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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Fique.

A morte virá para os meus olhos mas também virá para os teus, não que eu deseje que ela apague esse brilho tão vivo dos teus olhos e tão opaco dos meus, mal iluminados na escassez disso que poderia ser o que chamam de amor.Fique e me deixe te respirar para o mais fundo de mim.

É de noite mas há um sol ardendo no céu e eu ando como um zumbi na escuridão e você está em todos os rostos de todas as pessoas que eu vejo, e sempre será assim porque eu sei que é assim que eu somente terei você.

Tudo é e continua tão amargo quanto aquele beijo que não se fez em teus lábios, que não se transformou em abraços e desfez apenas nessas minhas lágrimas secas, mas por favor, fique um pouco mais até que esse meu cigarro termine e eu pague a conta.

Talvez eu tenha perdido o controle e talvez você o tenha visto e não tenha se importado tanto com isso como eu queria que tivesse se importado.Eu sei que outubro chegará e você partirá com todas essas minhas noites mal dormidas e esses meus sorrisos que tentavam se encaixar sobre os teus, esses teus sorrisos maiores do que esta cidade ou que qualquer outra cidade que exista.

Fique um pouco mais, assim me olhando dessa maneira indecifrável, para que eu acredite que sim, é para mim que você olha, que você procura algo nestes meus olhos exaustos tanto quanto eu, tão sem graça como tantos lugares que você tenha passado e não se lembrado por qualquer motivo especial.Fique e deixe-me te desenhar mais uma vez na minha mente, para que nos meus sonhos eu possa ter o seu corpo e somente ele dentro de mim.

Fique.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Para um lírio partindo.

"Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?"
(Caio Fernando Abreu)



Olha, talvez eu não consiga realmente dizer tudo isso que eu deveria dizer num momento desses, como o quanto eu amo você e o quanto isso me faz bem e como tudo isso que vivemos e tudo o que planejamos viver é muito mais importante de tudo isso que eu já vivi sozinha e planejei sozinha. Eu queria que tudo isso fosse mais fácil, um até logo responda minhas cartas e pense em mim, mas não tem sido e eu não consigo mentir porque eu nunca consegui te enganar e você certamente sabe disso e finge que não está acontecendo nada demais e talvez até não seja mesmo nada demais e eu seja dramática demais, como eu sempre fui e serei.
Talvez eu nunca tenha lhe dito isso mas eu nunca consegui amar alguém assim como eu amo você, com toda essa sinceridade que eu nunca tive em nenhum dos meus sentimentos e nem comigo mesma, eu que nunca entreguei assim o meu coração e a minha alma e todos os meus sonhos a ninguém, e simplesmente assim entreguei a você por qualquer motivo inicialmente mas que agora e tão somente agora eu consigo entender o porquê: De alguma maneira você é tudo aquilo que faltava em mim e que me completa. Não sei se um dia eu consegui dizer isso a não ser quando eu e você estávamos bêbados dentro de um ônibus, você deitado no meu ombro procurando conforto para tudo isso, isso tudo que a gente vive e não entende, mas enfim, você é o homem da minha vida, dessa e de todas as outras vidas mesmo que eu nunca vá acreditar nesse barato místico e todo esse blá blá blá dos teus livros ocultistas. Eu sei disso hoje como soube naquele 03 de março de 2007 quando estávamos dançando talvez certo ou errado, nunca se sabe, transmition, e todos olhavam para nós como se fóssemos os únicos ali. E somos ainda os únicos ali compartilhando a mesma música e a mesma vontade de se libertar de tudo e ficar cada dia mais presos ao amor um do outro, porque somente o amor pode dar asas verdadeiras a nós Ícaros.
Talvez eu não tenha vivido intensamente com você entre todos os cigarros e aquelas tequilas e vodkas e aquele wisky pela metade debaixo da sua cama nessas suas noites em que você sentia você mesmo, esses momentos que você me ligava só prá dizer que me amava e que eu respondia mesmo sabendo que nem precisava, era retórico.Mas eu vivi o suficiente com você e suficientemente para ser intenso para mim, essas coisas que eu jurava que eu jamais iria fazer e acabava fazendo, há uma lista enorme mas que somente eu e você saberemos os itens.
Eu que já fui simpática a você, colega, mera amiga, que te odiei, voltei a ser amiga e me apaixonei e quebrei a cara e te deixei de lado sem dizer nada e voltei e agora não sei o que eu sou e nem o que você é e nem o que somos.
E agora olhando para o meu quarto e olhando para mim mesma pelo reflexo da janela eu vejo o quanto dói saber que você vai embora, porque tudo lembra você, desde os meus livros e eu incluo aquele do Vinicíus de Moraes comprado numa tarde feita de poeira e de sonhos, até o botom que eu estou usando agora e que me perdoe mas não irei devolver assim como os teus cd's e aquele livro do Ferreira Gullar, porque porra, tudo isso tem você ali em cada verso e em cada nota.E todas as minhas roupas que mesmo que bem lavadas por mim ainda carregam a fumaça dos seus cigarros e dos cafés que você sempre fazia para mim em sua casa, esse refúgio que eu encontrava para esquecer um poucos dos meu problemas ou compartilhar eles com você ou simplesmente ficar em silêncio, esse silêncio que nos confortava e que era tão cheio dessas palavras que a gente nunca dizia um pro outro por serem desnecessárias. Daqui a pouco eu vou ter que trabalhar e eu sei que eu vou passar por aquela praça, a nossa praça, e que a partir de segunda feira eu vou passar e até me sentar para fumar, e sentir aquela ansiedade horrível, olhando para todos os lados,te chamando de desgraçado por que está demorando demais para me encontrar lá.E é claro que eu ainda vou prá esperança fazer a minha zeca hora, olhando para além daquelas janelas, imaginando como é que você vai chegar e me encontrar, feliz, vaga ou simplesmente meio besta demais quando os meus olhos encontram os seus e encontram eles mesmos ali.E eu não vou dormir nos finais de semana, vou ficar enrolando e olhando pro meu celular esperando uma ligação sua me descrevendo o seu porre e todas as coisas que aconteceram no bar, e que por algum motivo eu vou rir e vou falar para você parar de beber por aquela noite e você vai dizer, claro amigona, e vou rir demais disso e desistir, puxar outro assunto como o filme que eu vi ou o que tá tocando no Altas Horas. Prá ser sincera, toda a merda de Mairiporã em cada detalhe vai me lembrar você. E vai doer demais porque eu vou viver pela metade de tudo, porque eu vou ser uma metade vagando por aí esperando você voltar com as minhas esfihas de carne, justo agora que eu estou de regime mas tudo bem, eu vou comê-las porque você demorou demais para trazê-las e seria injusto com você se eu as negasse. Talvez nem vá domingo, talvez vá sábado fugido de todos, ou nem vá e esteja dando risadas de todos nós que estamos sofrendo e principalmente de mim que fui hoje prá faculdade com os olhos inchados e desesperada por um café, muitos cafés, talvez um outro dia aí muito longe, mas eu sei que você vai embora como tudo que não tem uma raiz mas que mesmo assim ainda é vivo e cresce, amadurece e morre, mas morre rapidamente se preso a algum lugar. Posso estar errada, mas eu sei disso porque somos um ká, um feito de muitos, e compartilhamos aquele velho sonho de perambular pelo mundo e morar em São Paulo ou talvez em Passo Fundo se tudo der certo e ainda vai dar ou porque não Buenos Aires?
Somos coração e alma.
Espere mais um pouco, odeio ver um lírio partindo.

domingo, 3 de agosto de 2008

Todas as cores do céu que é o seu olhar

A manhã parece estranha, quase fora do lugar assim meio apagada, talvez pelas janelas fechadas
que tornam o quarto tão frio tanto quanto quem está sobre a cama
e que impedem que veja

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Negro
como a morte que logo vem e que sempre está ao meu lado
nessas noites em que eu posso senti-la através das garrafas espalhadas e cigarros apagados
e que a espero
com um baralho aberto de cartas marcadas para mais um jogo sujo
assim como

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Branco
alguma pureza em mim, nem que seja ódio puro ou pura ignorância de todas essas coisas simples que existem e que eu quero ver e sentir
preciso ver e sentir
preciso aspirar para dentro de mim
para me separar disso tudo que me fere
e me jogar contra

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Cinza
impureza condensada dentro de mim
esparramada para fora dos meus olhos
quase que tocável e imutável
tanto quanto

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Vermelho
essa loucura que me cega
que deixa nos meus lábios o sabor do sangue
de todas aquelas coisas boas que eu matei dentro
de mim e de outras pessoas
e que eu sei o deve ser ao certo, mas ignoro
porque eu só me importo com

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Amarelo
obsessivo e doentio
desejo de correr para onde
eu possa encontrar algo no que acreditar
e voar sem asas em direção a

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Azul
triste percorro os olhos
que não encontram
o mar existente acima de mim
de estrelas ou nuvens ou mesmo
esse mar que eu só encontro em

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Púrpura
como tudo que vai aos poucos morrendo
sem um sol para guiar
assim como eu vou morrendo
sem ter com o que ser guiado
Ansiando fugir para bem longe daqui
fugir e encontrar finalmente

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Para se perder no abismo que é pensar e sentir II

Não sei traduzir o porque ou como de ainda enxergar você no meio de tanta luz e prédios vestidos de preto, escondidos na noite daquela cidade imensa e silenciosa apesar dos carros e todas aquelas pessoas tão solitárias quanto eu ou você.
Como eu queria que tivesse me deixado te levar para o meu lugar de saudade e que tivesse vivido um pouco mais desta noite comigo. Parte minha, vida, que queria ter te apresentando pessoalmente depois de algumas longas conversas e cigarros e doses de qualquer coisa que me deixe distante do que sou.
Te levaria aos meus sonhos mais vazios que ficaram por lá e tudo que construi de mais sólido. Teria te ensinado a viver e entender aquela dança de luzes brancas e vermelhas tão confusas, tão simples que você já deve ter se esquecido, certamente.
Apresentaria o meu passado, o que eu fui e o que eu conheço que não está tão perto. Assim como você, mais longe do que eu gostaria e mais perto do que eu possa prever. Você que eu não conheço tanto ou quase nada,ou que conheço tanto e que conheço mais do que qualquer outra pessoa.
Foi tudo tão rápido que você nem levou algo deste pretérito com você, nem ao menos alcançou o que ele carrega de belo e também frágil. Se na sua memória ficou algum filme antigo em preto e branco, talvez na minha ainda seja o último filme em cartaz:
Para se perder no abismo que é pensar e sentir.

domingo, 15 de junho de 2008

Cinzas da noite

Flores se consumindo em sombras e sumindo além das nossas ambições que viram cinzas a cada cair solitário da noite sem ruído e sem movimento, silenciosa como a morte e triste como nossa vida, uma noite assim feita apenas para os desesperados decadentes que sentem prazer entre maços de cigarros e vodkas e lembranças que os fazem beber mais e fumar mais até não sentirem mais o amargo sabor da frustração em seus lábios,que procuram em uma romaria desiludida pelas ruas mal iluminadas e sujas da cidade(qualquer cidade) por alguém que lhes possa oferecer o sexo como um cálice transbordando de vinho(qualquer sexo), que rasgam suas almas em caminhos de utopias medíocres e inúteis e tolas como todos em sua visão de si mesmos ao longo de suas tão medíocres e inúteis e tolas vidas, que dão seus primeiros de muitos passos em direção ao abismo que é não saberem quem são de verdade e viverem e caminharem em mentiras.E as flores continuam se consumindo em sombras num maldito círculo vicioso até se tornarem mero resto de cinzas de uma noite que não queima mais.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Interlúdio em fá menor

Para Rennan, que me faz sonhar às vezes

Estamos eu e você naquela avenida que pode ser a Paulista ou a Tabelião Passarella mas não importa agora qual delas seja, o que importa é que estamos eu e você entre prédios e luzes e uma avenida vazia e aberta para os nossos sonhos numa dessas noites que a gente não consegue dormir.Estamos caminhando e conversando sobre qualquer coisa trivial quando você assim tão de repente me convida para dançar naquele absoluto silêncio preenchido apenas pelo som dos nossos passos e das nossas respirações e eu lhe digo que aceito mesmo sem saber dançar no ritmo do silêncio e você diz que eu sou boba e me conduz.Uma música começa a entoar e começamos a dançar e a cantar a letra mesmo sem nunca termos a ouvido antes.Rimos ainda cantando e você me diz que ela vem do coração e é assim mesmo essas coisas inexplicáveis do coração.Então percorremos dançando por toda aquela avenida até o seu fim quando descobrimos que ela não tem um fim.Procuro no relógio as horas e descubro que já não é mais noite e muito menos dia,apesar da escuridão cravejada de estrelas que brilham menos que o seu olhar e uma lua que flutua nesse céu tão pacato.Parados ali contemplando toda a extensão daquela avenida você me pergunta se eu iria com você até o final dela e eu lhe digo que eu iria com você mesmo se ela jamais houvessem um final.Continuamos a nossa dança enquanto fumamos o nosso cigarro favorito e a avenida não tem fim, eu te amo eu digo e a avenida não tem fim, eu te amo você me diz e a avenida não tem fim.Um dia estaremos com eles aqui você diz e a avenida não tem fim.Vamos esperar por eles então eu digo e a avenida não tem fim.Acordo então sozinha na escuridão do meu quarto e lamento que tenha sido apenas um sonho.Mas meus dedos estão cheirando ao nosso cigarro e eu me sinto cansada e feliz,então acho que tudo aquilo aconteceu.Aconteceu porque você é real.