quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sobre o dia que te carreguei no peito mas você nunca soube quando foi

São paulo 7 cigarros fumados batida beat sabor vodka. Levo de você um chiclete grudado no sapato, os dedos sujos de poeira e o coração pesado de esperança. Você me custa 2 passagens de ônibus e mais duas de metrô, custa 20 dias de trabalho 44 horas semanais telefones que não param de tocar, barulho infernal do teclado que não digita minha obra e do relógio que não mede meu tempo, uma vida estaticamente estável de merda onde nada mais acontece além dessa frustração de sempre, gosto amargo de vazio nos dedos, cadeira giratória que só gira a minha volta,

minha poesia que não volta porque ela fica em você, guardada em guardanapos que peço aos garçons dos bares onde sento com meus amigos para discutir sobre o que jamais seremos enfim, esqueça planos de Piva e Pignatari que ficaram para trás, maldita tatuagem que arde só para lembrar que não precisamos ser eles, podemos ser melhores e veja só, estamos na escala zero, temos o poema mas cadê a poesia? A poesia é essa proxima cerveja, é esse proximo sorriso, é a vontade de revolucionar que é rasa demais e se formos de cabeça morremos antes do suspiro final, esse que é o verso que temos medo de escrever, é o futuro que a gente deixa passar enquanto a conta é fechada e o desespero bate. Nunca vou pagar a Deus tudo o que devo. Você jamais vai se lembrar que estive dentro de você, pulsando violentamente enquanto te amaldiçoo pelo meu cansaço de correr antes que eu me atrase para a vida mais uma vez como sempre.

Perco o meu ônibus, mas não perco a poesia, porque esta eu nunca tive.

(só uma Ana C. resmugando em algum armário ao lado da Hilst, aquela velha desbocada)

Dentro da bolsa alguns dentes guardados, dois chicletes e alguns trocados pro café. Penso em você mais uma vez, não sei se em Caetano ou em Tom Zé, nunca mais ouvi nada de novo sobre você.

17 comentários:

HugoCrema disse...

Estamos na escala zero porque falta muito pra faltar muito pra faltar um segundo antes de morrermos. Cheio de amor torto, gostei do texto instável.

Dandara disse...

o dia foi a vida toda que ela existiu.

Ferdi disse...

Você revolucionou sua obra.

Guilherme Navarro disse...

O texto imprime uma velocidade na narrativa que tem tudo a ver com a mensagem. Isso demonstra uma habilidade ímpar. Parabéns!

Márcio Bergamini disse...

Gosto disso. Tem uma embriaguêz de tédio e languidez na atmosfera efêmera da vida. Tudo é motivo de poesia. Pena que muitos olhos não vêem.

Cáh disse...

Coisa linda, rs. Intrigante e engraçado.
A sua ausência em pontos e explicações agrada, e muito!


Um beijo infinito!

Naná disse...

''e se formos de cabeça morremos antes do suspiro final''



Muito bom!


:)

Maria Fernanda Probst disse...

rotina igual a todas as outras minhas.

;*

Vieira Calado disse...

Olá, boa noite, amiga!

Estou sem computador, em casa.

Estou num bar e sem muito tempo.

Desejo-lhe bom resto de fim de semana.

Bjs

Marcel Hartmann disse...

A tatuagem é pra não esquecer da dor que leva no coração. O amor é tatuado à sangue na esperança de algum futuro palpável, não só imaginável.

Stella Rodrigues disse...

Adorei esse texto, fico imaginando quando leio o que você escreve, cada palavra vai passando como filme, acho incrivel o modo com que a gente interpreta seus textos.

Tatiane Trajano disse...

Minha poesia está em você.

ow ow ow... desce mais uma cerveja!

Érica disse...

Tu sabe das coisas.

Maria Vieira disse...

como sempre, belas referências.

R. disse...

Sei lá, eu leio seus textos e vejo neles um tom noir, penumbroso, e te visualizo eu canto desses bares americanos de filme, sentada em um canto, o cigarro aceso, os olhos no vazio. Mas penso que as pessoas que escrevem tão bem deviam ser mais felizes (simplesmente por escreverem bem, oras) e então sua vida deve ser comercial de Doriana.

Bjs!

@l.a disse...

você como sempre me surpreende com seus textos ... vai longe menine *o*

Sentilavras disse...

Uauz!