segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Nosso homem em Havana


Quem acha que o melhor de Cuba são seus charutos e seu rum, está completamente enganado. O melhor de Cuba atende pelo nome de Pedro Juan Gutierréz, um senhor já sem cabelos, todo tatuado, viciado em rum, charutos e sexo. Ah, e antes que eu me esqueça, um dos maiores nomes da literatura latina.

Gutierrez escreve, sim, livros com altas doses – e muitas páginas – de sexo. Mas sua obra vai além. Revela a realidade escondida sob o véu da prosperidade socialista de Cuba, há muito tempo desmascarada com as denúncias de corrupção e miséria espalhada pelas ruas de Havana e a apenas 150 km do País das Maravilhas, vulgo, EUA. Mas não se define como um crítico e afirma que não tenta denunciar nada em seus livros. Só é verdadeiro, nada mais do que isso.
As contradições de Cuba são inúmeras, o país tem um alto nível de adultos alfabetizados mas seu sistema de ensino é falido, tem industrias estatais mas ainda seu PIB provém da agricultura e exportação de charutos e rum, a população venera Fidel mas odeia o regime socialista. É a partir disso que Gutierrez cria suas histórias imaginárias sobre a mais crua e perversa realidade além das suas janelas. Gutiérrez passa bem longe da cartilha dos companheiros socialistas, a desgraça que ele expõe no que escreve, de certa forma poderia acontecer em boa parte do mundo capitalista e não ter como cenário a esplendorosa Havana.

A verdade é que não é fácil ler Gutierrez. Não que seus livros sejam complexos, pelo contrário, são de uma simplicidade encantadora, mas o que os tornam difíceis é a maneira pela qual ele submete seus leitores. Ele tenta provocar as mais terríveis aversões, para que no final, o leitor acabe se rendendo e pedindo por mais e mais. Outra coisa a se falar, é o seu lirismo. Além de escritor/contista/cronista/jornalista/pintor, Pedro também é poeta, e a todo momento, introduz sua poesia entre as pernas de sua prosa, até que ocorra o mais sublime orgasmo.

Seguinte, resumidamente: Pedro mata a cobra e mostra o pau, com exibicionismo. Cutuca as onças com varas curtas (ou longas, como preferirem) e as hipnotiza (com a vara, se preferirem). Suas putas são as mais fiéis mulheres, as respeitadas mulheres da alta sociedade desejam ser putas, seus charutos causam alucinações, seu rum se torna seu melhor amigo, a política é um cancêr e o sexo é algo totalmente secundário, mas ainda sim, a melhor forma de escape para tudo. Apesar de ser extremamente comparado a Bukowski, do qual ele afirma que só começou a ler depois de ter escrito sua obra prima "Trilogia suja de Havana", ele consegue ser superior a Chinaski em veracidade (mesmo que transforme o homem aranha num heroí preguiçoso e viciado em sexo selvagem, comendo qualquer mulher que passe em sua frente)
Trechos a seguir (roubados) da revista da cultura, em 08/08
Em O Rei de Havana, por exemplo, há cenas de sexo a cada quatro páginas, mas a angústia do protagonista vem de sua condição social, não de sua luxúria. A sexualidade é um componente importante em seu trabalho, mas você não pensa que as análises que colocam o sexo como ponto central de sua obra sejam reducionistas? É exatamente isso. Essa novela é um estudo sobre a miséria, a pobreza extrema e o círculo vicioso a que estamos presos. O sexo é secundário. É tudo o que o personagem principal tem para ele mesmo, é uma forma de exercer algum poder – e ele o faz de modo inconsciente. Não sei bem. Foi uma novela que escrevi de uma maneira estranha, sem pensar. E agora não posso explicar.

Você diz que não escreve sobre política. Mas é impossível não pensar em uma micropolítica do cotidiano quando se lê O Rei de Havana, ou O insaciável homem aranha. Nesse último, a história dos acrobatas que são interrompidos pela polícia é uma metáfora interessante sobre a intervenção do socialismo no âmbito privado, não? Cada um lê o que quer em um livro e faz sua própria leitura! Os antropólogos encontram antropologia em meus livros. Os jornalistas, crônicas da vida cotidiana. Os obsessivos sexuais, luxúria. Os políticos encontram política. Eu vejo histórias interessantes de gente em situação-limite.

E da literatura internacional, quem seriam seus eleitos? Para mim, Franz Kafka e Julio Cortázar são os dois maiores escritores do mundo. Além deles, comparo minha condição de escritor censurado em meu país com a de Fiódor Dostoiévski de Crime e Castigo. Ele escreveu esse romance sob a dominação do czar e vivendo no subúrbio de Moscou. Mesmo assim, em vez de fazer um panfleto político, criou uma novela policial, como eu, que em vez de fazer os personagens sofrerem, os boto para trepar".
Por essas e outras, só me resta bater palmas ao Pedrito (e bateria outras coisas também, porque não sou boba, haha)


Post dedicado a outra amante desse cubano, Dona Adriana Gehlen

19 comentários:

Rafael disse...

Ele é o cara, só li o insaciável homem aranha para ter absoluta certeza disso.
O melhor do Gutierrez é que ele faz o sexo pervertido ser a coisa mais natural do mundo

Julia disse...

É um perigo ler um cara desses, mas confesso que adoro os contos que ele escreve. Não consigo parar de rir com as histórias absurdas de sexo selvagem com cubanas cantando merengue.
Mas eu acho sim, que ele critica a política como ninguém, só não assume isso para não o rotularem. Já deve bastar ser rotulado de pervertido e pornográfico pelos críticos literários

Dan disse...

Eu sei o que você bateria prá ele, sua safada.
Ok, me convenceu a começar a ler nosso gg em Havana. Com uma resenha dessas, eu seria um idiota de não abrir o livro.

Katrina disse...

Dan, eu DAVA pro Pedro Juan, sem pestanejar, HAHAHA

Adriana Gehlen disse...

Por essas e outras, só me resta bater palmas ao Pedrito (e bateria outras coisas também, porque não sou boba, haha)

Quando lia tinha que parar as vezes, a excitação era demais. Excitação sexual diga-se de passagem.
Precisa lançar outros, e eu preciso ler mais uns, pra assumir o pecado dele, de novo.

Adriana Gehlen disse...

QUE TESÃO!
BÁ...

Natália Corrêa disse...

Confesso que vou agora mesmo procurar alguma coisa desse cara pra ler. Fiquei até com água na boca... haha.

ah, "introduz sua poesia entre as pernas de sua prosa, até que ocorra o mais sublime orgasmo." você também faz isso ;)

Sasha Portrait disse...

gente, eu preciso conhecê-lo.

Ivan Antunes disse...

blog belo.

Daniel disse...

Já tinha ouvido falar dele mas nunca li nada a seu respeito. Vou procurar ler algo, valeu pela postagem.

Tenho a mesma sensação de que o povo ama Fidel mas gostaria de um país aberto, apesar de que se fecharam para ele, né?! (Embargo)
Beijos

Rafael disse...

Nossa, que legal! Vou comprar essa semana um ou dois livors dele pra ler, tenho certeza que vai me inspirar no blog...
bjs

Luna disse...

como já disse antes sobre ele:eu daria.

Marcelo Mayer disse...

só não concordo com oq disse a respeito do "regime" socialista
sim, coloquei entre aspas porque aquilo não é um regime e muito menos socialista. é muito mais além, enfim...

ele é um putão latino!

Luna disse...

katrina, não sou boa com selos, demorei mil anos pra postar, mas indiquei teu blog viu flor?

beijo.

D i c a disse...

Preciso conhecê-lo!(2)

The Blues Is Alright disse...

Leitura é um lance tão complexo que neguinho não consegue entender muito bem. Porque se você lê e acha que entende, não entendeu. Quando você lê e não entende, há dois caminhos: continuar não entendendo e continuar para entender. Quando o que é escrito é para se entender, o que há nele são linhas de mentira, seja sobre o que for, incluindo sexo, manifestos intrínsecos a la PSTU e tantas otras cositas que parecem tão simples. Beijo.

Gian Fabra disse...

Li o 'Rei de Havana' indicado por uma amiga q havia voltado de Cuba e entrevistado ele. Realmente é forte e mexe com as entranhas.

Cuba é um lugar estranho. Contraditório. Não consigo ter uma opinião única a respeito.

bjs

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

concordo com teu texto

Márcio Ahimsa disse...

...essa arte nua e crua, essa arte com cheiro de gente, com fragrância de sexo, com rubor na tez da sociedade verdadeiramente real, essa que vive seus instantes sob fúria de desabrochar, de falar, de gritar as suas palavras em forma de ação cotidiana, de grunhir as sílabas evocando essas interjeições, que ficam às sombras do dia, que ficam sob os escombros da moralidade, sim, essa arte é a que gosto de sentir, aqui em minha pele, de sentir que sou um mero mortal e que tenho todas as sensações, e que tenho essa visão, que não é ofuscada pelo mimetismo de estar tudo claro e transparente... Como diria Adélia Prado, eu não quero nem a faca nem o queijo, eu quero é a fome...

Muito boa essa resenha sobre o Gutierrez...

Beijo.