segunda-feira, 21 de junho de 2010

Do décimo andar se vê algum ponto.


Respirou fundo, ultima carreira sobre a mesa. Fim de carreira, ele pensava entre um papel e outro, números que o engoliam sistematicamente todos os dias. Porque não virara hippie como sonhava na juventude? Agora vivia chafurdando na merda, seguindo a mesma profissão do pai, administrador de uma grande multinacional , doando o seu rabo todos os dias por milhões envolvidos. Lamentava-se pelo pai nunca deixar aparentar qualquer sinal de orgulho pelo filho único , era para seu filho adotivo que seu orgulho refletia nos olhos. Ele, grande executivo de uma famosa multinacional, nada mais era do que a continuação doe um sobrenome de respeito, não poderia jamais manchá-lo com seus sonhos hipongas de paz e amor, não importa o que fizesse, era tão somente sua obrigação como portador daquele nobre DNA continuar a escrever a história da família, fosse como fosse. Sua esposa amava apenas o que o seu dinheiro lhe comprava, desistira a algum tempo de se fazer amado por ela sem seu relógio de ouro e seu cartão de crédito sem limite. Se contentava em comprar seu amor aos poucos, e aos poucos, se iludia com a idéia daquele amor imaterial, atemporal como todos os grandes romances que lia em sua adolescência.

Era mais conveniente se acostumar a todas as mentiras que ele mesmo lhe contara. O pó sobre a mesa vinha apenas como fixador dessas idéias. Os sonhos, vinham depois, deitado no chão do escritório os desenhando no teto com um pouco de nanquim vermelho que saía da ponta de seus dedos que arranhavam sua pele. Única coisa real da sua vida, pois sentia o seu próprio corpo se contraindo contra si mesmo, pedindo por isso, algo que lhe era prazeroso e recompensatório. Pela janela, observava uma tempestade anunciada aos gritos, talvez mais um breve delírio, mas aquilo lhe chamava prá tal vida que pulsava em sua cabeça, veia latente que aos poucos e a qualquer momento, explodiria num aneurisma.

Juntou os papéis sobre a mesa, a prova dos desvios de anos e anos para contas secretas. Não se sentiria jamais culpado, mesmo que preso. Achava que era sua indenização por se meter em tanta merda sem reclamar por todos aqueles anos. Os guardou em um cofre, atrás de uma imitação de Picasso, esperava mesmo que os encontrassem quando o momento chegasse. O primeiro lugar a ser revistados nessas ocasiões são os quadros nas paredes, imaginava. Não tinha medo do destino daquele dia em diante, porque ele mesmo o traçara com o mesmo nanquim que traçava seus sonhos no teto. Horas antes se denunciara anonimamente à polícia, a tempestade do lado de fora o convidava a mais uma chance, queria ver o pai se decepcionar ao ver o sobrenome da família ser fragmentado em sílabas; talvez a tempestade encobrisse sua fuga, a esposa teria um ataque cardíaco ao saber que suas contas foram bloqueadas e seus bens leiloados ; os velhos documentos falsos no lado esquerdo do paletó poderiam ser danificados se fugisse na tempestade, mesmo que o próximo táxi ficasse na próxima esquina. Jogou pela janela o celular que tocava, o nome da amante em evidência o proibia de ir muito longe, a tempestade começara muito antes do seu desespero. Desafrouxara a gravata, coçava o nariz enquanto as mãos se perdiam no vasto cabelo, implante de alguns anos. Os olhos procuravam rotas de fuga, em algumas horas os policiais, não poderia fugir com o seu carro justo agora, chamaria atenção e chamar algum taxista até ali era arriscado demais. Sair sob àquela chuva foderia os documentos falsos, mas parecia a única chance real de fuga. Procurou em um dos armários um velho sobretudo do seu pai, que sempre o esquecia por ali. Pôs sobre si ás pressas, e saiu correndo levando consigo uma discreta pasta. Desceu as escadas por medo de encontrar alguém conhecido que posteriormente denunciasse seu comportamento estranho de sair sem guarda-chuva fora do prédio segurando uma pasta contra o peito.

No quarto lance de escadas, encontrou morador do seu mesmo andar que subia vagarosamente aquele lance. O cumprimentou, explicando sem mesmo que este exigisse qualquer explicação que sentia necessidade de alguma atividade física, e porquê não usar mais as escadas do prédio no lugar do elevador? O outro riu, dizendo que só estava subindo porque cometera um crime gravíssimo e usar o elevador era arriscado, não queria que ninguém soubesse que estava voltando para o prédio, a não ser ele, que nem mesmo sabia o seu nome e não poderia então denunciá-lo. Riram ambos, mas ele sabia que aquele desconhecido poderia muito bem ser um dos policiais que estavam na sua cola a muito tempo, disfarçados de vizinhos e que agora o encontrara e usava esse pretexto como piada. Não teve outra escolha a não ser concentrar toda a força que tinha em uma das suas pernas e acertá-lo bem no saco, o que fez que este caísse por alguns degraus em poucos segundos. Deixara o guarda-chuvas cair de uma das mãos enquanto tentava entender o porquê daquela agressividade se mal se conheciam. Aquele guarda chuva jogado aos seus pés era o passaporte perfeito para a sua liberdade até o próximo ponto de ônibus. A única pessoa que soubera da sua fuga do prédio estava morta, não havia mais nada que o impedisse e determinasse a hora exata da sua fuga. Quando a polícia chegasse ao seu escritório, ele provavelmente estaria muito longe dali, talvez dentro de um ônibus com destino a Buenos Aires.

A tempestade abafava qualquer som que não fosse os dos trovões e das gotas que batiam sobre o tecido fino daquele guarda chuva. Seus sapatos italianos não protegiam seus pés da dor que todo aquele frio lhe causava. Resmungava um pouco, mas aquilo lá, era a tal da vida que ele não tinha no décimo primeiro andar daquele flat. Na cabeça a certeza que se libertara de um sobrenome que tinha o peso do mundo sobre suas costas, de uma esposa que jamais veria o homem incrível que ele fora um dia, antes de se vender aos sonhos alheios de enriquecimento e subordinação e de um emprego de merda, que metia fundo no seu rabo todo tipo de frustração ao longo de 8 horas diárias e longos 20 anos. Pensava em deixar a barba crescer, voltar a tocar violão e escrever poemas. Uma vida mais saudável, no campo, sem qualquer substância química, valeria somente os chás e os baseados, um pouco de vinho chileno e boa comida.

Sorria, tão leve, como jamais conseguira em todos aqueles anos.

As pessoas nunca esqueceram aquele rosto, única pessoa que sorria enquanto todos se afogavam próximas ao ponto de ônibus.



* Desenho gentilmente cedido por Glauco Guimarães

4 comentários:

Glauco Guimarães disse...

Você não tem idéia de como fico lisonjeado de um desenho meu, ter inspirado um texto seu. Muito obrigado, mesmo! Bjs!

Tâmara disse...

Escrita Entorpecente!

beijos!

ju.perestrelo disse...

porra, tá muito bom. só tem talvez uma incoerência entre o título e depois o trecho "[...]vida que ele não tinha no décimo primeiro andar daquele flat."

Stella Rodrigues disse...

Sorria, tão leve, como jamais conseguira em todos aqueles anos.

nussa, entorpecente [2] fico ate sem palavras.