabe \o

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Apenas minha imaginação

Me desfaço em seu corpo e dentro de você vou me encontrando e procurando com muita calma esses pedaços que ainda faltam, procurando com tamanha calma na esperança de adiar o amanhecer.
Contorno o seu rosto e contorno o meu, e se há algum sorriso no meu eu desenho nos teus lábios e se há um sorriso nos teus lábios eu desenho uma suave gargalhada vinda dos meus, tão gostosa e tão sincera por ver um sinal de felicidade em você provocada por mim. Guardo com tamanho cuidado, como faço com os nossos cd's que contém todas as nossas canções, todos os "eu te amo" pronunciados por você e que são mais e tão mais preciosos que as canções sussurradas ao pé do ouvido que se espalham por minha casa. Me refugio em seu peito tentando estar ali dentro do seu coração e fazê-lo bater junto com o meu, num só compasso, até que eles se fundam em um só ritmo.
Mas o dia amanhece, mais uma vez eu sei que foi inútil tentar adiar, eu nunca consigo isso afinal das contas. Vejo os lençóis desarrumados e os travesseiros fora do lugar, mas não encontro você ao meu lado. Ando pela casa, invado ávida o banheiro naquela esperança tola e desesperada de te encontrar ali tirando de você o que restou de mim, mas você não está lá, assim como nunca esteve na minha cama.

Te vejo através da janela e você nem sabe que eu existo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Último Natal

Semana natalina, com presenças garantidas de Papai Noel e o Espírito Natalino, lá no puteiro mais adorável e limpinho do mundo virtual, o desce mais um.
Sem mais, como sempre, obrigada a todos os nossos amáveis bêbados. Papai noel ama muito cada um de vocês, e eu também
(afinal, o VINHO DA CEIA DE NATAL TEM PODER!)

Enfim, vou ficar sumidinha aqui, por algum tempo, acho.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Post it.

Fique com as saudades
só me devolva o amor,
porque este, ás vezes
eu uso.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Carnaval fora d'época.

Tentei ser poesia
menina comportada num poema.
Mas você
me tornou carnaval fora de época
incabível em qualquer verso
das marchinhas
cantadas ao pé do ouvido
puladas na ponta dos pés.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

31 dias.


Me perco entre os seus olhos e seus óculos inevitavelmente caem enquanto me encontro entre seus lábios, num sorriso que já não lhe pertecence por ser tão meu que já tomo posse, roubando todos os beijos como se desde sempre já me pertencessem. Demonstro meu imenso egoísmo ao não lhe deixar com as horas, lhe guardo no espaço apertado do meu peito para que não consiga mais escapar, onde eu possa estar com você mesmo quando a distância insistir em me lembrar da sua existência da pior maneira que existe, sentindo a falta de cada pedaço indecifrável de nossos corpos juntos por todos os lugares.

E dizer qualquer "te amo" desde sempre, não comporta de fato exatamente tudo isso que sentimos. Mas na falta de uma frase que precise isso, continuarei a lhe dizer isso, todos os dias, a cada instante, eternamente enquanto dure.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Sob as dobras do seu corpo

Que Deus nos perdoe, a semana mais pecaminosa de todas, no desce mais um.
Culpa dos bêbados do nosso puteiro, que escolheram justo os sete pecados capitais.

Enfim, como sempre, quero agradecer a todos vocês que nos lêem e nos acompanham. Parte do tesão que temos ao escrever, provêm de vocês.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

1985


Em 1985 apostei minha vida
mas menti no valor.
Pelo menos, meu coração saiu intacto.

Em 1985, Orwell provou que era verdade
linha por linha
enquanto dançávamos algum bolero com a ajuda de Torville e Dean*
e era tão triste
perder aos poucos 1985

Então Deus está morto, como Nietzsche já disse
agora só nos resta acreditar nas supertições
enquanto tudo tende a nos atacar.
Estamos fugindo, não sabemos para onde
estamos fugindo, e não sabemos se vamos voltar.

Em 1985, a guerra civil falhou porquê?
Todos escondem as cicatrizes, as marcas de balas,
mas ninguém consegue suavizar as palavras.

Em 1985 minhas palavras vieram vivas
meus amigos foram feitos para a vida
Morrissey e Marr me deram alguma chance
em alguma canção em 1985.

Então Deus está morto, Nietzsche já dizia
com apenas 16 anos de idade, ele disse.
Vejo todas as lágrimas, de todos esses mortos que insistem em caminhar
Você tem 20 anos em 1985
amanhã não vai querer mais saber do tempo,
vai tentar fugir dele.



*Torville e Dean - Casal de dançarinos britânicos famosos nos anos 80.

Meme criado pela Julia.
Pede-se que escolha uma música de sua banda favorita e a traduza como a entenda, sem fugir de sua estrutura e do que ela realmente fala. No caso, escolhi 1985, dos Manic Street Preachers. A canção foi escrita em 2005, no aniversário de 40 anos do vocalista, lamentando ter perdido tantas coisas aos 20 anos, sentido a falta de cada uma dela, durante os 20 anos seguintes.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fragmento

Lembrou-se.
Aquela face silenciosa, como haveria de esquecer algo tão sublime?
Um pensamento que jamais mudava e persistia numa mentira estúpida cotidiana. Sim, ele se fora, ela não.
Ela seria a mesma, a poeta que transformava cada traço de sua vida mal escrita em versos, um poema que nunca lhe pertenceria. Exorcisava todos os demônios com sua pureza e

seu velho sorriso quebrou-se, frente a tela de plasma com o sorriso dela eternizado em pixels. A voz suave a recitar aqueles poemas guardados em pastas, palavras que lhe resgatavam de uma realidade absurdamente solitária, faziam com que uma ideia crescente tomasse forma, carne embebida em sonhos.
Sabia que ela ainda morava no mesmo apartamento, da mesma rua onde se despediram pela última vez, olhos implorando por mais uma chance, os lábios fazendo o contrário, ela lhe dizendo sobre as feridas, ele mostrando as armas. Quanto tempo? Desnecessário medi-lo. O coração, sempre ele, possui seus próprios ponteiros.

Vestiu sua camisa favorita, pegou o casaco e saiu de casa sem fechar a porta.
O que roubariam? Quando lhe roubam a alma, qualquer coisa se torna amiúde.

Andando pelas ruas imundas, ele era imundo e não se importava mais com isso, a casa era limpa demais, mania contraditoria por limpeza, somente papéis brancos espalhados pelo chão e algumas cinzas de cigarro, as roupas perfeitamente limpas sobre uma alma tão suja.
Não ela, ela jamais.

Sem rumo, sem pensamentos.
Apenas os sentimentos, vespas na cabeça, tiros nas entranhas.
Entrou na primeira estação de metrô que viu, ficou feliz pela bilheteria estar sem fila, não queria esperar, não poderia.
O vagão estava vazio, sim, estava lotado, mas ainda assim, sua solidão o afogava num delírio vazio de vida.

Era estranha a sensação que ainda sentia de esperá-la como quem espera o inverno através de janelas entreabertas, mesmo que ela o aquecesse como o verão em tempestades de prazer e vida, (essa coisa que ele já desconhecia para que servia) refletidos naqueles olhos que faziam todas as cores da primavera florescerem, o matando como as folhas pelo caminho feito de outono.
Ele estava entre estações e não importa em qual delas ele parasse, em nenhuma ele a encontraria dispersada em algum sorriso ou perfume.
Sentia a ausência dela dentro do seu corpo, assim como sentia a ausência de si mesmo dentro de si.
Onde ela estaria agora?
Não sabia, sentia.
Desceu algumas estações depois, sem olhar para trás. Apenas seguiu os demais que corriam em direção à saída com tamanha pressa que se esqueciam dentro dos vagões.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Rosa Flor Cristal.

Queridos lixeiros, andei ausente nos últimos dias, por motivo de força maior. Uma coisinha aí chamada ENEM que ferra com a vida de inúmeros estudantes desse Brasil. Vou responder os comentários recentes e comentar em todos vocês, como de praxe.

E hoje, estreio meu conto no Desce mais um, Rosa Flor Cristal. O tema escolhido pelos leitores, para essa semana, foi carta de amor a uma prostituta.
Tentei fugir do convencional, espero que gostem =]

(AAHHH, queria agradecer aos bêbados que frequentam nosso puteiro diariamente. E os que vão lá ocasionalmente. O importante é comer e sair satisfeito)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Despindo o drama

Monólogo de Aurora


Não entro em acordos com a cor que destoa dos meus saltos, a contratempo, prefiro a cor dos meus pés sujos dos lugares onde pisei delicadamente como uma manada de leões em fúria. Invento todos os dias um novo rosto, traçando um novo olhar com delineador, dias de lábios encharcados de sangue, dias de lábios com estrelas. De estrelas entendo, apesar de ser Aurora, nunca amanheci.
Tenho nos meus saltos a minha vida inteira suspensa, sem eles, sou menos do que um grão de poeira entre meus dedos. É isso, quando toco o chão com humildade, deixo de existir. Só de saltos sou Aurora, mesmo sem amanhecer, ensaio os meus raios de sol sobre a existência alheia. Não peço desculpa pela minha superioridade quando piso com a ponta dos meus saltos em alguém. Saber que eles ferem, me cicatriza.
Não espero nada a longo prazo. A longo prazo fede a mofo, mijo velho conservado para exame médico. Mas também não tenho paciência a curto prazo. A curto prazo vem forte, mas sai fraco. Perde plasticidade e ganha história, anos semi razos. Por isso, segundo meu analista, eu não amanheço. Estou vestida de drama, me escondo atrás da lua, roubo a escuridão. Um dia, quem sabe, amanheço, eu sei.
Quando me despir de todo o drama e quebrar todos os saltos, vou ser aquela que amanheceu para a verdade. Seja ela qual for.


Despindo o drama: Fotonovela estrelada por Ferdi Mendonça (foto), com fotografias de Alline Nakimura e roteiro e direções desta que vos fala. Em breve, no lixo de textos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Desce mais um, por gentileza?

DESCE MAIS UM

Sete pseudoescritores de blogs falidos, se reúnem uma vez por semana aqui, prá despejarem seus textinhos de merda. Toda semana, vocês, caros leitores (se existirem), podem escolher o tema do qual, nós, deveremos montar nossas histórias através de uma enquete com temas propostos por cada um de nós. Um desafio? Talvez
, mas estamos dispostos a sermos ferrados por vocês, então, sintam-se a vontade e peçam o que quiserem. Aqui, quem manda nesse puteiro, são vocês.

Aproveitem a boca livre da inauguração, eu recomendo.

Segundas feiras- Eu \o/
Terças feiras - Hugo
Quartas feiras - Junker
Quintas feiras - Bernardo
Sextas feiras - Luna
Sábados - Leandro
Domingos - Rafael

Enfim, conto com a presença de vocês no nosso puteiro

domingo, 29 de novembro de 2009

O dono dos finais.

Pego as coisas pelo meio, puxo um começo mas acabo sempre é no fim. Por ser avesso a começos, acabei me tornando especialista em finais, os melhores possíveis, é só escolher. Prometo sempre que jamais farei chorar, caso não queria isso, mas caso seja uma romântica absurdamente desenfreiada, não garanto que possa ser o cara que vá segurar no teu volante e pisar no freio. Geralmente eu sou o cara que gosta de te ver perdendo o controle sob sua vida, aquele mesmo filho da puta que vai fingir que você nunca existiu em seu passado e que não vai te mandar flores, a não ser que você esteja morta e me dê motivos para isso. Desculpe-me, mas minha sensibilidade fica apenas entre minhas pernas, ás vezes, ela também se esconde atrás do meu pescoço, depende de como você quer que seja. Minhas lágrimas, só no final do ano, se meu time perde o campeonato que estava quase ali, em suas mãos. Ou se você se irritar e me der um belo chute no saco.
Mas se você for igualmente cretina, quer dizer, se você for daquelas que não se importam com declarações de amor porque, o amor está morto a muito tempo e a melhor maneira de festejar sua morte é dando para todos sem a menor modéstia, sem a menor esperança de encontrar aquele príncipe encantado, aquele cara que a sua mãe vive rezando para que apareça na sua vida, então por favor, me procure. Tenho o melhor final para esse tipo de relação. A gente começa pelo meio, da parte onde já nos conhecemos a muito tempo, e por já nos conhecermos, já nos tornamos íntimos suficientes para uma cama e todas as posições para todos os jogos. Depois, por algum motivo que não saberemos nunca, você vai saber que eu não sou o seu príncipe encantado e nem você é a futura mãe dos meus filhos, usei camisinha e você rasgou o útero. Mas sorriremos, trocaremos telefones, talvez eu lhe faça aquela promessa, te ligo amanhã, você vai sorrir e responderá, ligue mesmo e a gente marca alguma coisa prá sexta feira. Mas o nosso final sempre foi esse, não vou te ligar e você não vai ficar esperando pelo telefonema, porque vai estar com outro cara fazendo o joguinho de mulher que AINDA espera pelo príncipe encantado, e olha só, pode ser você, cara de sorte.
Não procuro finais melhores do que este, sabe, eu gosto de ser o dono dos meus finais. Talvez nem Deus se meta nos meus finais, ele não é louco. Ou me esqueceu, também esqueci ele, estamos igualmente quites.
Se me derem licença, a cama me chama. Um cigarro aceso, os lençoís fora do lugar. Mas sou cavalheiro, não direi jamais quem fez isso.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ressaca urbana.

Despertou com um forte arrepio pelo corpo, como se inúmeros insetos percorressem demoradamente a sua pele, mas achou que fosse somente o típico frio de uma manhã de segunda feira. Tentou se levantar, mas era como se sua cama fosse um grande imã que a atraía de tal forma que, qualquer esforço seria meramente em vão. Lutou para que uma das pernas pudessem ficar para fora da cama, enquanto a outra lentamente se desgrudava dos lençóis. Após uma verdadeira batalha dantesca, conseguiu enfim apoiar os dois pés no chão e se arrastar até o banheiro para tomar banho, mas no meio do caminho, entre a sala e a cozinha, pôs para fora todo o resultado de um domingo entre quase amigos e desconhecidos agradáveis. Resmungou entre um pano sujo e um rodo jamais utilizado que aquela segunda feira seria uma merda.

- Mas que ressaca da porra!

Vestiu-se numa velocidade quase maior do que a com que o relógio marcava o seu atraso. Sua pontualidade ainda era britânica, seu chefe é que não se acostumara ainda com o fuso horário. Pegou as chaves e a bolsa, bateu todas as portas ás suas costas. Esqueceu sobre a cama a carteira e toda a sua maquiagem. Acabou deixando a si mesma sobre a cama, sem perceber.

Correu pelas ruas acumulando sobre si a poeira do cotidiano daquela cidade que parecia engolir a todos, um grande triturador de sonhos e pensamentos. Um liquidificador de sentimentos e planos sobre as suas imensas avenidas retas e sujas de asfalto. Precisava chegar a tempo em seu emprego, não era a primeira vez que corria contra o tempo mas era a primeira vez que sentia que seria inútil, que talvez não conseguisse chegar lá, sensação tão certa quanto o estômago revirado e a cabeça dolorida. Como se os seus próprios pensamentos fossem os causadores daquilo.
Não adiantaria pegar um ônibus, mesmo que quisesse, a cidade estava emaranhada em um trânsito caótico e infernal. O que lhe restava era correr até chegar a uma estação de metrô e ter a sorte de não precisar enfrentar fila alguma. Seus sapatos novos pareciam desgastados demais, sua roupa branca parecia refletir o asfalto, num tom de cinza muito parecido com os seus olhos da cor do céu que anunciava algum fim, talvez do dia. Lembrou-se que estava sem maquiagem, o rosto limpo de qualquer mentira, era ela, uma mulher atrasada para tudo. Principalmente para si mesma. Olhou novamente para o relógio, amaldiçoou mais uma vez a ressaca, o trânsito, o sinal que não abria nunca. Talvez tivesse sorte se corresse.

E correndo não percebeu que o trânsito então, como um laço mal feito, se desatou de repente, e ela, um mísero ponto tão cinza quanto a rua, cinza como seus olhos que anunciavam algum fim, estava no meio de todo o movimento das rodas, dentro do coração selvagem de pedra que pulsava. Viu apenas como um borrão vermelho, algo a se aproximar tão rapidamente de si que a atravessara. Apenas sentiu o seu corpo estar tão leve que poderia voar sobre todos aqueles carros e cair delicadamente sobre o asfalto quente e seco. Ouviu ao longe pessoas gritando, buzinas enlouquecidas e passos quebrando mais ainda o seu corpo. Não sabia o que estava acontecendo exatamente, mas sabia que chegaria muito atrasada e que certamente seu chefe lhe daria um aviso prévio, então, esse era o fim. Não conseguia abrir os olhos para se certificar se estava próxima ao prédio do seu trabalho, o sol queimava seus cílios e algo a impedia de abri-los. Ouviu quase que surdamente algumas sirenes e, quando finalmente conseguiu, com esforço igual ao que teve ao se levantar, abrir um dos olhos, viu ao seu redor várias pessoas e algumas câmeras.
Estava atrasada, estava suja, estava esticada dilascerada numa avenida, estava sem maquiagem e ainda por cima queriam fotografá-la. Amaldiçoou a todos, mas principalmente a ela mesma, por ter esquecido o seu estojo de maquiagem sobre a cama.
Não queria aparecer assim, na capa de qualquer jornal, como se estivesse morta. Só estava com ressaca, só isso.

-Mas que ressaca da porra! - disse, antes do seu dia terminar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

She took a long cold look

Ficou sorrindo como se um elefante pudesse se dissolver em seus lábios enquanto eu apenas continuava a bater uma como se fosse o pai dela. Eu lembro dela perguntando a todo momento se estávamos doidões, eu adoraria, dizia, que tívessemos mesmo um motivo para isso, mas você nunca trás nada além do seu madcap laughs debaixo das pernas, quer dizer, acho que podemos ficar bem doidões só com isso e alguns hi-fis, o que acha?
Ela era fraca para bebidas, careta demais para drogas, mas fingia overdoses ouvindo Syd Barret para me agradar, não sei, queria matar minhas saudades da época em que eu ficava chapado só de me lembrar de woodstock. Geração saúde, menina, sou o garotão de 50 anos que abandonou o pozinho e a picadinha para encher a cara de jack daniels sem gelo enquanto me masturbo ouvindo meus lp's raros, prá jogar na cara dos jovens que nem você que o som deles é melhor, qualidade saca?
Lembro que lhe pedia que não fechasse os olhos, não importa se você vai gozar em instantes, continua com a porra dos olhos bem abertos, eu pedia, the beauty of love's in her eyes,
She was long gone long, long gone
eu te amo, ouvi bem perto do meu ouvido, procurei seus cabelos por toda a cama, apalpei entre minhas pernas e mesmo assim não encontrava seus cabelos para um carinho, eu queria ir abrindo eles, na verdade, deixando que eles se escondessem entre meus dedos até que sua orelha aparecesse, eu a morderia na pontinha para que você estremecesse e aí sim, encostaria a minha voz em sua imaginação e diria o quanto eu te amo minha garota. Mas você estava estendida no chão rindo, rainha de copas a espera de Alice.
Eu tinha o sorriso do gato de Alice, talvez lhe faltasse mais coração para ser a rainha.
-Syd poderia ser o chapeleiro maluco?

-Tá louca? Ele sabe dos caminhos, eles nos trouxe aqui. Ele é o coelho branco, a porra do coelho mais branco que existe.
- Ele brilha em nós.

-E você está louca.

Ela sabia que eu odiava esse papinho romantizado em falsete, eu tava velho demais prá loucuras assim e ainda mais sem porra nenhuma. Mas naquela incessante gargalhada ela só me pediu, entre um gole de ar e outro, que a chupasse.
-E por favor, seja romântico.

E fui, faixa 3, volume baixinho.

Honey love you, honey little,
honey funny sunny morning
love you more funny love in the skyline baby
ice-cream 'scuse me,
I've seen you looking good the other evening

(cantei bem perto daqueles lábios enfurecidos de juventude. Não me importei se a porra dos olhos dela estavam abertos enquanto gozou)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Antologia de uma escritora fracassada

De Francisco Jamess, com minha co autoria involuntária de um leito hospitalar


“To com 40 de
febre. Se morrer
fica com os
meus livros e
prepara uma
antologia de
tudo o que eu
escrevi?

Remetente:
Katrina

Enviada:
19/11/2009
07:32:20 pm”

“Claro, pode
deixar comigo.
Eu cuido de tudo.
Mas sua
antologia vai ser
muito maior,
meu. E os textos
de quando voce
for uma velha
brava com
problema de
pulmao serao
imortais.

Enviada a:
Katrina

Data e hora:
19/11/2009
07:37:36 pm”

eu acho mesmo que ela ainda escreverá
algo vivo, de vida mais longa
que os 60, talvez 70 anos
que o cigarro a deixará viver.

há uma senhora de 75 anos
que vive cachimbando na calçada
de frente pra minha casa

ela provavelmente morrerá
de velhice.


(Pena Jamess, que eu ainda não escrevi um poema para a antologia)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Aviso a New Orleans

Co autoria de Leandro (não menos do que minha metade)


Verbalizo os seus encantos e os seus desejos de afrodite. Deixo solto o compasso. Você alcança as nuvens em seu samba enredo, ficamos afoitos no chão te aguardando. Não temos o seu tempo, o tempo de um suspiro, estamos atrás enquanto você passa. Eles comem os sonhos de padaria e nós lambemos os dedos sujos de sangue.
Sangue do nosso ventre

[dos nossos dedos rasgados de imperfeições & fracassos contínuos mas que usamos nesse nosso sexo selvagem solitário com as palavras
Pegamos amores emprestados e lhes damos corpo e alma mas só até o próximo ponto final
onde senhores de nossas míseras verdades mais do que falsas
lhe damos um tiro a queima roupas com um sorriso de satisfação
e ressussitamos
num proximo poema
talvez?.]

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Louca.


(Jamess me vê através de traços de giz)

quando você declama poesias em cima de
uma cadeira de bar
e recebe aplausos tímidos
e um bêbado beija sua mão em reverência

quando você tenta ligar para a Duda Rabuda
num orelhão em frente ao prédio do INSS
e constata que ela só pode estar dando
pois não atende o telefone
e você vê um mendigo sobre o viaduto
contemplando os carros da avenida à noite
o olha nos olhos
e ele te estende uma garrafa de aguardente
depois de um "oi" gutural

e você nota um grupo de pessoas vestindo panos longos
um manco, um velho e algumas mulheres
vestindo panos e cordas
e uma criança entre eles
menina ágil e curiosa sobre estas duas pessoas do mundo
que corre a ver a foto digital que você tirou
do grupo
depois de um pedido anormalmente espontâneo
de sua parte
e você aprende um sinal de paz
dessa religião esquecida
e lhes agradece com sorrisos
e zomba de um crente na praça da Sé
que te responde furioso
"hoje você zomba, amanhã você desce!"

e você se senta na escadaria da igreja
e fotografa lixeiros
velhos
e um indigente solitário
e tira poesia de uma vendedora de amendoins no trem
e depois disso me diz
"tenho medo de você
você é louco..."
eu me rio satisfeito
pois com este espírito
talvez um dia você me alcance
e jogue fora sua TV

ou quiçá você a continue assistindo
e isso te torne mais louca
que eu.

(Francisco Jamess, que além de ser um dos melhores poetas com quem tive a oportunidade de dividir cervejas, risadas e desabafos em escadarias da Sé, por pura obra do destino, é meu melhor amigo também)

domingo, 15 de novembro de 2009

Revolta cubista.

(Tete Domo - Picasso)


Inimigos da saudade
Inimigos das lágrimas
Inimigos de tudo o que eu amo ainda
(Apollinaire)




Você me pintou de uma maneira tão real que agora ao me ver em suas tintas percebo os borrões em que me tornei, a imagem dos teus dedos não é a mesma do meu espelho, no vai e vem de decompor e recompor a realidade, que escorre pelos ralos como meus pedaços fragmentados por suas lâminas, palavras. Cores vivas que morrem em cada suspiro.
Desconfio amargamente de que estaremos cada qual em sua Babel, no alto da torre gritando coisas das quais nunca conseguiremos entender ou coisas das quais preferimos não entender, no final serão sempre algumas pinceladas violentas numa tela que sangra sem entender.
O teu sorriso quebrado & espalhado pelos cantos da minha tela
fascina.

Pela socialização do conhecimento.

Minha estréia no famigerado blog PARECE MENTIRA MAS NÃO É

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Nota abstrata.

Para o amor que não cabe em palavras ou tristeza.

Tirei meus soldadinhos de chumbo das caixas para que eles vissem o mundo pelo qual eles deveriam lutar e vi em seus rostos que estavam exaustos de matar essa minha infância que insiste em me visitar. Sequei as últimas lágrimas da noite mas que seriam as primeiras da manhã em eu soube que seria devorada por um vazio maior do que se encontra pelas ruas e elas gentilmente me ouviram como ouviriam qualquer um que lhes dessem a atenção necessária para também as ouvirem em sua linguagem amarga e triste, composta de miséria humana, remorso e fracasso com uma nota de violência. Eu poderia tocar qualquer samba, em prelúdio quem sabe até em interlúdio & ele poderia soar como uma benção de algum sábio louco ou obsceno como uma profecia que anunciava desde sempre a sua vinda à minha vida para que a roubasse momentaneamente sem que eu a percebesse, porque até então, eu não sentia a falta da minha vida ausente pelos cantos.
E mesmo que de volta, a vida
me olha como estranha.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sob uma lua de tango.

Você acorda meu corpo de todas as promessas e imperfeições desse mundo amassado dentro da minha cabeça com seu cheiro agradável dos maços de cigarros que comprei na noite passada e que roubou alguns como roubou boa parte de mim, e canta em meu ouvido nossos velhos tangos de amor, desse que se foi há muito tempo atrás sem nos dizer adeus. Acompanho suas pernas que envolvem as minhas e as tragam num suspiro único como Gardel jamais conseguiria fazer
agora estátuta de pedra, não diferente de nós, num último tango silenciado por um cigarro que acabou e que espera encontrar outro para preencher esse vazio de todas as canções.
Em algum lugar desejaria que eu fosse quem ama
mas não desejaria que fosse ninguém, se já é quem eu amo e o universo todo já se estremesse em paz ao sentir isso.

Então vou almejar um céu do qual possamos compartilhar já que somos pó perante tudo, perante a essa estrada em que nos perdemos e que tantos outros se perdem e chamam diariamente de vida, e a minha se torna um pouco menos vida, muito mais destino, ao cruzar meus passos aos seus sob uma lua de tango & dizer com a voz embriagada de nostalgia que você me conduz para dentro dos meus sonhos de Ícaro sem nenhum medo de alcançar o sol
& mesmo Ícaro de asas de carne e sorriso infantil
eu me derreteria por você.

Presente

Obrigada Junker pelo presente *-*
Um desenho com uma máquina onde eu mato pombos, uma xícara de café, um cigarrinho e HENRY MILER MALANDRÃO E GOSTOSÃO é daqueles presentes dos quais eu nunquinha vou me esquecer, mesmo.

Obrigada também, Luna, Hugo, Rafael, Leandro, Junker e Bernardo, por abraçarem a minha ideia absurda (da qual em breve todo mundo já vai saber).

Enfim, é o basiquê.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Do final, não muito longe do começo

Jamais acreditaríamos no final, mas finais existem e finais sempre vão ter algo de triste, algo de perdido, algo de jamais ter chegado ao paraíso e sentir finalmente que tudo valeu a pena. Mas agora eu só sinto os seus abraços cada vez mais distantes dos meus e se eles se encontram, é como se envolvéssemos o nada. Você sente os meus lábios mais frios e mais rígidos, eu sinto o seu coração cada vez mais fechado ás minhas palavras de carinho e eu me sinto cada vez mais falso ao pronunciá-las. Seu corpo vai se tornando cada vez mais seu e o meu corpo vai perdendo cada vez mais o resto do seu, então, a gente começa acreditar mesmo que isso é o final.

Eu não disse que seria, você nunca soube que seria, então vamos pagando esse preço caro que é viver os últimos dias como se eles fossem os primeiros dias: dois estranhos numa tentativa de se conhecerem numa cama enquanto tentam se esquecer do que já viveram com outros, sem nenhum êxito ao passo que precisam se agarrar aos outros ontens, procurando um no outro algo a se amar, algo no que acreditar. Mas encontramos dois corpos cansados e tristes que se repelem no espaço universal de uma cama.

Eu queria que fosse, você sempre quis que tivesse sido, então só nos resta esses pedaços que deixamos para trás, alguns sorrisos, algumas sinceridades,umas lágrimas de felicidade e aquelas surpresas agradáveis. Mas o que ficou, o que nos restou mesmo, foi esses sorrisos falsos e sarcásticos, essas sinceridades sinceras demais, essas lágrimas após brigas intermináveis e essas surpresas desagradáveis.

Eu tentei vencer, você achou que já houvessemos vencido, mas estamos nessa batalha ainda. Fechamos nossos olhos e por instantes, somos novamente tudo o que jamais deveríamos ter deixado de ser, mas então acordamos, não te reconheço e você finge o mesmo e é isso que seria o resumo desse pesadelo que vivemos. Me pergunto como isso foi nos acontecer mas são seus olhos sem maquiagem que me respondem com a mesma pergunta. Só nos restam proclamar o fim, mas o fim do quê, se já ultrapassamos todos os pontos finais e finais felizes que existem?

Mas não acreditamos em finais se ainda estamos não muito longe do começo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Você tranca o planeta

Os acasos não me assustam
são eles que se assustam
com o que eu faço.

Domestico minhas vontades para não ser mais uma mera personagem da epopéia amorosa, sambinha cretino que toca no rádio & no coração
em noites ilustradas em que a garoa
me molha de você.

(que tranca o universo & joga a chave fora)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A comédia dos erros

Para Hugo, que me cedeu seu apóio logístico.


Para onde vão os trens meu pai?
Para Mahal, Tami, para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: Também para lugar nenhum, meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti
( Hilda Hilst)



Dante ardia em febre enquanto descia brincando o inferno & você me queima como se fosse Nero tocando suas canções intermináveis sobre o dia em que o amor pegou suas malas e saiu de férias. Maomé delirava enquanto sua voz desenhava o alcorão e Moisés riu amargamente das leis que nos prenderiam para sempre numa tábua de mármore
e eu tenho dado as mesmas amargas risadas por ter me prendido para sempre dentro de você
que me arranca como parasita, que arrasta meus cândidos sonhos pelo chão até que sobre apenas a intenção de sonhar, mas sonhar tem me cansado muito.

Prefiro a ilusão que provém dessa loucura que percorre minha pele & faz você delirar.
(O último cigarro apagado não é mais especial porque não nos é dado saber ser ele o último ou o primeiro de um maço longinquo
porque interminável)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A verdadeira causa

Estranhou aquele homem em sua cama, olhando perdido para o teto. Não, seu marido não lhe pediria para ficar de quatro e muito menos pediria que ela lhe chupasse e talvez ela também não seria ela mesma, não teria gostado da idéia de se submeter a uma posição humilhante e não teria jamais gostado do sabor do sêmen do marido. Casada a tanto tempo com ele, já se acostumara ao tradicional pai e mamãe de final de semana, sem muitos pormenores, ele gozava e ela fingia feliz, porque nas revistas se falavam tanto do tal orgasmo piscológico da mulher que chegou um ponto em que acreditara que, ao ver o marido gozando, poderia gozar em simplesmente saber que ele havia gozado, sem nunca ter experimentado a sensação que sentira. Sorriu envergonhada para o marido que retribuíra o sorriso. Antes mesmo que ela comentasse algo sobre o que lhes ocorrera, o marido já procurava os seus lábios, os que escondia com recato sob os lençoís.

Sorriu para a esposa, que pela primeira vez esboçava o sorriso da mulher mais feliz do mundo. Tentou naquela noite tudo o que sempre quisera e jamais tivera o mínimo de coragem para fazer. Não se importou se a esposa se sentiria ofendida, mandaria ela e seu moralismo de merda para o inferno se fosse necessário. Foi até a cozinha e trouxe para o quarto a garrafa de vodka que comprara. Bebeu metade e a outra jogou sobre o corpo da mulher, que olhava extasiada como se Deus tivesse finalmente ouvido suas preces. Nunca imaginaram, ambos, que houvesse tanta luxúria adormecida em quase 20 anos.

Levantou-se, beijou sua mulher nos lábios ofegantes, abriu a gaveta e tirou o maço de cigarros antes que ela percebesse. Olhava meio amargo pro maço em suas mãos, marlboro vermelho, comprou só porque gostava da cor. Nunca havia fumado, mas por indicação dos amigos, queria experimentar a sensação de fumar um após o sexo. Por indicação do médico, ele não deveria ter comprado esse cigarro, deveria se manter longe do alcool e deles. Esforços físicos também, riscados. Nos dedos contou, sem tudo isso 6 meses, com tudo isso uns 3 meses. Um sopro no coração, mas nem sentia nada ventando dentro dele. A mulher que insistira no check up, achava ele meio desanimado prá tudo, desconfiava que fosse vermes, e agora, com o maço em mãos, sabia que não era. Tentou abrir, puxou o lacre, desdobrou as abas. Estavam lá dispostos 20 cigarros do mais exemplar filtro vermelho. Olhou para baixo da varanda, uns 10 andares, crianças jogando bola sob refletores. Puxou um dos cigarros, mas não conseguia o retirar, tentou mais uma vez sem êxito. 6-3= 3 o que dava 91 dias que perdera em apenas 9 horas, e esse cigarro que não quer sair, e dá umas palmadas no fundo da embalagem, os cigarros caem, ele tenta agarrar algum, perde o equílibrio.

As crianças gritam horrorizadas, o homem nu esborrachado no chão tem um sorriso débil. Entre os dedos, um cigarro que não teve tempo de acender.

Até hoje, a mulher culpa os cigarros, foi por causa deles que ele morreu.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Nosso homem em Havana


Quem acha que o melhor de Cuba são seus charutos e seu rum, está completamente enganado. O melhor de Cuba atende pelo nome de Pedro Juan Gutierréz, um senhor já sem cabelos, todo tatuado, viciado em rum, charutos e sexo. Ah, e antes que eu me esqueça, um dos maiores nomes da literatura latina.

Gutierrez escreve, sim, livros com altas doses – e muitas páginas – de sexo. Mas sua obra vai além. Revela a realidade escondida sob o véu da prosperidade socialista de Cuba, há muito tempo desmascarada com as denúncias de corrupção e miséria espalhada pelas ruas de Havana e a apenas 150 km do País das Maravilhas, vulgo, EUA. Mas não se define como um crítico e afirma que não tenta denunciar nada em seus livros. Só é verdadeiro, nada mais do que isso.
As contradições de Cuba são inúmeras, o país tem um alto nível de adultos alfabetizados mas seu sistema de ensino é falido, tem industrias estatais mas ainda seu PIB provém da agricultura e exportação de charutos e rum, a população venera Fidel mas odeia o regime socialista. É a partir disso que Gutierrez cria suas histórias imaginárias sobre a mais crua e perversa realidade além das suas janelas. Gutiérrez passa bem longe da cartilha dos companheiros socialistas, a desgraça que ele expõe no que escreve, de certa forma poderia acontecer em boa parte do mundo capitalista e não ter como cenário a esplendorosa Havana.

A verdade é que não é fácil ler Gutierrez. Não que seus livros sejam complexos, pelo contrário, são de uma simplicidade encantadora, mas o que os tornam difíceis é a maneira pela qual ele submete seus leitores. Ele tenta provocar as mais terríveis aversões, para que no final, o leitor acabe se rendendo e pedindo por mais e mais. Outra coisa a se falar, é o seu lirismo. Além de escritor/contista/cronista/jornalista/pintor, Pedro também é poeta, e a todo momento, introduz sua poesia entre as pernas de sua prosa, até que ocorra o mais sublime orgasmo.

Seguinte, resumidamente: Pedro mata a cobra e mostra o pau, com exibicionismo. Cutuca as onças com varas curtas (ou longas, como preferirem) e as hipnotiza (com a vara, se preferirem). Suas putas são as mais fiéis mulheres, as respeitadas mulheres da alta sociedade desejam ser putas, seus charutos causam alucinações, seu rum se torna seu melhor amigo, a política é um cancêr e o sexo é algo totalmente secundário, mas ainda sim, a melhor forma de escape para tudo. Apesar de ser extremamente comparado a Bukowski, do qual ele afirma que só começou a ler depois de ter escrito sua obra prima "Trilogia suja de Havana", ele consegue ser superior a Chinaski em veracidade (mesmo que transforme o homem aranha num heroí preguiçoso e viciado em sexo selvagem, comendo qualquer mulher que passe em sua frente)
Trechos a seguir (roubados) da revista da cultura, em 08/08
Em O Rei de Havana, por exemplo, há cenas de sexo a cada quatro páginas, mas a angústia do protagonista vem de sua condição social, não de sua luxúria. A sexualidade é um componente importante em seu trabalho, mas você não pensa que as análises que colocam o sexo como ponto central de sua obra sejam reducionistas? É exatamente isso. Essa novela é um estudo sobre a miséria, a pobreza extrema e o círculo vicioso a que estamos presos. O sexo é secundário. É tudo o que o personagem principal tem para ele mesmo, é uma forma de exercer algum poder – e ele o faz de modo inconsciente. Não sei bem. Foi uma novela que escrevi de uma maneira estranha, sem pensar. E agora não posso explicar.

Você diz que não escreve sobre política. Mas é impossível não pensar em uma micropolítica do cotidiano quando se lê O Rei de Havana, ou O insaciável homem aranha. Nesse último, a história dos acrobatas que são interrompidos pela polícia é uma metáfora interessante sobre a intervenção do socialismo no âmbito privado, não? Cada um lê o que quer em um livro e faz sua própria leitura! Os antropólogos encontram antropologia em meus livros. Os jornalistas, crônicas da vida cotidiana. Os obsessivos sexuais, luxúria. Os políticos encontram política. Eu vejo histórias interessantes de gente em situação-limite.

E da literatura internacional, quem seriam seus eleitos? Para mim, Franz Kafka e Julio Cortázar são os dois maiores escritores do mundo. Além deles, comparo minha condição de escritor censurado em meu país com a de Fiódor Dostoiévski de Crime e Castigo. Ele escreveu esse romance sob a dominação do czar e vivendo no subúrbio de Moscou. Mesmo assim, em vez de fazer um panfleto político, criou uma novela policial, como eu, que em vez de fazer os personagens sofrerem, os boto para trepar".
Por essas e outras, só me resta bater palmas ao Pedrito (e bateria outras coisas também, porque não sou boba, haha)


Post dedicado a outra amante desse cubano, Dona Adriana Gehlen

domingo, 1 de novembro de 2009

Viva o lado coca cola da vida.

(Arquivo pessoal)

Metaforicamente falando, óbvio.


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Sempre atrasado

Para Rafael, uma histórinha cretina sobre a vida.
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"Porque o silêncio em si é como o som dos diamantes que podem cortar tudo"
(Jack Kerouac)



Queria ter-lhe dito antes da partida, mas se eu lhe falasse da partida seria como não querer partir. Preferi o silêncio escrito em letras amíudes, um silêncio que só você consegue ler. Não posso mais me atrasar, você sabe, estou sempre atrasado para a vida. Peguei o bilhete, me despedi de toda a culpa, peguei o que havia de melhor em mim sobre a cama e fui embora.

Por muito tempo eu perdi a vida pelas estações, a esperando. Passa tão rápido rente ao nosso corpo, que mal conseguimos entrar em um de seus vagões, então eu fico naquele desespero de, ter que pular entre o vão e a plataforma para poder alcançá-la. Não quero embarcar com Caronte, se é que estou sendo claro, não por enquanto, digo, ele sempre vai estar a nossa espera, porque adiantar as coisas? Você não quer embarcar nela, respeito sua decisão, mas eu preciso correr antes que mais uma vez, por todas as vezes, eu a perca. Ela não marca hora, a vida. Nunca espera por ninguém e nem vai esperar por você. E nós não esperamos pela mesma vida, no final, se o há.

No caminho, para a vida, comprei uma garrafa de vinho. Uma distração que se tornou em alguns goles uma maneira de me recordar do seu sabor. Talvez se pergunte qual o seja, mas ficarei calado. Prefiro que jamais saiba o sabor que a solidão tem. Me esbarrei com algumas pessoas, outros atrasados como eu e percebi que , quanto mais pressa temos de entrar na vida, mais atrasados chegamos por errar o caminho. É verdade, julgue me um cretino por não avisá-las, por vê-las pegando qualquer direção que não seja a da vida. Ou julgue-me um tolo, por achar que somente eu sei o caminho.

O que é certo para você prá mim há muito tempo já se tornou errado. Então deixei os cigarros dentro do maço, dei adeus ás nossas ruas, me levanto com o sol e me deito com a lua, o sexo já deixou de ser minha moeda de troca e espero muito mais do que o amor. Mantenho meu corpo são, minha mente livre, digo, não a prendo a pormenores, não sigo conselhos e livros de auto-ajuda. Deixei os escritores e os poetas falando sozinhos.

Mas a vida tem dessas coisas, um dia, ela inverte tudo, vai ver.

Um dia, compro um bilhete de volta à você.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Kevin Carter


Acordou assustado, talvez um pesadelo, mas era a certeza de uma lembrança. O corpo doía, os pulmões numa união com seu cerébro pediam por mais um carreira. Era a única maneira de não ser Carter, por algumas horas, ser qualquer Kevin, qualquer fotográfo, de casamento porque não? Mas não era um sonho, mero flash de memória. Fora seu flash, sua maldita câmera que o jogara definitivamente no inferno, com um único click. Queria chorar, as lágrimas há muito tempo o haviam abandonado. Se recolheu em posição fetal, os olhos fechados, a respiração falha. Jogou um pouco de cocaína sobre seus ombros e cabeça, na tentativa que fosse o pó de sininho e que voltasse a ser criança. Mas sininho daria um chute no saco dele se estivesse por lá, certamente. Qualquer criança, mas não ela. Ela que aquele maldito Pulitzer em sua parede jamais o deixaria esquecer. Grande ética profissional, além da brilhante objetividade. Só queria que enfiassem aquela medalha no cú, se isso lhe devolvesse sua paz.


Como esquecer a incumbência de fotografar a guerra civil no Sudão? Era um fardo ser um africano de pele branca e se sentir estrangeiro em seu próprio continente, um decendente daqueles que trouxeram ódio pelos mares em troca de ouro e escravidão. O fardo do homem branco, não era os tornar civilizados. O maior fardo era os ensinar a serem monstros, essa era verdade que nenhum livro de história havia descrito antes. A verdade que só a história, por si própria, nos conta. Os jornais não contabilizaram as famílias devastadas pelo apartheid, mas contabilizaram os lucros obtidos pela Alemanha unificada. Não descreveram o martírio dos presos políticos, tratados como assassinos repugnantes, mas que só lutaram sem armas, só com suas vozes e seus sonhos, por uma África mais justa. Tinha consigo a certeza de que assassinos eles foram, mas da mentira mostrada ao mundo de uma união fajuta, união que separava um país em dois, sem a necessidade de um muro de concreto, para isso. Um muro de Berlim de preconceito na cabeça de todo mundo. Mas ela, não, ela não tinha culpa. Era só uma criança lutando pela vida, implorando para o seu Deus que a salvasse, que chegasse a tempo no campo de alimentação da ONU, antes que aquele urubu a predasse. Irônicamente, o urubu em questão tinha uma câmera em mãos, um cantil de água e força suficiente para ergue-la e salvá-la. O verdadeiro urubu, injustiçado, era irracional demais para descriminar seu alimento, assim como ela, lutava pela sua vida nas terras áridas e esquecidas do Sudão. Mas ele, senhor Urubu Kevin Carter, respeitadíssimo, lutava pelo melhor enquadramento, o que lhe traria ou louros da vitória. O tempero da sua amarga derrota.


Mas era necessário, pressentia isso, não intervir na vida. Uma amostra grátis da realidade que muitos evitam ler em páginas de jornais, dos poucos, que tinham estômago para isso. Por isso não a resgatou, fugiu com o filme no bolso, fugiu do Sudão. Fugiu de si mesmo, por tudo o que lutara até então com seus amigos e sua câmera.

Olá New York Times, veja essa África que ajudaram a construir! Palmas para o Jovem fotográfo, para sua luta por mais igualdade em seu continente, pela libertação de seu líder Mandela, palmas para sua frieza, para sua estúpida vida de merda, palmas por favor. Por seu prêmio Pulitzer, que estampa seu peito como os tiros que seu amigo estampou em seu peito ao ser os olhos do mundo, em um dos conflitos da Etiópia, porque ele, caros críticos e jornalistas, interviu sobre a vida e resgatou os feridos daquela chacina. Seu prêmio, 8 tiros a queima roupas.


E agora, além do prêmio, só lhe restam críticas da população. Porque esses grandes filhos da puta brancos não compram uma passagem aérea até a áfrica? Facílimo criticar algo sentados em suas poltronas de couro, seus digníssimos cús execrando toda a boa comida que devoram. Se ele foi um covarde, está pagando seu preço agora. No mais profundo poço, com garrafas e mais garrafas da mais pura vodka espalhadas pelo chão, com seu nariz em carne vivíssima, muito mais do que ele, com seus pulmões protestando contra cada respiro. Ela aparece no seus sonhos, ás vezes. Pede ajuda, e ele consegue ver o seu sorriso em meio a tanta fome e feridas. Ele responde que promete, vai matar o verme que lhe abandonou, para que nunca mais o faça. Para que outros vermes, aprendam a lição, e não abandonem jamais seus ideias.


Fotojornalista sul-africano suicidou-se após anos registrando a miséria humana [27/06/94]


Conto baseado na história real do fotográfo Kevin Carter, sobre mais leiam http://www.revistawave.com/blog/index.php/2008/02/20/kevin-carter-1960-1994/

Ou ouçam

http://www.youtube.com/watch?v=T7hw5NkSPvs
(Manic Street Preachers - Kevin Carter)




sábado, 24 de outubro de 2009

Lazy Afternoon

Antes que a lua chegue
morda meu coração na esquina &
não me esqueça
(Roberto Piva)


Digo que sou meio cinza meio fênix
depende muito do meu humor & depende muito mais das tuas mãos sobre minhas pernas onde os barões do café deixaram seus resquícios & onde você me beija e deixa teus indícios
de que nada foi perfeito
(nem o amor
somente o pretérito)

Desabotoarei todo esse blues da tua camisa & com meus lábios roubarei todas as notas necessárias para que nosso jazz exploda num sonho que geme & invade com violência nossos mais recônditos lugares
e que nos faça crer mais uma vez
no pega pega de Adão e Eva
(mas eu me perco acima das tuas coxas & você desfaz minh'alma
num lençol encharcado de saudade)
O relógio
delira nossos corpos
Coltrane nos olha de canto
espalhados pelos cantos
e ri maliciosamente da nossa desgraça
meros atores esquecidos em preto-e-branco.

Eu poderia dizer que você está comigo
VOCÊ PODERIA DIZER QUE VOCÊ ESTÁ COMIGO
mas o mundo
não pára
de gritar isso
um só minuto.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Acabe já com seus problemas!

Segue em anexo receitas médicas infalíveis para os grandes males que assombram nosso dia a dia.

Dermatológicos - Passe diariamente em toda a pele, de maneira uniforme, sêmen (sempre fresco e quente, de preferência). Vá testando os diferentes tipo de sêmen até que encontre aquele que possa suavizar cicatrizes e rugas, além de clarear manchas. Aplicar duas vezes por dia ( para melhores resultados, esqueça a frequência, faça quantas vezes quiser por dia, mas faça todos os dias). Claro, não seja boba, seja atirada e peça-o em casamento. Claro, não seja boba, saiba que todo bom remédio tem prazo de validade, caso o seu expire, teste outros sêmens.

OBS: Homens também poder usar, que não sejam o próprio, porque isso é nojento, ok?

Visão - No uso freqüente de colírio, troque-o por delírio. Olhos precisam delirar, crianças. Se usa lentes, não seja hipócrita, mortos não enxergam nada mesmo, nem a um palmo e nem a sete palmos à sua frente.

Cardíacos - Pessoas que transplantaram seus corações cárneos por corações de pedra (dependendo da sua condição financeira você pode obter um coração de pedra lascada, granito, mármore Ou poderá ser excêntrico sem deixar de ser elegante, tendo por exemplo um coração de diamante. Só não o exibam por aí, não sejam bobinhos, alguém pode achá-lo muito precioso e roubá-lo) . Tais transplantados costumam apresentar vida longínqua, além claro, de não sofrerem mais com anginas, amores-não-correspondidos (gravíssimos, tomem cuidado, seus não-transplantados), taxas de colesterol, infartes, paixões repentinas que ora vão ora vem e sempre vão (e você sempre morre um pouquinho), sopros( perigosíssimos próximos ao pescoço). Relatos garantem que os efeitos colaterais de um coração desses é avareza e mal humor, o que são facilmente tratáveis com chocolate.

OBS: Não exagere no colesterol, mesmo que isso não vá lhe aflingir diretamente. Não se esqueça que pedras são quebráveis e um pouco de colesterol pode deixar o coração escorregadio em suas mãos, não seja burro em pedir que outrem o apanhe no chão e o ponha no lugar. Então, esqueça MESMO Marlon Brando (nada de manteiguinha, seus danadinhos)


Auditivos - Graças ao bom Deus da tecnologia, só sofre disso quem é burro. Simples, compre um mp3 (eu sou das antigas, não se esqueçam. Se quiserem, sejam moderninhos, comprem LP's e uma vitrola, adaptem isso a alguma-coisa-que-eu-não-sei-o-quê para ouvirem aonde quer que vocês forem) e toda vez que seus ouvidinhos doerem com Calypso e afins (segue lista em anexo. Resumi a Calypso porque é uma forma generalizada de música-ruim-péssima-que-nem-o-diabo-ouviria. Até porque ele deve ouvir Jimi Hendrix & amigos ao vivo todo o dia.) liguem o aparelho, aumentem o volume e sigam adiante (não se esqueçam de que buzinas são trombetas divinas avisando sobre uma possível morte estupidamente acidental)

Fonoaudiologos - Aconselho dois grandes remédios: Michaellis e Aurélio (você também pode comprar os pequenos, que cabem no bolso, caso queiram ser práticos)
OBS: Não consegui dar esse conselho a tempo a nosso presidente, e ele também já não tem tempo prá isso, sabem como é, as aulas de inglês com o Joel Santana tem ocupado demasiadamente o tempinho livre dele. Pessoínha de temperamento fleumático, esse hein? Não é a toa que tem aquela face de traços rabicundos e espartanos, pobrezinho. É tão frugal falar corretamente o português, não?

Prisão de Ventre - Até hoje NÃO ME CONFORMO DE SOFREREM DISSO AINDA! Seguinte, contratem um bom advogado. Porque ele deve saber que há mais de 148 anos foi legislada a lei do ventre livre. Convenhamos, só tem prisão de ventre quem tem rabo preso, né?

Pé de atleta- Céus, mais simples ainda, vire sedentário. Algum probleminha em ter pé de sedentário?

Sexuais - Abrange muitas soluções, mas vou me atar a duas extremamente comuns.
1- Saia do Armário, hoje no Brasil existem leis para te proteger. E SUS até cobre cirurgias de mudança de sexo.
2- Homens, meus amorzinhos, não digam jamais "ISSO NUNCA ACONTECEU COMIGO ANTES". Façam o seguinte, deêm um beijinho na sua mulherzinha e digam " Se você quer a melhor transa de todos os tempos, espere um pouquinho só, porque eu só consigo isso se eu fumar um maço inteiro de marlboro vermelho" (tem que ser vermelho hein, nadinha de silver ou light). E claro, FUMEM NÉ. Quando voltarem, ela estará dormindo profundamente e você com futuros graves problemas pulmonares.

Pulmonares - Melhor ter problemas sexuais, não?
OBS: Se estiver com o nariz congestionado, cheire uma vagina. São ótimas descongestionantes nasais.
OBS 2: Minhas amadas menininhas, não me vão cheirar a própria né? Peçam para suas amigas, afinal, elas também são para essas coisas.

E o principal é, dêem muitas risadas. Rir ajuda a enganar um pouco a morte.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Um breve relato sobre tudo isso que é inomeável

Você saberia com mais certeza do que eu mesma tenho do quanto isso, você sabe, que eu sinto percorrer o meu corpo por dentro e por fora, é inomeável, mas alguns dizem que é paixão outros vão dizer que é amor & eu irei dizer que é muito mais que isso.

Eu me despejo sobre as letras frenéticas de Miller & Bukowski numa tentativa muito bonita e muito poética de senti-lo também frenético se despejando sobre mim sussurando no meu ouvido here, there and everywhere, não importa que lugar seja isso, estaríamos em qualquer lugar e eu seria sincera ao lhe dizer que eu sempre esperei que aparecesse um dia à minha porta, sonho romântico despedaçado ao longo dessas noites em que meu corpo dançava sozinho com os resquícios do teu sobre minha cama. Porque eu te esperava mesmo sem saber teu nome ou o quanto você fumava e que esse gosto perpertuaria noite após noite nos meus lábios insones, mas eu apenas sabia o quanto você era exato para todas essas minhas razões aritméticas entre fórmulas absurdas que jamais tinham, até então, um resultado. O valor incalculável do x das minhas equações.

Eu tento entre, algumas noites das quais prefiro esquecer e tantas outras que eu ainda vou esquecer apesar de perder sempre para a minha memória, cretina, que sempre lhe trará a dança, reter você entre os meus dedos já que não posso lhe reter entre os meus lábios ou em meus abraços que lhe farão escorrer pelas minhas pernas tortas e extremamente brancas, nessa dança em que não saberemos os passos, nunca sabemos nada além do ritmo que o coração nos manda seguir & assim eu me conformo de só lhe ter por poucos instantes prolongados dentro dos meus sonhos
[porque dentro dos sonhos estão os sonhos]

sábado, 17 de outubro de 2009

Fragmento cut up de emoções racionais demais para que sejam lúcidas.

flores sonho flores flores olhar flores é flores

Paraíso, você diria se estivesse próximo a ele e tão longe de toda e qualquer consolação que pudessemos ter perto de toda a grandiosidade dessa noite feita de sonhos e flores espalhadas como papéis sujos e amassados, esses rostos sorridentes jogados assim inutilmente nas poças de água ou sobre os resíduos fecais dos quais geralmente nos sentimos em alguns dias iguais

renascendo renascendo vida renascendo vida

Você secaria as minhas lágrimas se houvesse alguma lágrima em meio aos nossos sorrisos que eram apenas um em uma única boca que eram nossos lábios unidos que se rasgavam em meio a todo aquele jogo caótico de ruas e luzes e vida que renascia a cada passo a cada grito a cada palavra que nem eu e nem você e nem ninguém mais poderia ouvir nesse interminável silêncio que suspende a minha alma e que espera que você diga mais e mais e mais

nota como entre sorrisos e luz de pernas som assim pernas e sorrisos luz de nota vezes assim

Recorto assim dos teus olhos alguma nota que faz um samba triste ou um bolero a dois que faz pernas se cruzarem trópegas e ébrias de tanta nostalgia encontrada em alguns copos e inúmeras garrafas com gosto de ideologias e canções derretidas em verbos mal conjulgados e conjurados.

assim nuvens algo pode poeira de nuvens nuvens pode algo algo estar pode

Espantei essas nuvens de poeira de solidão sobre nossos ombros que carregam ou não o nosso mundo, diferente a cada dia e a cada vez que olhamos e pensamos nele, porque a solidão é algo bom de se pensar a sós numa cama onde os toques pelo corpo sabem onde vão estar mesmo escorregando em lugares onde há tantas buzinas e algum carro quase nos atropela enquanto o frio congela as mãos que estão sem luvas e que se pegam com essas unhas roídas e sujas, sem cuidado e atenção, isso que a gente se dá quando se olha no espelho mas não quando se olha espelhado em alguém que necessita por isso.

tempo eu pisca cinzas e cinzas morte todasascores pisca pisca você e você vira todas as cores

Você e eu buscamos tantas cores que se fundem num giro rodopio de emoções em apenas uma, feita de branco e cinza e negro e um pouco do meu vermelho que é o seu cigarro, e corremos para elas para sermos bem mais do que meros borrões nessa avenida onde ninguém nos vê porque não existimos, porque isso não existe assim como todas as drogas que escorrem dos teus lábios trêmulos de frio dessa primavera que se aproxima com o um céu nublado e promessas de chuvas e eu queria ser você para que você me amasse com esse teu amor próprio demais e vasto demais como todas as cores que você vê em mim e eu vejo em você mas que eu possuo apenas uma cor, a cor dos teus olhos cinzas, que eu corro e corro e rodopio e giro e viro apenas uma cor entre todas essas que eu possuo na minha camisa listrada e no meu all star rasgado sem sola alguma.

depois por dia olhos mundo tarde tarde hoje sempre sol hoje fragmentos sol místico lua amor fragmentos ontem

Amanhã que é o seu ontem que já é o meu hoje que meramente é a porra do dia que não viveremos porque jamais vivemos isso que achamos que é uma geração frustrada com uma vida que se diluí nessa bebida barata que nos servem e que eu não sei o nome porque eu já nem sei mais o meu nome e o porquê do seu nome não sair da minha cabeça e da ponta dos meus lábios mordidos por mim mesma de ódio e desejo, mas eu seria qualquer nome que você pronunciasse e eu seria qualquer uma enquanto eu te espero quem sabe aqui nessa esquina, eu fumando qualquer cigarro e você o seu de sempre que não sei o motivo que me leva a comprar ás vezes sabendo o quanto isso vai destruir os meus pulmões que precisam estar saudáveis para berrar pelo teu nome porque você assim como todos esses que passam correndo pela minha vida não me verão se eu não gritar e gritar e somente gritar.

Maybe, I'm amazing


Apenas estou assim colando recortando amassando e jogando no lixo isso que você diria ser loucura, eu digo ser lucidez, você diz que é irracional e eu diria que é simplesmente amar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Uma balada de amor & outros sentimentos inúteis

Para cantar é preciso primeiro abrir a boca. É preciso ter um par de pulmões e um pouco de conhecimento de música. Não é necessário ter harmônica ou violão. O essencial é querer cantar. Isto é, portanto uma canção. Eu estou cantando
(Henry Miller).
Não apenas amor é o que se perde
quando se perde o amor
Quem perde o amor-próprio
perde também o próprio amor
Mas ainda em minha pele conservo este
que envolve o corpo de Joana D'arc
e escorre pelos meus lábios sujos de cigarros & ressuscita emoções das quais foram rasgadas pelas garras do delírio
e que
é tanto que não compreendo
Talvez precisarei ler o zodíaco
quiromancia búzios astrologia bola de cristal feitiçaria cabala macumba ciganagem vidência dados ocultismo espiritismo bíblia
estudar minhas próprias víceras e arrancar todo o simbolismo dos intestinos
(Adieu Baudelaire)
A verdade
[a única
verdade]
é que os sentimentos
tem que ter carne
para que possam
sangrar
e manchar teu peito de vida
Doer
para que saiba que não está
assim tão morto.
Digo
nada mais foi destruído
(nem mesmo tua imagem infernal ofertando teu sagrado coração de merda)
exceto minhas ilusões.
É preciso ter sexo nas idéias
para que nasçam revoluções
Penetra-me com o vigor de tudo o que sente
com tuas palavras
(ou enfia-me um Vinícius de Moraes bem fundo entre minhas pernas e
um Neruda ao pé do ouvido)
para que eu possa explodir de amor
(essa loucura em que as pessoas se dizem tão lúcidas)
E
o prazer que deixar o meu desejo
estará em suas mãos
A poesia
que calar em meu silêncio
estará em teu espírito
e é apenas isso que eu preciso dizer
antes de finalmente dizer que te amo
(que ainda há de se infiltrar vagarosamente em tuas veias e te fará arder até coagular em teu peito)
E a morte dos meus lábios em seus lábios é o último suspiro da história.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Singela homenagem aos poetas de merda.

Aos neo parnasianos de merda
que lapidam por horas e horas
seus versinhos de merda
Reverencio Walt Whitman
por ter deixado suas folhas pelo caminho
de Lisboa à Nova York
onde posso tomar um café com o mestre Caiero à tarde
e a noite
encher a cara com o companheiro Ginsberg
e seus parceiros na galeria six
enquanto todos uivam por uma América Abstrata
No meu grito
não há métrica que meça meus sentimentos
e nada rima
com minha verdade
que se esconde nua
pelas avenidas
e se deixa atropelar
vez ou outra
por um sonho acelerado
pelo ritmo das ruas de São Paulo
(que não consegue parar teu sorriso
preso no trânsito das minhas lembranças)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Cântico aos desvairados de saudades e crentes em piadas sem graça.

Eu quase não vejo os meus passos, eu mal vejo o caminho esparramado à minha frente de rosas e asfalto em brasa que os meus pés sentem como se o fosse tua pele em seda se rasgando. Eu vejo muita coisa ao longe, porque longe elas devem estar de mim, coisas que os meus olhos mal podem saber se são reais e os meus dedos se desfazem ao tocar. A minha vida é feita de todos os quases e de tudo que não posso ter, sob o signo de uma lua tão branca que quase é azul, que quase inspira esse ar que esmaga meus pulmões acinzentados como os teus olhos perdidos por aí e dentro de mim, que tudo vê, como as incertezas que carrego comigo aonde quer que eu vá, mas prefere cegar-se com a noite que trago junto com os meus cigarros e com todos os grande amiúdes amores que me comem como um cancêr. A tua voz cala a minha e todas as outras num silêncio atormentado de saudade que ecoa no ar que expiro.

Colore em tons carmins os meus olhos com os teus lábios entrabertos em breves sorrisos que arrastam essa tarde e trazem tão logo a branda lua que se espelha em teu corpo. Você, leve como qualquer coisa que deixa-se levar pelo simples movimento do vento, tão leve como a nossa infância que se esconde nos rabiscos pelas ruas, das berlindas e das amarelinhas, onde eu não sabia que o inferno era jamais ter conhecido ou jogado a pedrinha no céu. O inferno era sentir aquelas tardes se evaporarem, agora somente a neblina sobre nossas cabeças, inalcansável, da qual eu respiro e sinto arder longamente em minha memória em preto e branco, tons de poeira em sépia(e eu nem me lembro do sabor daquela felicidade). E em algum devaneio que assombra meus olhos quebrados, estes meus ouvidos surdos de verdades, você vem flutuando e dançando dentro e muito mais além dos meus sonhos, em algo que parece e talvez seja uma oração a um Deus muito maior do que este que é trancafiado dentro de todos os templos do Universo. Mas ele cabe exatamente dentro do nosso peito.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Dançando Descalço

Em comemoração à 1 ano da minha primeira publicação na mojobooks
http://www.mojobooks.com.br/





Estamos dançando descalços esta noite e você põe os seus pés sobre os meus talvez para não sentir frio ou apenas para ficar no meu tamanho, enquanto essa estranha música se desenha no ar. Eu te conduzo entre velas espalhadas pelo chão e taças com restos de vinho mesmo sem saber os passos, e você apenas confia em mim com este seu olhar fixo no além desta sala e esse seu sorriso tão espalhado por todos os cantos da minha vida. Eu tenho a pesada sensação de que estamos flutuando em nossa última canção, nesta última dança onde tocarei o seu corpo pela última vez com minhas últimas lágrimas, essas que você não poderá sentir e devolver. E eu estou com medo desta música terminar, de você se despedir e por algum motivo que eu jamais saberei, nunca mais voltar. E eu te quero, meu deus, como eu te quero para sempre sobre os meus pés dançando entre essas taças e velas, flutuando. Te abraço e te deito delicadamente no chão mas você não parece se importar. Ainda dança e flutua pelo ar em sua ilusão de felicidade, que afinal eu nunca lhe proporcionei. Teus olhos inundados de vinho me fazem acreditar na mentira de que nada será mais pela última vez.

Eu vejo morrer o outono em seus olhos da cor da minha morte e incertos como a minha vida, e uma rosa cárnea desabrochar em primavera entre suas pernas embebidas em fel e que eu não posso tocar ou colher. Tentativas inúteis entre seus movimentos delicados conforme a canção que ainda preenche o ar durante nossa última noite. É fácil pensar em suícidio quando não estou com você e é melhor manter-se ébrio quando você está longe e eu sei que mesmo que volte, ainda estará longe dos meus braços e do meu amor. Minha benção e minha maldição e toda a desgraça da minha felicidade incompleta. Entre cigarros e papéis nunca surgiram poesias à você por mais sujas e líricas que fossem minhas inspirações noturnas após o sexo, quando eu me sentia sozinho em seu corpo vagando pelo vazio do seu amor.

E você continua pura entre meus braços que se confundem entre os seus, nessa dança frenética sobre o carpete onde você não quer mais ser conduzida e quer que troque a canção, mas eu quero que seja esta e pego suas mãos que antes já foram minhas com tanta calma e as faço percorrer pelo meu corpo em febre. Seus gritos me soam como uma oração a algum Deus muito bom. Gozo sentindo suas lágrimas misturadas a todos os meus fluídos, enquanto você se afasta de mim procurando mudar a canção.

Agora ela é triste, assim como os seus olhos.

Agora ela é desesperada, assim como o seu adeus entre gritos de ódio e taças quebradas de vinho e sangue pelo carpete.

Agora ela termina, como em breve farei com a minha vida.

Estou dançando descalço mas ainda sinto o peso dos seus pés sobre os meus.



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Canto aos últimos dias da minha vida.

Chegou a hora
em que a gente se ergue e em que fala
aos séculos
à História
ao universo...
(Maiakovski)


Este mundo é um paraíso, veja: cada demônio
estrangula mil almas antes de sucumbir
Consumidor ou contribuinte, concorrente ou trapaceiro
o homem tem que vender seu sangue para continuar vivendo

As serenas virtudes, teologias ou ignorantes filosofias
se reduziram à sua exata expressão financeira
Todos se dizem cristãos, mas seu único Deus
é o dinheiro com que pagam o direito de continuar mentindo.

Os mercados e as lojas, os armazéns e as feiras
expõem nas vitrines a produção dos famintos
E os jornais exibem em vermelhas manchetes
a felicidade de quem conseguiu ganhar muito com isso.

O sex0, o prestígio, a crença, a liberdade
se disputam e se compram como qualquer mercadoria
que possa ser levada dentro de qualquer bolsa.

As máquinas me penetram e me deformam por dentro
por saberem que eu quero continuar o que sou
A dor assumiu a forma de passagem para o céu
e o amor não se pratica, porque é caro e perigoso.

Os exércitos se armam por todas as gerações
e nos agridem ferozmente em nome da defesa
As armas cospem balas tão suaves e doces que não matam
deixam vivo o morto, para lhe cobrar suas dívidas

A guerra devora o que resta dos espíritos
e o governo decreta que o povo deva se sentir em paz
A vida humana? Vale tanto quanto o nada.

Olhando o espaço, onde a luz corta a poeira
eu prevejo o meu mundo - presa de corpo e alma
Agrido meu semelhante, e sorrio
chamo meu governo de corrupto, renego meus votos
e saio cantarolando meu orgulho de nascer e renascer nesta terra

Por este mundo, que deve ser a entrada para o inferno
passo
e atiro minha alma na mais próxima fogueira.

A poesia de amanhã
será feita pelos poetas de amanhã
Então, se precisarem de uma imagem destes tempos
os restos do que fui respoderão ao infinito onde estiverem.

domingo, 4 de outubro de 2009

A love supreme.

Co autoria de Bernardo Brum

You don't know how hearts burn
For love that cannot live yet never dies
Until you've faced each dawn with sleepless eyes
You don't know what love is
(Billie Holiday - You don't know what love is)



Com seus olhos de ópio e cão andarilho uivante, caminha por aquelas ruas que exalavam o mais puro jazz, feito de gemidos de prostitutas que se vendem por poucos cents ou por um mísero pico, músicos vadios que prostituem seus instrumentos para que notas macias e penetrantes como os tiros ao longe, gratuítos de dívidas viciosas, ecoem soltas e perdidas pelo ar sujo de noite e amargura. A única canção de amor que New Orleans conhece.

Ele não tinha resposta para isso, ele não sabia como resolver isso, ele pouco ou nada sabia. Ele bruxuleava com seu saxofone tenor por aí, na cobertura de prédios, nas varandas da vida, espectador do desespero, voyeur da podridão, em eterna e triste busca por uma nota perfeita, uma nota misteriosa, que não tenha elucidação, que nunca dê para ser transcrita, um sopro final, um uivo rasgado de um filho da puta condenado por si mesmo a só contemplar, a só assoprar, ele nunca vai chegar naquele momento, aquela curva ascendente, os joelhos dobrado, a lufada de ar inchando o pulmão, os lábios grossos circundando com sangue tesão e cuspe a trombeta divina dos anjos tortos e então virar num ângulo meio círculo soprando o sax tenor com toda a força que consegue, ele estaria morrendo, isso seria um post mortem, e jamais um carpe diem, e ele continuaria assoprando e seus olhos arregalados que lentamente vão se fechando e se esperemendo e sua respiração ficaria cada vez mais fraca e ele cometeria suicídio em pleno palco suicídio por asfixia iria vomitar seus pulmões fora apenas porque cansou de ser espectador e ele quer vomitar tudo num último sopro, transcendência, isso aí, ele não teria.

Ele estava é fodido. Mas seu sax o inocentava de todos os seus pecados, ali, sobre o qual seus dedos deslizavam como se deslizassem pelo corpo da mulher amada, onde seus lábios encontram os lábios macios e exatos onde, ele e todos, encontrariam no gozo a redenção. A tão sonhada redenção através do amor, esse amor que incendiava New Orleans, que incendiava as casas noturnas, os pianos, as baterias, os violões, os baixos, os saxofones, incendiava o jazz em cada santa nota que flutuava sobre aquele ar carregado de cigarros, charutos, heroína, cocaína, sexo barato e solidão.
Ele tinha que ganhar a vida, a perdia nas mesas de pôquer, precisava mudar. Tinha que apostar na vida, ela sempre ganha.

Lazy Bird, estaria em 2 ou 4 minutos, a incerteza era tão certa quanto a saudade.
Dela, ônix que escorria pela pele, diamantes que cortavam no olhar, que procurava algo mais do que ópio nos olhos dele, mas algo a lapidá-los. Dos lábios rios de sangue e desejos libidinosos. Todo o sexo ali, exposto, naqueles lábios cruéis que atiçavam e não se abriam em beijos, onde sua língua ousaria penetrar em explosões contínuas de orgasmos. Seu pau ficava duro só de pensar em beijá-la, tinha que se controlar, jogar aquele tesão todo no seu sax. Ele era seu membro rígido, seu motivo de orgulho perante todos os homens, o que levava as mulheres a orgasmos nunca antes atingidos, e elas, e eles, e todos, pediam mais e mais e mais. Grandes noites no Lazy Bird, grandes trepadas com o público. Fazia tanto sexo subjetivo que sentia falta do explícito.

Lazy Bird, casa cheia de cãos como ele, tão absortos em seus infernos pessoais paradisíacos que não percebem sua grande entrada. As putas, de canto, o sorriem, sorriso sujo de gozo alheio. Mas ainda assim, o mais puro de todos os sorrisos, o de reconhecimento. Devolve o mesmo sorriso de reconhecimento, o que seriam dos homens, sem as bocetas amigas das putas?
Toma o palco como seu, por direito. Despe seu grande membro dourado, encaixa em seus lábios. Uma pausa, um suspiro.
Como um anjo destituído de paraíso, estaria ali, com sua música-oração-a-um-deus-maior-que-aquilo, fazendo com que todos, inclusive ela, se entregassem á redenção. Que se perdoassem de seus pecados, de todos os pecados. Onde as putas seriam pobres moças virginais e ela, demônio, mais um anjo como ele.
Era o que queria, mas dos lábios, era só sexo que saia. Era sexo que invadia aquelas carnes, era sexo que aquele olhar ansiava, era sexo que o movia, que dava vida ás notas. A alma incendiava aquilo, os olhos eram apenas brasas. Os lábios, chamas.
O amor supremo, esse ficaria apenas no seu peito. Única coisa pura que poderia oferecer a New Orleans em noites como essa.


Na última nota soube, não adianta. New Orleans toca sua própria música.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Direito de resposta

Katrina pediu meus conselhos médicos. Eu Disse para usar colgate proteção total contra os dentes e comprar lixa grossa para os pés. Ela riu para amenizar a dor, se enterrava pouco a pouco, meio morta, quis viver algumas horas a mais, olhando fixamente para os dedos que mais pareciam tocos de cigarros apagados. Tenho receitas para dor, venderia pelo amor de alguém que me trouxesse um samba mais feliz que o meu. Ela não seguiu os meus conselhos, boa bisca que ela é, decidiu desviar os trilhos e acordar sozinha por debaixo do coração de são paulo. Ela escreve clássicos, enciclopédias de dramas na parede de seu quarto, recita poemas para bêbados que beijam a sua mão. Mora longe porque está muito perto.

(De Leandro http://letediz.wordpress.com/category/kl/)

Resposta

Esses dias encontrei Leandro num supermercado, dizia ele que precisava comprar Clarice para o almoço, estava de dieta, parou com o Trevisan nos intervalos para o lanche. Eu só estava ali porque meu Henry Miller só deu para um copo ontem a noite e eu não queria manter essa minha sobriedade por muito tempo, coisa mais triste ir dormir sem os lábios humedecidos de libertinagem. Falando nisso, me perguntou se me senti ofendida por ter me chamado de boa bisca. Absolutamente que não, eu disse, se me chamasse de puta, mesmo se eu não a fosse, eu seria. Faço de tudo para caber em seus textos. Ele disse que eu andava fácil, e eu ando, meus passos estão cada dia mais leves, por sinal. Sorriu, e porque não iria sorrir se eu estava enfiando sorrisos naqueles lábios? Doí de ínicio, com o tempo você se acostuma. Aliás, to procurando um inseticida, disse a ele. Sabe a vagabunda da Hilda Hilst? Andou me assombrando dias atrás, não me olha assim, eu sei que ela não está morta. Ela fica falando com Lennon pelas minhas costas, a vadia, e ainda por cima, fica tocando ao contrário meu Abbey Road repetindo cranberry sauce nove vezes, só para que não saia mais da minha cabeça. Diz ela que conversa com os espíritos, acredita? Ele acreditou, sempre acredita em cada palavra minha até quando nenhuma palavra minha existe. Posso pedir um favor, dizia ele enquanto enchia a cesta com as frutas do jardim elétrico, já que ela fala com mortos, vê se ela manda um recado meu prá Ana Cristina Cesar? É claro que sim, única resposta cabível, os nãos não me cabem, sabe disso. Qual seria? E ele, diga prá avisar que a ana é a melhor poeta que já existiu.
Com tanto veneno, prá quê inseticida?
Eu sei que ele saiu rastejando e ao virar a esquina saiu voando.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

De hoje e amanhã num ônibus.

Mariana resolveu que faria francês, ideia que há muito tempo fermentava em seus pequenos desejos mas que ainda não crescera. Mas o aroma permanecia ali, sempre a lhe lembrar do que prometera a si mesma num dia em que ouvira Anna Karina, meio sarcástica, bem apaixonada, dizer "Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujour", desfilando com aquele robe azul. A legenda dizia " Eu nunca disse que sempre vou te amar", mas para Mariana, soou como se Anna tivesse dito "Eu vou te amar para sempre", e com aquele sorriso e aqueles olhos encarando o pobre Jean Paul numa breve dança sustentada por suspiros, não era para se entender isso?

Convencera aos pais da sua idéia, usando de todos os argumentos possíveis, desde lágrimas de crocodilo de bolsas falsificadas até promessas de se rebelar contra qualquer ordem, uma fuga ensaiada de casa, quem sabe. Desistiu da agressividade e do drama, apelou para a realidade então, já que, para eles, seria muito conveniente que a filha fizesse francês. Era algo a mais para falarem aos seus amigos do clube, imaginem, nossa filha de 12 anos, além de falar inglês e espanhol, agora também fala francês!

Descrentes da excentricidade da filha, fizeram a matrícula na melhor escola de francês da cidade, indicação de alguns amigos que já haviam feito o mesmo curso. Sentiam-se felizes, como se a pequena de repente houvesse se tornado uma pequena mulher de grandes decisões. Não conseguiam esconder o orgulho e uma certa nostalgia, do tempo em que era tão dependente e tão pequena que cabia em seus braços. A menina, ao perceber a mudança dos pais de comportamento, agora tão corujas e doces como jamais foram, ria molemente sobre a cama. Se estavam assim, antes que ela aprendesse a falar qualquer coisa em francês, imaginem como ficariam depois das primeiras aulas? Bobinhos.

No primeiro dia de aula, decidira relutante que iria sozinha ao colégio. Os pais, preocupados, tentaram convencê-la a ceder ao menos isso, uma carona não faria mal a ninguém, se fosse vergonha, eles a deixariam na esquina mais próxima. A garota apenas dizia que da mesma maneira que escolhera falar francês, também queria a mesma liberdade de escolher como queria ir ao colégio. Não era vergonha, explicava, mas não era mais uma menininha, queria saber caminhar sozinha usando suas próprias pernas. Queria apenas que lhe explicasse qual ônibus deveria pegar, em qual ponto deveria descer. Se pudessem detalhar quantos passos dar, seria grata. Novamente, os pais, com o orgulho engasgado, descreveram todo o itinerário à filha, já que não havia mais o que fazer.

Mariana então pegou o ônibus no ponto próximo a sua casa. Subiu sôfrega os degraus, quase trêmula. Todos os medos juntos com as apostilas dentro de sua mochila rosa, o coração trôpego que ora batia no lugar do estômago, ora aparecia tão próximo dos rins. Procurou algum lugar onde se sentar, tinha um vago ao lado de um rapaz distraído com seus fones no ouvido e camisa de banda gringa que ela jamais ouvira falar antes, em uma outra ocasião até o acharia gatinho se não fosse o balanço do ônibus e o medo de prestar mais atenção no garoto do que no seu ponto. O outro lugar vago era ao lado de uma mulher, bonita até, um tanto familiar para se falar a verdade. Desconsiderando os hormônios pré adolescentes, sentou-se ao lado da mulher.

A medida que o ônibus avançava, o medo aumentava. E se passasse do ponto? E se o ônibus fosse assaltado, porque havia tantas notícias assim nos jornais de seu pai que achava que era muito provável que todos os ônibus fossem assaltados? E se, aquele cara negro de boné e roupas largas, perto do cobrador, estivesse mexendo em uma arma dentro do bolso? Tantos "e se" passaram por sua cabeça, que mal percebera que o que o jovem tinha em seu bolso era apenas um celular e que o olhar da jovem mulher ao seu lado, recaíra sobre sua face séria, traçado por várias linhas de desespero.
Preocupada com o seu ponto, que não saberia se poderia ser o próximo , perguntou então a mulher, se faltava muito para seu ponto chegar. Conteve a vergonha, esboçou um sorriso sereno, e arriscou:

-Moça, por favor, sabe se demora muito prá chegar até o ponto próximo à escola de idiomas?
- Daqui uns 15 minutos, eu vou descer um ponto depois, qualquer coisa te aviso.
-Ah tá, obrigada.
- De nada, aliás, espero que não me interprete mal, mas fiquei olhando para você e vi que parece tanto comigo, nessa mesma idade. Tem os mesmos traços que eu tinha quando ficava com medo
- E quem disse que eu estava com medo?
- Desculpa, eu só disse que parecia comigo. Faz algum curso de idioma lá na escola?
- Vou começar a fazer francês hoje.
- Olha só, que legal. Eu também comecei a fazer francês com a sua idade, mais ou menos. Acho que fiquei até uns 16 anos fazendo o curso. Todo final de ano eu preparava minhas malas, esperando que os meus pais pagassem uma viagem até Paris. No final, eu mesma que tive que arcar com ela.
- Ah não, eu não quero ficar tanto tempo assim fazendo francês, pretendo fazer só para entender o que falam nos filmes franceses. Sabe, meu tio tem uma coleção de filmes, até agora só consegui assistir os franceses. Mas sempre assisto escondida dos meus pais, eles não gostam que eu assista filmes de adultos.

- Mas que bobagem a deles! Na sua idade, eu decidi fazer francês quase pelo mesmo motivo, acredita? Lembro que assisti na tv ao Pierrot le fou, não sei se já viu esse filme. Numa cena, uma atriz, a Anna Karina, vestida num robe azul chega perto do mocinho e diz: Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujour, assim mesmo, fazendo o mesmo biquinho. Achei tão lindo na hora, sabe, a maneira como ela movimentou os lábios, como sorriu para ele, como ele suspirou bem baixinho que quase se dá para ouvir, mas dava prá perceber que ele estava completamente apaixonado por ela. Não consegui acreditar que ela tava dizendo que não o amaria para sempre, poxa, os olhos dela diziam outra coisa, tanta coisa, pareciam que diziam que ela o amaria para sempre. Achei que a legenda estava errada. Queria ver o filme sem legendas, por isso, fiz francês.

Mariana sentiu que suas pernas ficaram um pouco sem força e não conseguia respirar direito. Coincidência demais? Preferia acreditar que nada, mas nada mesmo, passava de mera coincidência. Um monte de gente deve ter feito aulas de francês por causa de algum filme do Godard, óbvio. Ainda mais se fosse o Pierrot le fou, em questão. Queria saber mais sobre a estranha, que não era assim tão estranha afinal.
-Posso te perguntar a idade ou você se sentiria ofendida?
-Claro que pode, ainda não me sinto mal em dizer que tenho 31 anos. E você? Parece ter 12 anos, estou certa?
- Sim, mas logo faço 13 anos. Você trabalha do quê? Fez faculdade? Morou em Paris mesmo?
- Calma, uma pergunta por vez minha querida. Nunca me fizeram essas perguntas dentro do ônibus, fico um pouco acuada assim, tudo bem? Vejamos, eu só fui para Paris uma vez, antes de me casar, mas fiquei pouquíssimo tempo. Aí terminei a faculdade de letras, comecei trabalhando como tradutora de livros franceses, os mais recentes. Aí me casei, não deu certo, fiquei com depressão, larguei o trabalho. Me afundei em dívidas, vendi meu carro e agora estou indo trabalhar como assistente em revisão, numa editora. De ônibus. Aliás, teu ponto tá quase perto.
- Nossa, e porque não deu certo seu casamento?
- De certa maneira ele foi o único cara da minha vida. Fazíamos francês juntos, quando me apaixonei por ele. Durante 4 anos fomos bons amigos, depois grandes amigos, aí namoramos, brigamos várias vezes. Aí eu fui para Paris com 17 anos, mais para esquecê-lo do que para aproveitar a cidade e viver meus sonhos, e quando voltei aos 18, não teve jeito, acabei voltando para ele, e no final nos casamos. Bom, no final mesmo, nos separamos. Foi trágico, trabalhávamos juntos, os mesmos amigos, os mesmos comprimissos. Sempre os mesmos filmes, os mesmos livros, as mesmas músicas. Com o tempo já sabíamos o que um ia fazer antes mesmo que este soubesse o que faria. Surgiram brigas, ele me traiu, eu o traí. Aí surgiu o divórcio, tão doloroso! Quase me matei, de tanto desespero. Aí contratei analista, advogado. Aé mãe de santo prá me livrar de tanto mal olhado, se fosse o caso. Olha, teu ponto é o próximo pequena.
- Afinal, porque tá sendo assim, tão sincera com uma menina de 12 anos?
- Querida, quem já assistiu Godard, já assistiu o que é a vida de verdade, sabe, pelo menos, o que começa a ser a vida de verdade depois que a gente descobre que estamos vivos. É daquela maneira mesmo, um pouco romantizada mesmo, ás vezes sem o esperado final feliz. Esperamos que em 2 ou 3 horas tudo aconteça de uma vez, e não é bem assim. Ela nem acontece, a vida. Mas não fica assustada assim não, é a gente que escreve ela, não nenhum francês pirado, fica tranqüila. Claro que se a gente sabe antes como a história pode terminar, ainda dá tempo de reescrever as primeiras cenas.
-Obrigada pelo conselho, senhora. Qual seu nome?
- Mariana, e o seu querida?
- Flávia.
-Teu ponto. Boa sorte na primeira aula, Encore plus!
-Ah?
-Assista Felinni, e Bertolucci. Não deixe os americanos de lado, nem os alemães.
- Obrigada!
-Até mais!

Mariana desceu no ponto. Resolveu ligar a cobrar para os pais, para que a buscassem. Não sabem, no meio do caminho, falaram sobre Berlim e de como a Alemanha vai ser o país mais importante de toda a Europa. Acho que alemão é uma língua mais importante do que o francês, não acham?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A cor do teu vermelho sobre a cor do meu branco

Originalmente publicado no meu (extinto) recanto das letras em 19/07/08
Aqueles que amam e os que são felizes não são os mesmos
Marcel Proust


Acho que não saberia explicar a alegria que sinto agora ao te ver aqui, finalmente após esses quase 5 ou 10 ou quem sabe até 20 anos? Eu nem me lembro qual foi a última vez que me senti assim tão feliz por tão pouco, aliás, eu já me senti assim ao seu lado sem qualquer tédio ou obrigação? Durante toda essa eternidade que se desfaz agora com esse seu sorriso, fiquei te esperando entre esse teto, essas paredes e todas essas pessoas de branco, ansiando que você me presenteasse com alguma cor, assim como esse seu vermelho meu favorito em seus lábios, nas suas unhas e espalhado em seus olhos. Só Deus e eu sabemos o quanto o branco é doentio, nada de paz ou pureza, a cor do vazio e da imensa solidão, somente pessoas gritando e se debatendo umas contra as outras, contra esse maldito branco que me dá ânsia de vômito. A última vez que eu vi alguma cor foi o vermelho dos borrões de sangue nas paredes, quando eu quis ultrapassá-las e chorei de alegria sem sentir qualquer dor ao ver aquele vermelho vivo quente escorrendo pelo branco virginal daquelas paredes e prostrei-me a Deus em agradecimento, quando pude senti-lo como uma leve dor em meus braços e uma corrente percorrendo as veias do meu corpo. E a paz, de dias mais brancos. E o pai, como está? Espero que tão bem como eu estou aqui. Ele nunca veio aqui me visitar, me perguntar se estou bem e se preciso de algo. Eu queria olhar para ele e dizer que pela primeira vez na minha vida preciso de sua ajuda. As vezes temo esquecer aos poucos os contornos daquele rosto tão forte e tão triste que era o dele. Quando eu me vejo refletido em algo, principalmente assim nos seus olhos como eu estou me vendo agora, não pisca tá?, eu me lembro demais do pai por lembrar demais ele. A gente é bem igual né? Assim fisicamente pareço com a mãe, mas de resto herdei tudo do pai, desde não saber amar até essa cegueira involuntária, de querer viver na incerteza do que enxergar a verdade, não tem cura, sabia? Talvez por isso eu e ele nos tornamos esses cretinos imundos que no final perderam, cada qual a sua maneira, a única mulher que realmente um dia amaram. Fico me perguntando se isso se carrega no DNA ou é mais uma mera coincidência do destino? Porque eu lutei para não ser como ele, mas no final, segui os seus passos até parar aqui, meu ponto final. Eu sempre me pergunto isso e agora vou te perguntar, apenas para confirmar todas as minhas dúvidas e me atirar novamente ao inferno, quem teve o melhor final feliz: Eu preso neste branco terminal lentamente, sendo morto pela minha loucura que se alimenta da minha tristeza ou ele, que vez ou outra estupra a filha porque essa pobre infeliz tem os mesmos traços delicados da mãe que a abandonou? Queria ter mais pena de você Julia, chorar com alguma sinceridade ao te ver assim. Mas eu não consigo nem mesmo sentir piedade de mim, eu nem sei o que eu sinto por mim, além de dor, porque cada lágrima que eu consiguia derrubar, rasgava meu rosto como giletes, mas hoje, cada vez que penso em chorar já me corto e sangro, não sou forte como pensa que sou. Posso te pedir um favor?Quando ele estiver por cima de você, diga que eu o amo de todo o meu coração e que o perdôo por tudo, mesmo que eu ainda sinta aquele tapa em minha face e aquele “você não presta tanto quanto a sua mãe” ecoando em minha mente quase todos os dias. Daqui a pouco, se você me der licença, terei de tomar o meu remédio, e adivinha a cor dele?Sim, essa cor bem no fundo dos teus olhos, que faz me sentir mais leve e quase tão morto que consigo ver a lucy no céu com diamantes vermelhos. Quero logo que essa sensação de quase morte não seja mais apenas uma sensação, mas ando fraco demais para pulsos. Se lembra da mãe? É, talvez eu ainda a ame mesmo sem ter tido a sensação de ter uma mãe. Ela de traços tão delicados e olhos cinzas flertando com a surrealidade daquela felicidade que ela irradiava num casamento frustrado, com filhos tristes mendigando pela sua atenção. Espera Júlia, por favor, os seus olhos estão tão iguais aos dela...

Mãe, minha amada Marta, adormecida nos macios olhos de Julia, quase não posso acreditar que seja realmente você na minha frente, quanto, mas quanto tempo se passou até que esse dia chegasse? Papai nos mandava rezar por sua alma ás vezes, dizia estar morta... Ainda me lembro de você vagando pela casa ao som de Gardel, com aqueles seus passos tão certos quanto a certeza que tínhamos que você não fosse feita para nós. E essa sua alegria humilhava meu pai, porque ele já sabia do seu amante, aquele seu galã decadente da nouvelle vague, que me dava balas para que eu os deixasse em paz, enquanto estavam no quarto em que você certamente nos concebeu. Hoje eu sei que você nunca nos amou, eu sei disso mesmo tendo abraçado a ilusão de que você um dia, por algum momento, nos amou. Você que nos olhava como se fossemos estranhos que compartilhavam a mesma casa com você, e que você tentava manter o mínimo contato possível, com medo de nos amar. E segundo aquela carta deixada sobre a mesa, você havia fugido para Buenos Aires com aquele quase Jean-Claude Brialy que lhe fazia a mulher mais feliz e mais completa do mundo, e sabia que crianças de 10 e 8 anos compreenderiam isso perfeitamente assim como o marido abandonado. É claro que entendemos isso tanto que, durante muito tempo, rezávamos para que você voltasse logo para nos buscar, porque também queríamos ser felizes e completos. Então eu e Júlia começamos a odiar Deus a cada dia que se passava sem você estar por perto. Enquanto mães se sacrificavam pela felicidade de seus filhos, você nos sacrificavam pela sua felicidade. Mãe, eu que sempre desde muito cedo invejei aquele seu amante por ter a sua atenção e o seu amor incondicional, e hoje o invejo mais por ter tido o seu corpo entrelaçado ao dele, por ter estado dentro de você e ter chegado mais perto do seu coração mais do que qualquer um de nós. Eu que nunca hei de esquecer os teus olhos cinzas e os teus lábios tão perfeitamente vermelhos contra a sua pele violentamente branca. Branca como todas as paredes que me cercam, branca como essa minha dor vazia de você, que está aqui, agora mais do que nunca perto dos meus abraços. Você deixando para trás rosas vermelhas murchas no vaso do seu quarto, murchas como Julia ao longo desses anos ao lado do pai, mesmo quando ela tentou fugir, espalhando todo aquele vermelho existente dentro dela por todo o ladrilho do banheiro todo branco, a sua cor favorita não? Você nem soube da partida de Julia. Eu que amava Julia até mais do que a mim mesmo e que encontrava nela esse amor maternal que eu queria que fosse seu. Julia foi embora e me deixou sozinho com aquele que em breve eu seria. Queria que você tivesse conhecido Sophie, talvez por ser tão igual a você eu tenha me apaixonado por ela. Sophie tão perfeita quanto você ou até mais, Sophie tão você em meu amor doentio. Assim, olhando para você eu posso contornar o rosto de Sophie, o pescoço de Sophie, o mesmo pescoço que ainda sinto em minhas mãos...

Sophie...Sophie, você ainda é aquela de quem eu me recordo entrando em minha vida pela porta da loja de discos em que eu procurava algo para relembrar do que já ouvira (antes da sua voz), talvez qualquer coisa naquele dia, eu não me lembro do que escolhi porque eu só me lembro dos teus dedos deslizando sobre os meus até chegar até aquele álbum branco do Caetano e que eu só ouvi muito tempo depois, quando você era tão minha quanto um dia eu já fui meu, dono de alguma razão. Você tentando me ajudar nessa escolha que até hoje eu realmente não me lembro porque eu só me lembro do seu sorriso dentro dos teus lábios carmins tais como o seu vestido vermelho que usaria mais tarde para me encontrar num bar ali perto, onde me contaria após vários copos de alguma coisa que eu não vou me lembrar agora porque eu só me lembro dos teus olhos multicoloridos, ora azuis quando estava alegre ora meio verdes quando estava triste e as vezes era algo como um verdeazul quando estava apenas comigo, a história da sua vida até ali, até me encontrar, até começar ali a escrever em poucas linhas o seu fim, muito mais meu do que seu. E assim começou tudo, de alguma maneira começou ali a minha vida. Porque antes eu não vivia de verdade Sophie. Eu, morto que andava por todos os cantos procurando algum sentido, desvairado alienado que se contentava com aquele nada que existia e batia no meu peito como dor. Ah Sophie, quisera ter lhe dito isso algum dia quando estávamos juntos. Tantas coisas que calei, que guardei comigo e que agora abro para você. Sophie, ainda há tanto de você pela minha casa, nada aqui senão a tua vaga imagem sobre meus olhos dormentes, mas lá, único lar que tive, ainda há os teus cigarros jogados debaixo da minha cama, com o leve sinal do teu batom vermelho e que eu, nesses momentos sem você, buscava neles o resto dos teus beijos que tinham o gosto amargo dos meus. E as tuas roupas que ainda guardam um pouco desse teu corpo que eu deslizava suavemente, com medo de que derretesse com o calor do meu desejo, ainda estão por lá, em alguma parte em que ninguém mais álem de mim saberá a quem pertenceram.

Ah, Sophie, não queria que isso tivesse acontecido.Me lembro de você assim tão leve flutuando assim como a minha mãe pela sala dançando qualquer tango de Gardel e me levando junto, me conduzindo através do seu corpo por lugares jamais imaginados até o paraíso que é tão somente te sentir dentro de mim e compartilhar das mesmas batidas do seu coração, enquanto eu cantava quase recitando de tão belo e de tão real a nós aquele trecho de Gardel em seu ouvido, aquele assim "Por una cabeza,todas las locuras.Su boca que besa,borra la tristeza,calma la amargura.Por una cabeza,si ella me olvida que importa perderme mil veces la vida, para qué vivir?"*.Os nossos livros e discos que agora já nem fazem sentido algum para qualquer pessoa que os tenham, mas que tão somente nos completavam entre versos entoados por nossas vozes embriagadas em alguma música, mas que agora se perdem em algumas caixas que alguém levará para o lixo onde ninguém mais poderá ouvi-los e senti-los, um final tão trágico quanto o nosso. Ouço agora o eco de todos aqueles “eu te amo” que você insistia em me dizer e que eu não acreditava por não fazerem parte dessa minha vida, feita de ódio e sangue. Perdão Sophie por não ter acreditado nesse teu amor tão desprendido e sincero, esse amor que eu tanto procurei em Marta e encontrei em você. Você tão igual a ela mas tão mais humana e real. E você foi parando de dizer que me amava, bem aos poucos. Dizia-o agora em doses homeopáticas, até que um dia, nunca mais o disse, como se eu estivesse curado da sua paixão e não nessitasse mais dele. Não dizia mais em palavras e nem em gestos simples, como um como um olhar bobo ao acordar ou um toque suave sobre as minhas mãos quando próximas as suas. Talvez você tenha se cansado querida, e deixado para que eu pudesse subtender o seu amor em outras maneiras de demonstrá-lo. Era isso que eu não vi?

Assim eu quero acreditar Sophie, acreditar que você preferiu não dizê-lo mais por simplesmente saber que eu tinha total certeza do seu amor, certeza que não precisava de palavras para saber que ele existia entre nós. Sophie, assim foi a minha mãe um dia, sabia?. Ela simplesmente parou de dizer "eu te amo" nos gestos que acreditávamos serem sinceros assim como você se cansou um dia, e nos abandonou. Não Sophie, você não me abandonou como ela, porque ela apenas nos deixou largados em casa esperando pela sua volta, ano após ano, até que a nossa esperança desaparecesse. Não Sophie, o seu abandono foi o mais terrível e doloroso de todos os abandonos. Era ainda você ali ao meu lado na cama ouvindo Gardel, sorrindo e se despreguiçando enquanto eu a olhava com amor e que estes teus olhos verdes que eu sabia tão bem o que significavam não conseguiam refletir o meu olhar. Tão distante de mim por estar tão perto, assim como Marta dos meus abraços e dos meus beijos, tão fria quando o chão em que costumávamos nos deitar para ouvir aquelas declarações absurdas de amor, contida em qualquer canção. Só você, sozinha na sala ao lado da vitrola, olhando para além daquelas paredes vermelhas, além de mim ali, além de tudo.Não era mais você Sophie, porque você Sophie, me abandonou ali sozinho naquela casa com uma estranha que não sabia o quanto eu a amava

Você disse assim “Preciso ir embora de você. Não daqui, desta casa, mas de você. Compreende?”. E eu te olhando, fixamente, procurando me encontrar deitado numa cama e dizer a mim mesmo que eu precisava acordar porque eu poderia ficar preso áquele pesadelo para sempre. Mas não, eu não me encontrei em nenhuma cama, meus olhos estavam abertos, inchados de lágrimas. E você ainda dizia “Ando confusa demais com você. Acho que meu amor se esgotou, entende? Não que eu não te ame mais, mas não sei onde, ou porquê, te amar. Eu sinto o mesmo vindo de você, de uma maneira tão grande, que me engole. E eu não consigo me sentir DENTRO de você, me sinto fora, entende?" Eu chorando, sem ter o que dizer, com aquele “eu te amo” calado na minha garganta que forçava um grito. Você pegando as suas coisas, enquanto eu a observava calado, revendo todas as cenas dessa nossa história em cada segundo em que, eu poderia ter lhe dito tudo o que eu deveria ter dito em todas aquelas horas, em todos aqueles dias, contornando novamente o teu corpo assim como eu fazia com o de Marta, através daquele seu vestido vermelho, como todos eram afinal para mim. Mas você tinha razão Sophie, não era você que estava dentro de mim. Eu Édipo cego de amor com mãos tão sujas que te tocavam Sophie, mas que só tocavam aquilo que eu acreditava ser Marta, ali no seu corpo, assim como meu pai, que procurava em Júlia tudo o que Marta lhe significava. Lembra, eu te pedi mais uma chance e você negou-a. Então eu lhe pedi o seu corpo pela última vez Sophie, e eu jurei para mim e para você que era o teu corpo que eu tocaria, era você que eu teria dentro de mim. E você permitiu tão esperançosa quanto eu de que aquilo pudesse ser verdade. Sabíamos, aquele era o nosso fim, um adeus depois e eu jogado no chão procurando as cinzas dos teus cigarros misturadas com as minhas cinzas. Eu tentando conviver com as tuas lembranças que vagariam por ali enquanto você seria de outros e eu seria apenas de você, Sophie.

Não Sophie, eu não agüentaria. Então eu sobre você, envoltos naquele meu branco tão doentio quanto o seu vermelho manchado de amor, tão absortos nessa despedida, tão absorta em se sentir dentro de mim, não percebeu minhas mãos tateando pela gaveta da mesinha de cabeceira, a procura da tua tesoura. Você se sentia feliz dentro de mim pela primeira vez enquanto uma das minhas mãos segurava o teu pescoço e a outra abria a tesoura, mostrando contra a luz aquele fio tão afiado. Você sorrindo, gritando que me amava, e eu ali, a tesoura contra o teu pescoço, você sorrindo pálida, a cor do teu vermelho sobre o a cor do meu branco, a tua cor prevalecendo como os teus sorrisos e as lembranças de todas as cores vermelhas de Marta. Estirada crua como sempre sobre a minha cama, sorrindo tão branca como o resto do branco que ainda existia naquele quarto, aquele vazio dentro de mim prevalecendo agora sobre a tua cor, você ficaria para sempre ali onde jamais deveria sair.Para sempre ao meu lado Sophie.Malditos sejam estes que nos tenham separado.Esse seu amante galã dos anos 50, o meu pai e essa tua dúvida sobre esse meu amor, esse maldito amor, mais maldito do que qualquer outra coisa. Duas partes do meu amor, que eram uma apenas.

Compreende Sophie?
Compreende Marta?
Compreendam assim como eu compreendi o adeus de ambas.E agora estou aqui, sanatório, me disseram, não sei, não lembro, sinceramente tanto faz onde estou se eu estou morto. E agora sou eu, preso para sempre a esse branco doentio que me lembrará sempre dos lençoís, do sorriso de Julia, da pele de Marta, procurando qualquer traço do vermelho, minha cor favorita. Agora, refletido pela primeira vez em anos, o rosto tracejado de tempo e vendo vocês todas dentro de mim pelos meus olhos nesse reflexo da janela, um reflexo bem transparente, que as vezes acho que o que vejo são fantasmas.
Ou eu seria o fantasma?