quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Nem tenha um título, por não querer ser nomeado.

Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras. Sou formado em desencontros. A sensatez me absurda. Os delírios verbais me terapeutam. Posso dar alegria ao esgoto(palavra aceita tudo).(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrava um título para os seus poemas. Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do Mal. A beleza e a dor. Essa antíteseo acalmou.) As antíteses congraçam.

(Manuel de Barros)



Começo assim.


O alcançaria em meu voô noturno em plena claridade desta cidade inundada de escuridão, à contramão de mim mesma, dexisplicável ave de rapina com asas de borboletas e olhos de morcego que se esbaqueia, se esfaqueia rumo a ti. Tu que não te moves de ti, eu que não me movo de ti. Disperço meu tempo, apresso meu desvelo, que ora é apenas as cinzas desses meus amores-cigarros ( eu que não fumo), ora restos dos meus sonhos-copos-com-qualquer-alcool( eu que não bebo).
Sobrevoo estas flores que, não sei, sejam pedras-palavras tuas balas tão suaves que não matam, que atingem e escorrem pelo meu corpo como sangue quente, de feridas nossas, e que os meus lábios lambem para que, no encontro com os teus, acabem tendo todos os significados que deveriam ter (e que talvez não o tenham).

Continuo.
Tome fôlego (ou qualquer coisa que custe 4,50 em um bar)

Encontro-o derretendo-se em algum cruzamento da vida-grande cidade-imunda em que a chuva, essa tão idiota chuva ( lembre-se de Ben Jor Jorge, chove chuva, chove sem parar. Continue a letra e lá encontrarás o que digo), mas é você, enfim, a imundice dos meus olhos e a pureza do meu amor (Se não o fosse, São Paulo seria pura quase santa de tão exata em seus cruzamentos, mas, não é).

Talvez piedade, amor piedade.

Abraço-lhe com minhas asas multifacetas-multicoloridas-multidoloridas que vão se rasgando, pedaços que os bueiros vão escoando junto com isso, que diríamos, poderia ser algo como o meu parco amor próprio (mas não dizemos, estamos mudos, a chuva molha nossa voz).
Então nascem meus braços, meus olhos tem lentes e estou tão abaixo dos céus que nenhuma consolação é o bastante para o inferno que será chegar até o paraíso.

3 comentários:

Aquela par que virou ímpar. disse...

Tome fôlego (ou qualquer coisa que custe 4,50 em um bar)

vou lá.

F. S. Júnior disse...

"lábios que lambem", gostei disto, deveras. Diz muito com tão pouco.

Gi disse...

"Tu que não te moves de ti, eu que não me movo de ti."
estáticos ambos por um só.
adorei!