sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Bloco de notas.

Para Igor & Mauro.



Era a última folha do bloco de notas, já rasurada e amassada que demonstrava a agitação das mãos de Marcos sobre uma matéria em branco que, muito tinha o que se falar, mas mal sabia o que escrever. A primeira matéria longe da faculdade e do jornalzinho impresso às custas de seus pais, distribuído gratuitamente entre os seus amigos e demais alunos do curso de jornalismo da mais tradicional faculdade de São Paulo, e que para os amigos mais próximos, revelava com orgulho ter se formado com louvor e perspectivas de breve e rápida ascensão.


As pessoas daquele bairro da Zona Norte sobreviviam com louvor às adversidades da vida e não se orgulhavam nem um pouco de terem chegado onde estão. Certamente, o cadáver que Marcos acabara de ver, também não.


Sua mais aclamada matéria para o jornal Nossa Opinião (alusão muito bem sacada ,diriam os leitores, ao jornal que fez grande oposição durante os Anos de Ferro) foi a respeito da repressão do governo e das autoridades aos movimentos estudantis, que ganharam força nos anos 2000 com o advento da internet e, consequentemente, a rápida transmissão e compartilhamento da informação por todos. A política do “pão e circo” deveria acabar para que florescesse o real socialismo, mais técnico e ideológico. Até hoje, muitos dos seus colegas comentam a grandiosidade de uma matéria como aquela num jornal estudantil (que torciam, fervorosamente, para que Marcos repetisse o feito agora em um grande jornal).

O cadáver jogado no meio-fio da calçada sofria a repressão de um grupo de traficantes, que comandavam tanto as favelas daquela região quanto os bairros periféricos. Foram dois tiros no peito (um pouco abaixo da clavícula esquerda) e um no estômago (que aparentemente apresenta grandes possibilidades de também ter perfurado o fígado e o pâncreas). Era membro de uma ONG que batia de frente com os criminosos de forma pacífica, ao tentar afastar os jovens das promessas do tráfico com o auxílio dos esportes e da cultura, com respaldo pedagógico e psicológico necessário a pessoas que viviam todos os dias uma realidade insustentável. O cadáver ensinava aos jovens as técnicas para a mixagem de sons e batidas no hip-hop, promovia alguns concursos para a escolha da melhor letra ou do melhor MC. Ao seu lado, uma jovem gritava por justiça, mas não dizia o nome do cadáver, talvez pela dificuldade imposta por tamanha dor e descaso. Olhava para Marcos esperando que este tomasse qualquer iniciativa para com o corpo, mas ele só pensava em seu próprio corpo, trêmulo, e o bloco de notas amassado em uma das mãos com umas poucas anotações rasuradas. A ONG lutava para que a subprefeitura da região fechasse um convênio para a compra de computadores e a assinatura de banda larga, tendo como argumento a importância e a extrema necessidade ao acesso a todo tipo de informação para os jovens, futuros formadores de opinião. No instante em que Marcos rasurava mais um trecho de suas anotações, o projeto permanecia sob outros projetos, em algum departamento para o desenvolvimento social.


Os pais de Marcos, inicialmente, foram contrários à escolha do filho em cursar jornalismo. Onde já se viu, diziam, o filho de dois juízes escrever notinhas em jornalecos? O garoto era irredutível quanto a recuar em sua escolha, não se enquadrava naquela vidinha burguesa e buscava se libertar das amarras da sociedade consumista que lhe sufocava, mas se sentia muito aliviado quando sua mesada caía em sua conta corrente. No fundo, ele sabia: seus pais também já tiveram os mesmos objetivos mas tentaram os alcançar de outra forma, e se perderam no meio termo e das frases em rodapés. De qualquer forma, o que perderiam com um filho jornalista? O porta voz dos oprimidos e dos assinantes.



Os pais do jovem assassinado estiveram no local do crime para reconhecimento do corpo in loco. Não foram chamados pela polícia, mas souberam por um vizinho que talvez, seu filho único houvesse sido assassinado. O filho do qual eles, por 23 anos, economizaram um quarto de seus salários para aplicarem em uma poupança, para que ele pudesse, um dia, cursar uma faculdade e escapar daquela vida. O menino estava no terceiro ano de ciências contábeis e estagiava numa pequena empresa de contabilidade no centro de São Paulo. Os vizinhos comentavam que os pais sempre desejaram que o menino fosse doutor. O dinheiro economizado ainda não fora o suficiente para bancar a universidade, o que fez a mãe do garoto, que já era aposentada, voltar a realizar alguns serviços de costura para a comunidade. Fora sim uma boa escolha a do garoto, afinal. Mas agora estavam ajoelhados na calçada, a mãe segurando sua mão e o pai com sua cabeça ensanguentada no colo, ambos sem qualquer escolha. Os policiais tentaram em vão os afastarem da cena do crime, até que desistiram perante a impossibilidade de mais uma vez, afastarem os pais daquele menino. Marcos escrevia alguma coisa quando o pai, segurou sua mão, e pediu que incluísse na nota que o filho fizera muito pela comunidade e aquele era o agradecimento que recebia. É isso que dá querer mudar o mundo, dizia, não dá para mudar nem o bairro.


Marcos chegou no primeiro dia de trabalho na redação com a certeza de que impressionaria todos ali. Foi estagiário de uma revista de grande circulação nacional, e mesmo apenas tendo feito a redação de algumas matérias, trazia consigo a experiência de trabalhar sobre pressão e com precisão. Quando indagado pelos jornalistas próximos à sua baia sobre o trabalho de campo, confessava que era o que mais desejava fazer, a emoção de estar nas ruas, no momento em que tudo acontece, escrever a história e entrar para ela. Alguns de seus colegas riram, um deu um tapa em suas costas e um outro comentou que era sempre assim, nosso dia a dia, o reconhecimento de todos ao contribuírem de maneira significativa para a história. Melhor se acostumar a isso, ao reconhecimento diário e claro, as inúmeras oportunidades de mudar o mundo. São tantas que é muito difícil para um iniciante como ele, foquinha, escolher qual é a melhor para aquele momento. Marcos não sabia, mas era o que ele mais queria em sua vida.


As primeiras frases no bloco de anotações reserva (precavido, levou dentro da calça mais dois pequenos blocos de R$ 0,80) eram ilegíveis. Parte pelo nervosismo ao ver o jovem morto e parte por ter que relatar ao jornal o que aconteceu. O carro do IML chegou logo após as 16:00 horas, 2 horas após o jovem morto ter sido baleado por dois homens em uma moto. Os assassinos ainda não foram reconhecidos e ninguém anotou o número da placa do veículo. A mãe se apoia no carro para não desmaiar enquanto o pai fala com algum parente no telefone. O corpo é colocado dentro de um saco e retirado pelo carro do IML, seguido por uma viatura da polícia. A segunda viatura ainda permanece no local, acompanhando alguns peritos. Marcos foi até um bar ali próximo, sentou-se na mesa e pediu uma tubaína em garrafa e uma coxinha. Repassou cena por cena do que presenciou, além dos relatos que ele não recolheu, mas que ouviu ao seu redor. De onde estava, a visão era tragicamente privilegiada. Via a jovem que antes gritava, abraçar alguns amigos próximos. Os pais entraram na viatura e provavelmente se dirigiam a delegacia para enfrentar uma puta burocracia ao registrarem o B.O e provavelmente uma outra, ainda mais desgastante e humilhante, que seria a liberação do corpo do filho. As anotações foram além da notícia: fizeram uma história de 3 laudas, 2 tubaínas e 3 coxinhas. Paralelos entre suas vidas foram traçados e seus argumentos se afastaram da impessoalidade, transformando as anotações num relato fiel de quem talvez tenha presenciado desde o nascimento do garoto até a sua execução, uma testemunha ocular do calvário do jovem assassinado. Não daria outra, primeira página do caderno popular. Ainda não era o que ele esperava, mas já era um começo para um brilhante jornalista como ele. Já imaginava até a diagramação: meia página, uma foto no meio (ele havia tirado com uma câmera semi profissional que sempre carregava consigo em casos de emergência), talvez os dos pais ajoelhados com o corpo do filho. No caminho de volta para a redação pensaria num bom lead e em um título.


O chefe da redação chamou Marcos até a sua mesa e passou o seu primeiro trabalho jornalístico: Um cara foi morto a alguns minutos num dos bairros próximos do prédio e a pessoa responsável por esse tipo de matéria ainda não havia chegado e muito menos atendia os telefonemas.


- Vai lá e cobre o caso, e de preferência, seja breve. Não esquece do bloquinho e de uma boa caneta preta. Jornalismo é isso aí cara, tudo acontecendo ao mesmo tempo, e nunca estamos alertas o suficiente.


- Eu pensei que eu iria cobrir alguma coletiva de imprensa, você sabe, levantar alguns dados também. Sempre tive um certo talento para o jornalismo investigativo ou pro político.


- Cara, vai lá e cobre essa matéria antes que outro jornalista chegue antes de você. Vai lá levantar os dados com os moradores e a polícia, junte as peças do quebra cabeça e fica por lá até chegar outros jornais. Mas vai! Não fica pensando.

Sua matéria ocupou um box com pouco mais de 5 linhas, um pouco menor que uma das folhas do seu bloquinho de anotações.

Nenhuma das palavras utilizadas foi escrita por ele.



4 comentários:

Mauro Siqueira disse...

Então chegou ao fim do conto? Você disse que terminaria um dia... Não esperava esse final, para mim, que fez a leitura do rascunho, foi uma agradável surpresa.

p.s.: obrigado pela dedicatória a ele.

F. Reoli disse...

Caralho!!!

Camila Mancio. disse...

AMEI O BLOG ~~
BEIJOS E SUCESSO.
http://tepegonamoita.blogspot.com/

V.H. de A. Barbosa disse...

Gostei como vai de assuntos macro, gerais, até a perspectiva individual do rapaz.