domingo, 1 de março de 2009

Diamante contra mármore

Eu a olhei, sim eu a olhei porque ela estava me olhando, e ela poderia estar olhando para qualquer outro mas não, foi alcançar os meus olhos entre tantos outros que estavam perdidos naquela festa, e, só por isso a olhei, mas eu não sei como ela é, só sei que a olhei como ela me olhava e eu jamais saberei então a cor daqueles olhos intactos aos meus de pedra mármore.

Ela simplesmente me olhava, não sei desde quando, mas me olhava sem reparar no meu terno alugado e já tão gasto e fora da moda e do meu cabelo sem corte algum, ela só me olhava como se isso não fosse nada, como se só eu e ela estivéssemos ali, mas meus amigos estavam falando sobre alguma coisa e eu só estava tentando extrair daquele silêncio frases inteiras sobre ela ou eu. E enquanto aquele silêncio me assombrava, eu ia bebendo qualquer coisa da qual eu só ia me lembrar no dia seguinte.

Todos ali pareciam tão parte daquela festa, coisas inseparáveis e mescladas, mas ela e eu não, estávamos a parte disso, alguma piada social de mal gosto da qual só íriamos rir depois de muito tempo, juntos. Ah, eu tentei reparar em sua roupa, esquadrinhar seu rosto, percorrer os detalhes do seu corpo, mas não, era só os olhos e somente eles, assim para mim como para ela.

Eu não ia me aproximar dela e nem ela de mim, era como um acordo de respeito mútuo, mas em que ambas as partes estavam prestes a ignorar. A maneira como me olhava me desmontava em pequenas peças de um infinito quebra cabeças que ninguém, a não ser ela, se atrevia a montar. O meu olhar sobre o dela não a afetava, era o que me parecia. Seus olhos apenas riam para o meu explícito medo de adolescente ao ser visto nu, com tantas partes que não eram assim agradáveis de serem vistas. Mas eu não me sentia ridículo, me sentia bem em saber que ela não estava assustada com o que estava descobrindo. Eu estava ali, totalmente aberto à ela e eu sabia que ela estava se abrindo para mim através daquelas enormes pupilas de diamante (diamante, pensei logo, destroí pedra mármore), talvez ela também queria que eu descobrisse o mesmo que ela havia descoberto em mim, como se fossémos iguais no fundo de nossas pupilas.

Eu ia quebrar o acordo, eu ia mesmo quebrar a merda desse acordo e ia sentir com os meus dedos as pálpebras daqueles olhos e só depois, só depois eu iria ver como ela era e isso, isso não me importava. Fui a passos largos e calculados, aquele medo terrível de que os olhos dela se fechassem ao me ver ali tão perto, mas não, estavam abertos como um abraço, e o meu coração ia contra a música lenta, violento e impulsivo. Diria a ela que ela poderia invadir muito mais do que dois velhos olhos cansados de ver oas mesmas coisas, perto dela tudo o que eu sentia estava renovado, tudo sabe, até todos os amores que vivi, é isso, já ia dizer a ela que eu a amava. Então eu ri, olhos fechados e nulos, ri de mim mesmo por estar vivendo esse momento, que nem eu sabia se algum dia alguma outra pessoa havia vivido.

Mas aí tudo foi tão rápido que eu mal pude aspirar um pouco daquele ar dela, eu mal pude tanta coisa que eu não consigo acreditar que foi mesmo, algo real. Abri os olhos, sorriso ainda esboçado nos lábios, preparado para mais um batalha, diamante contra mármore, mas e aí, onde estava meu oponente? A música alta, as pessoas altas quase que flutuando enquanto eu caminhava, passos frenéticos quase alguma dança de salão, penso agora que talvez um jazz sapateado, mas eu estava com o meu coração parado e os meus olhos a procurar os dela que eu não sabia nem como era, porque eu só olhava para ela e nada mais precisava ser visto além do que precisava ser visto. Respirei fundo e fiquei ali parado, como o meu coração e todas as minhas reações, todos dançando a música de suas vidas em toques nostálgicos pelos corpos suados. Se debatiam contra mim, uma estátua de mármore, não mais os olhos. Pensava se ela, em algum lugar ali, estaria também parada, desesperada a procurar pelos meus olhos para a guiarem para fora daquele lugar que não nos pertencia.

Peguei uma cerveja e sentei numa das cadeiras vagas do salão. Talvez ela também estaria sentada esperando que isso terminasse e novamente nos olhássemos.
E eu esperei a festa terminar para, só então descobrir, que aquele diamante havia riscado os meus olhos para sempre.

5 comentários:

Adriana Gehlen disse...

ai, tão bom olhar desse jeito.
(e depois ir tocar com os dedos, ah ... os dedos.)

NiNah disse...

Hey, moça.
Obrigada pela visita.
Gostei daqui.
Esses olhares, rss
Bjo

lisiê disse...

gente, ficar assim é tão inebriante! saudade desse sentimento.

R. disse...

O começo tinha um tom a la Caio F., sabe? Gostei. Aliás, como já disse o próprio Caio, "natural é as pessoas se encontrarem e se perderem". Seja em festinhas tocando um jazz sapateado, seja em olhares por aí.

:)

Bjs

Marcelo Mayer disse...

e nada como pegar uma cerveja.