sexta-feira, 24 de abril de 2009

Esquizofrênia.

Ligou aqui em casa, planos para o final de semana: encher a cara de vinho, queimar muita erva e esquecer de tudo que havia além das paredes da minha casa. Traria a irmã, se eu permitisse. Como dizer não?

Então abri a porta após a insistência mecânica da campainha, que eu jurei quebrar logo que pudesse. Ele entrou antes mesmo que eu o convidasse, mania irritante que ele jamais perderia, trazendo consigo sacolas com vinho e comida. Mas fiquei ali ainda ao pé da porta, paralizado com sua irmã, que invadiu meus olhos antes mesmo que eles percebessem a sua presença. Sorriu de uma maneira doce e suave, timidamente, agradecendo o convite que afinal eu não fizera.

Fiquei um tanto confuso, não queria que ela entrasse e se juntasse a nós, nessa nossa auto-depredação semanal. Não queria perder a suavidade daquele olhar sobre o meu sorriso. Mas a deixei entrar, devia ser mesmo igual ao irmão. Infelizmente.

Ele me puxou de lado, pedindo que a deixássemos na sala enquanto curtíamos nosso final de semana no quarto, estranhei. "Porque? Sua irmã não veio aqui prá se divertir com a gente?"

"Cara, tive que trazê-la, ela tem uns problemas aí e não pode ficar sozinha. Mas ele nem vai nos incomodar, é uma santa!"

"Mas ela sabe o que a gente vai fazer lá em cima?"

"Já disse, ela é uma santa, nem vai se incomodar com o cheiro."

Confiei incomodado com a situação. Pedi para que ele subisse e arrumasse as coisas no quarto enquanto eu tentaria deixá-la confortável na sala. Liguei a tv, peguei uns biscoitos e conversei trivialidades com ela, que sempre respondia com a voz muito baixa quase num sussuro, nunca deixando que eu a olhasse em seus olhos. Ele me chamou num grito para que subisse, respondi que esperasse mais um pouco, odeio quando me apressam. Ou odeio ele. Mas me senti mal em ter que deixá-la tão perdida naquele sofá. Ela sorriu confiante perante o meu receio, e disse que não estaria sozinha. Estaria com Jesus. Subi mais aliviado.

Estávamos distantes da realidade, quase isso, a gente estava no quarto mas estava fora dele, algo como ver as cores mais vivas mas ver as coisas mais mortas, o sorriso dele se alargando num verde doentio translúcido e os meus dedos necrosados se contorcendo até os meus olhos que seguiam o coelho branco pela parede com seu relógio parado, como nós dois. Ouvi-a ali embaixo como se debatesse dentro de um caixão após ser enterrada viva, e ela gritava Jesus, eu gritava Alice e ele gritava "porra, ela está tendo mais um ataque".

Descemos do paraíso ao inferno num lance de degraus. Ele agarrou sua irmã que se debatia tão freneticamente quanto as imagens e os sons ao meu redor.

"Ela fala com Jesus cara, porra, não te falei que ela é uma santa?"

Me proximei perto dela, olhei-a em seus olhos finalmente. Beijei a loucura deles e voltei para o paraíso.

6 comentários:

JaqueFonseca; disse...

Me perdi um pouco no final, no último parágrafo. Confesso. Mas no grosso, o texto é muito bom.

NiNah disse...

Caraca, esse seu texto, hein!
Muito bom.
Bjo

Adriana Gehlen disse...

boh

de esquizofrenica já chega a Shana da rua do Motel.

Nasca™ disse...

5 minutos, só eles já bastam.

:*

Caio Neiva disse...

Muito bom mesmo, mas acho que podia ter sido levado adiante.
Não sei se não o fez por motivos de não estragar o contexto ou desvirtuar...
Mas continua sendo bom.

Nadja disse...

Gostei desse,um pouco mais curto que os outros,mas muito bom...




bjosss




:)