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domingo, 3 de agosto de 2008

Todas as cores do céu que é o seu olhar

A manhã parece estranha, quase fora do lugar assim meio apagada, talvez pelas janelas fechadas
que tornam o quarto tão frio tanto quanto quem está sobre a cama
e que impedem que veja

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Negro
como a morte que logo vem e que sempre está ao meu lado
nessas noites em que eu posso senti-la através das garrafas espalhadas e cigarros apagados
e que a espero
com um baralho aberto de cartas marcadas para mais um jogo sujo
assim como

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Branco
alguma pureza em mim, nem que seja ódio puro ou pura ignorância de todas essas coisas simples que existem e que eu quero ver e sentir
preciso ver e sentir
preciso aspirar para dentro de mim
para me separar disso tudo que me fere
e me jogar contra

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Cinza
impureza condensada dentro de mim
esparramada para fora dos meus olhos
quase que tocável e imutável
tanto quanto

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Vermelho
essa loucura que me cega
que deixa nos meus lábios o sabor do sangue
de todas aquelas coisas boas que eu matei dentro
de mim e de outras pessoas
e que eu sei o deve ser ao certo, mas ignoro
porque eu só me importo com

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Amarelo
obsessivo e doentio
desejo de correr para onde
eu possa encontrar algo no que acreditar
e voar sem asas em direção a

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Azul
triste percorro os olhos
que não encontram
o mar existente acima de mim
de estrelas ou nuvens ou mesmo
esse mar que eu só encontro em

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

Púrpura
como tudo que vai aos poucos morrendo
sem um sol para guiar
assim como eu vou morrendo
sem ter com o que ser guiado
Ansiando fugir para bem longe daqui
fugir e encontrar finalmente

[Todas as cores do céu
do céu que é o seu olhar]

domingo, 27 de julho de 2008

Cama desarrumada

Eu pronuncio teu nome,nesta noite escura,e
teu nome me soa mais distante que nunca.Mais distante que todas as estrelas e mais
dolente que a mansa chuva
(Federico Garcia Lorca)

Melhor desnascer do que ver esta cama desarrumada, um vazio permanente e doentio que amassa os lençois tão caros que somente minhas mãos sentiram a delicadeza e a maciez dos linhos intercalados que formam a tua pele alva cálida e alinhada á minha pele apenas.O quarto revirado tanto quanto eu por dentro e por fora deste corpo-pensamento, mostra as roupas espalhadas pelos cantos da minha memória que são essas suas peças intímas indecifráveis sobre as minhas assim não tão intímas, meu cd's e sonhos quebrados em músicas que nunca mais serão ouvidas inteiras novamente, mas apenas em pedaços que não voltarão mais a serem inteiros, assim talvez como eu e você, em pedaços ainda menores do que nos sobraram dos pedaços que éramos antes de nos encontrarmos inteiros um do outro.Fotografias rasgadas pela metade nos separando mais ainda do que estamos, eu em alguma parte esquecido onde teus olhos não podem me alcançar e você debaixo da cama entre a poeira dos dias que foram e a escuridão deste meu peito amargurado e angustiado por viver satisfeito com a metade do seu amor, que não é nem a metade da sua vida.Nossos sapatos lado a lado denunciam nossos pés nus que caminham por ruas diferentes e que afinal não nos levarão ao mesmo lugar e a lugar algum.A porta que não se fecha e que não se abre inteiramente bate continuadamente de madrugada (com o sol nos meus olhos), insistindo nessa falta tão seca quanto as flores no jarro da mesinha de cabeceira, onde guardo todas as cartas que escrevi e que ecoam tanto quanto as que não escrevi e que agora gritam para serem escritas, mas a quem eu as enviaria se agora o que me resta é uma cama desarrumada pela última vez que
fui mais do que pedaços e poeira
que você foi mais do que roupas espalhadas e músicas quebradas
que fomos mais do que fotografias rasgadas e flores secas
Fomos uma cama desarrumada.