sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A carta que não será mandada

É, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
e olha para trás

(Vinicius de Moraes e Toquinho - A carta que não foi mandada)




Não espero nada de você além de que invada meu corpo com violência, deixei a suavidade de lado quando invadiu o meu peito. Jamais te culparia por uma distância que ajudei a medir, mas não me culpe pela maneira que encontrei de desfazê-la. Ninguém poderia ensinar sobre o que é o amor quando esse amor não pode ser tratado como universal, jamais te amaria como amei os outros. Não cabe no meu peito, por isso reservei boa parte desse amor para ser guardado entre minhas pernas.
Não sou uma qualquer, bem se sabe. Uma qualquer acredita em amor a primeira vista e fala dele com docilidade e delicadeza de uma virgem, esperançosa pela vinda de seu príncipe encantado. Falo de amor com a segurança de quem sabe o quanto ele é afiado, faca de açougue, uma lâmina que guardamos no peito e poucos tem a destreza de não se ferir com ele. Equilíbrio circense, eu diria, os demais dizem que isso é equilíbrio emocional. Infelizmente, todo amor em mim é hemorrágico. Por isso prefiro abrir minhas pernas do que abrir meu coração. Nunca esperei por um príncipe encantado, o homem perfeito. Sempre esperei por você e suas imperfeições mesquinhas, o gosto acentuado dos seus lábios por todos os cigarros de uma noite e seu cheiro de boêmia.
Não sonho em ser acordada com alguma canção de amor ao pé do ouvido, se assim o quisesse, programaria meu rádio para me despertar com Chet Becker. Se quiser me despertar, que seja com um sexo oral, desculpe minha sinceridade de mulher despida de pecados, mas cansei de mentir. Não espere de mim algum convite para ver qualquer comédia romântica ao seu lado. A que vivemos não tem a mínima graça, mas aceito o seu convite para uma cerveja no domingo enquanto vemos futebol e rimos da narração imparcial e precisa do Cléber Machado.
Não acredito em fidelidade, mas jamais perdoaria uma deslealdade. Nunca te perdoaria se te encontrasse na cama com outra sem ter me convidado para se juntar a vocês.
Espere de mim apenas o meu amor, esse que nunca te abandonou mesmo quando eu me procurava em outros corpos. Esse mesmo que não se importa de ser correspondido se em troca eu possa lhe causar algum tipo de felicidade momentânea, com o desejo de um dia chegar a ser definitiva. Esse mesmo, que faz meus dedos escreverem em todos os lugares do meu corpo o seu nome e que não sabe o que é tempo. O que sempre me guia de volta a você.

19 comentários:

Eloisa disse...

Não acredito em fidelidade, mas jamais perdoaria uma deslealdade.
Tá se conectando telepaticamente comigo, é?

Tânia Marques disse...

Gosto do seu blog. por isso estou seguindo-o. Beijos

Daiana Costa disse...

Que coisa mais correspondente.

Daiana Costa disse...

Eu sou tua fã desde que me encontrei por aqui, menina. (:

Te sigo no Twitter. @Dai_andWalrus

^^

Érica disse...

:O
Incrível, que descrição rasgada do amor. Cabe bem, como eu nunca vi. Tanta coisa eu li aqui, amor, desejo, carne e coração, na medida e extravasado. Delicia ler algo assim, bom de verdade!
Beijos

Daniel disse...

Vejo a sua escrita na minha vida como se pudesse ser também um momento meu, que, aliás, já tive em algumas fases.

Mas sou do tipo que gosta de algupem para sempre, e com fidelidade, mesmo sabendo que o ser humano é sujeito a erros e infidelidade é algo difícil de muitas vezes conter.

Mas não me tornaria infiel por não confiar nos outros.

Gostei especialmente (porque gostei de tudo) de alguns trechos muito bons, na maneira como escreveu.

Beijos

Marcos Andrade disse...

Palmas!!

JaqueFonseca; disse...

Cada um tem seu jeito doido de amar. O seu é um dos mais sensatos que pode haver.

Denise Portes disse...

O amor sempre nos levando a muitos caminhos!Lindo!
Um beijo
Denise

Ma.chine disse...

Vinicius, Tom e Toquinho... sempre tinham razão...

Eu gostei daqui!

Seguindo...

Beijos

Glauco Guimarães disse...

tenho algumas cartas não enviadas... ser covarde é uma merda.

Mile Corrêa disse...

Linda, sincera, profunda.
Uma pena que não será enviada,
arrepiou a mim que nem te
conheço, imagine a seu amado!
I can't see any trash here!
:)

Eu,Pamela Gama. disse...

me identifiquei muito,o amor não precisa ser piegas é esse mesmo que eu procuro pra mim.

Luna Sanchez disse...

Pois deveria mandá-la, viu? Está ótima!

ℓυηα

Hank disse...

Ótimo texto, parabéns.
Você tem um jeito muito legal de escrever.
Cheers

Mai disse...

Katrina, os homens sonham com uma mulher que pense como eles. Enviar ou não é de menos, incrível é saber que mesmo assim dói e arrasa na mesma medida. Amor é fogo e se brincar, calcina. Mas você tem metáforas trágicas - como um amor hemorrágico. Eu não dispenso ler o que você escreve. E mandaria a carta.

Amanda Venicio disse...

Maravilhoso.

Por De Trás Do Abstrato disse...

"e que não sabe o que é tempo. O que sempre me guia de volta a você."

Muito bom o texto
Ja favoritei e vou voltar...
Abraço

Sentilavras disse...

Francamente, um dos melhores textos q já li. Por mim e por Gutiérrez.