terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Surdo - mudo

Assim que chegou ao Brasil, todas as grandes emissoras de tv e rádio lhe agarraram pelos calcanhares em busca de uma coletiva de imprensa, ou na melhor das hipóteses, uma exclusiva sobre seu maior feito: ter descoberto que um dos satélites de Júpiter, na verdade, era um planeta. E o melhor, com grandes possibilidades de vida, comprovadas posteriormente com o envio de uma sonda espacial à sua órbita.
Optou pela coletiva de imprensa, não achava justo monopolizar a grandeza de suas informações para poucos por nada. Sempre evitou ser egoísta, sendo apenas quando necessário. Ensinamentos do pai, rígido, que pedia para ter orgulho de ser quem era, mesmo pobre. "Egoísmo é uma palavra que nós pobres deveríamos não conhecer. Mas já que conhecemos, não podemos praticá-lo, certo?". A frase do pai o seguiu por toda a sua tragetória e ainda orbitava em seus pensamentos, mesmo agora, momento de glória, homem feito e de futuro traçado, como o pai desejava.
Durante a coletiva, respondeu cordialmente todas as perguntas abordadas a respeito dos seus trabalhos anteriores e principalmente, sobre o seu feito, sempre com os pés no chão e de maneira simples, querendo assim, que todos pudessem entender perfeitamente do que se tratava todos aqueles slides e gráficos exibidos as suas costas. Uma pergunta, em especial, feita por um jovem jornalista, o fez sair do casulo da impessoalidade:

- Senhor, quando foi exatamente, que decidiu optar pela carreira de Astrônomo?

- Na verdade, eu nunca quis ser astrônomo. Nunca me interessei por nada acima dos campos que eu via pela minha janela. O que eu sempre quis ser, na verdade, era agrônomo. Papai era dono de um pequeno sítio, um homem muito simples e muito afável, apesar da educação rígida que me transpassava. Sempre deixou claro que queria que eu fosse um homem de bem e com um diploma na mão. Como eu gostava daquela simplicidade toda, decidi então, que seria agrônomo, estaria sempre cuidadando das plantações do papai e, ao mesmo tempo, seria um homem formado, como ele queria. Pois bem, um dia ele me perguntou de supetão, o que eu havia decidido da vida, isso por volta dos meus 12 anos. Meio assustado, eu respondi rápido: agrônomo! Se passaram alguns dias, e no meu aniversário de 13 anos, meu pai me presenteia com uma luneta! Eu fiquei perplexo, sem entender nada. Não questionei o velho e muito menos desdenhei a engenhoca em minhas mãos. No dia seguinte, ouvi atrás da porta papai desabafando com mamãe: Ele havia vendido alguns lotes do nosso sítio para poder me presentear com a luneta. "Imagina só mulher, o menino quer ser astrônomo! Não é um futuro e tanto pro nosso pequeno? Sair por aí encontrando estrelas e planetas?"

- Mas foi dificil pro senhor se acostumar com a idéia de ser astrônomo, para agradar o seu pai?

- Olha, o velho se empolgou mais do que eu! Mas foi a melhor coisa que ele poderia ter me deixado de herança, independentemente se era algo que eu queria ou não. Foi visionário, viu mais em mim do que eu, com uma luneta em mãos, olhando para o universo. Ele tinha um problema, era meio surdo. Eu também tinha um problema, eu era meio mudo. Mas, agora só penso em uma coisa: quem sabe, quando a vida for viável em Deméter *, eu possa finalmente realizar meu sonho: Ser agrônomo! Espacial, claro, prá agradar o velho.


* Demeter, deusa da agricultura na mitologia grega

9 comentários:

Lego disse...

Nossa! esse ficou excepcional!

wallace Puosso disse...

você sempre surpreende. Sempre bom passar por aqui. bjs e bom fim de ano!

Sandra Botelho disse...

Poxa amei..Incrivel sim. Texto perfeito.
Bjos achocolatados

Henrique Miné disse...

ahha, que delícia de teexto!

É dessa simplicidaade que eu tanto gosto, parabéens!

beeeeijo!

Judy disse...

oi,tem um selo pra vc no meu blog.Pega la.

eupoeta disse...

Caaaaaraca mocinha!
Que enredo hein?
Qtos astrônomos não nascem por aí assim?
E qtas poesias a vida escreve entre contos, crônicas e textos vindos de olhares cmoo o seu?
Lindo viu?
Adoirei (o i é proposital mesmo, todo adorar tem um pouco de loucura).
Abreijos
Du

Guilherme Rodriguez disse...

Muito, muito, muito bom. Toda a trama, toda a poesia do personagem prende. (Eu é que fico feliz de ter encontrato seu blog, haha)

Márcio Vandré disse...

Eu queria ser astrônomo até que conheci a física.
Porque me preocupar com a gravidade se eu só queria ficar mais perto das estrelas?
:)

Juliana Amado disse...

hahaha. SENSACIONAL!!!!

Que ideia, hein!! Amei!