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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sobre o que é amar [OU um monólogo doentio enquanto Eu sei que vou te amar toca em algum lugar.]

Para Diogo.

Ame sim, ame forte, ame intenso, mas ame em liberdade. Por isso, todas as coisas que amar, deixe-as livre.Se voltares é porque às conquistou, se não voltares é porque nunca às teve.
(Fernando Pessoa)



Eu não sei como começar a lhe dizer isso então eu acho melhor te tocar para que você sinta a minha pele arrepiada como sempre fica quando toca ou pressente a tua, e assim você saberá o quanto de você permanece em mim. Eu te amo e sempre irei te amar, e isso é tão simples e tão bobo até que eu acho que você não deve ter se impressionado com isso, porque eu sempre te disse o quanto eu te amava e o quanto eu te amaria até o final dos meus dias e toda essa coisa melosa que casais falam e que sempre falarão mesmo sabendo que amanhã ou depois isso será uma grande mentira e para um dos dois, ou para ambos, irá doer mais do que jamais ter ouvido algo assim.
Eu te amo e sempre irei te amar porque você me fez encontrar em seus olhos a mim mesmo, tão perdido e tão fragmentado e espalhado por tantos cantos como alguma poeira, algum resto de nada e eu deveria ter milhares de outros motivos para te amar e que talvez você até saiba quais são, mas eu prefiro deixá-los subtendidos assim nesse nosso sorriso, nesses nossos olhos que sorriem um para o outro e nesses nossos lábios que olham fixamente um para o outro.Acho que você está fria demais, deve ser o tempo que esfriou lá fora ou qualquer coisa assim, e é claro que eu vou tentar aquecer as suas mãos com as minhas, que já estiveram por todo o seu corpo assim como as suas já estiveram por todo o meu corpo, e que assim como nossos corpos também já foram uma única mão, nesses momentos em que eu não sabia qual era a minha língua ou onde estava a minha perna ou se realmente o meu peito era mesmo o meu peito, e tínhamos um cheiro único, só nosso e que só sentíamos embriagados de amor e de prazer e luxúria, e nem precisávamos estarmos em uma cama ou no sofá ou simplesmente no chão da sala e do banheiro, esse cheiro exalava até quando andávamos de mãos dadas pelas ruas, e até aí eu também não saberia dizer qual mão era a sua ou a minha.
Eu te amo e sempre vou te amar mesmo nessa sua despedida, mais uma entre tantas outras que me levaram ao desespero e a angústia de me sentir perdido e mais sozinho do que jamais antes alguém já fora, jogado no deserto que carrego dentro de mim e que você sempre floria com essa sua vida que explodia em cada movimento do seu corpo em direção ao meu em cada volta sua, que trazia de volta a mim mesmo essa vida que eu deixava de lado sem motivo algum de viver sem você. Estou mais conformado agora e talvez seja porque eu sei que logo você voltará como sempre volta, e é bom acreditar nisso, eu que era tão cético e que ria dessas suas bobagens transcendentais e que agora vejo que a maior bobagem é não ter fé em nada, e eu preciso ter fé para acreditar que ainda estaremos juntos novamente, e é para isso que eu irei viver, unicamente para te reencontrar, para dizer que eu te amo e que eu sempre vou te amar e que isso nunca será o suficiente, que eu não te disse o suficientemente para que você se sentisse verdadeiramente amada por mim.
Eu te amo e sempre vou te amar porque você fazia que eu me sentisse mais forte mesmo sabendo que eu sempre seria a parte mais frágil da relação, o que sempre se questionaria sobre o que é amar e se você está sendo corretamente amada por mim, e meu deus, você sabe que eu daria a minha vida e todas as outras vidas para ter essa certeza. Mas não, você quis esse papel de frágil somente para você e o interpretou até o fim, mesmo sendo a mais forte de nós dois, aquela que sabia que era amada e não me questionava jamais sobre isso mas também não demonstrava, talvez achando que isso a deixaria frágil realmente ou apenas para testar até que ponto eu seria forte o bastante para suportar isso de amar e não ser amado, e eu seria porque amá-la era o único propósito a que eu vim ao mundo. Mas mesmo agora, você continua interpretando a frágil mulher de lábios muito vermelhos e mãos geladas e sorriso extremamente singelo coberta de flores e lágrimas. Eu sei que todos estão me olhando como se eu fosse algum cara que de repente fosse me jogar em seu caixão e não querer mais sair dali, implorando pela morte enquanto cera quente caí sobre a minha pele, eu iria dizer que essa dor não é nada comparada a essa, mas você sabe que eu não faria isso.Eu vou esperar, acho que não tanto quanto seria o certo, mas eu vou esperar para viver ao seu lado por toda a minha vida.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Para um lírio partindo.

"Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?"
(Caio Fernando Abreu)



Olha, talvez eu não consiga realmente dizer tudo isso que eu deveria dizer num momento desses, como o quanto eu amo você e o quanto isso me faz bem e como tudo isso que vivemos e tudo o que planejamos viver é muito mais importante de tudo isso que eu já vivi sozinha e planejei sozinha. Eu queria que tudo isso fosse mais fácil, um até logo responda minhas cartas e pense em mim, mas não tem sido e eu não consigo mentir porque eu nunca consegui te enganar e você certamente sabe disso e finge que não está acontecendo nada demais e talvez até não seja mesmo nada demais e eu seja dramática demais, como eu sempre fui e serei.
Talvez eu nunca tenha lhe dito isso mas eu nunca consegui amar alguém assim como eu amo você, com toda essa sinceridade que eu nunca tive em nenhum dos meus sentimentos e nem comigo mesma, eu que nunca entreguei assim o meu coração e a minha alma e todos os meus sonhos a ninguém, e simplesmente assim entreguei a você por qualquer motivo inicialmente mas que agora e tão somente agora eu consigo entender o porquê: De alguma maneira você é tudo aquilo que faltava em mim e que me completa. Não sei se um dia eu consegui dizer isso a não ser quando eu e você estávamos bêbados dentro de um ônibus, você deitado no meu ombro procurando conforto para tudo isso, isso tudo que a gente vive e não entende, mas enfim, você é o homem da minha vida, dessa e de todas as outras vidas mesmo que eu nunca vá acreditar nesse barato místico e todo esse blá blá blá dos teus livros ocultistas. Eu sei disso hoje como soube naquele 03 de março de 2007 quando estávamos dançando talvez certo ou errado, nunca se sabe, transmition, e todos olhavam para nós como se fóssemos os únicos ali. E somos ainda os únicos ali compartilhando a mesma música e a mesma vontade de se libertar de tudo e ficar cada dia mais presos ao amor um do outro, porque somente o amor pode dar asas verdadeiras a nós Ícaros.
Talvez eu não tenha vivido intensamente com você entre todos os cigarros e aquelas tequilas e vodkas e aquele wisky pela metade debaixo da sua cama nessas suas noites em que você sentia você mesmo, esses momentos que você me ligava só prá dizer que me amava e que eu respondia mesmo sabendo que nem precisava, era retórico.Mas eu vivi o suficiente com você e suficientemente para ser intenso para mim, essas coisas que eu jurava que eu jamais iria fazer e acabava fazendo, há uma lista enorme mas que somente eu e você saberemos os itens.
Eu que já fui simpática a você, colega, mera amiga, que te odiei, voltei a ser amiga e me apaixonei e quebrei a cara e te deixei de lado sem dizer nada e voltei e agora não sei o que eu sou e nem o que você é e nem o que somos.
E agora olhando para o meu quarto e olhando para mim mesma pelo reflexo da janela eu vejo o quanto dói saber que você vai embora, porque tudo lembra você, desde os meus livros e eu incluo aquele do Vinicíus de Moraes comprado numa tarde feita de poeira e de sonhos, até o botom que eu estou usando agora e que me perdoe mas não irei devolver assim como os teus cd's e aquele livro do Ferreira Gullar, porque porra, tudo isso tem você ali em cada verso e em cada nota.E todas as minhas roupas que mesmo que bem lavadas por mim ainda carregam a fumaça dos seus cigarros e dos cafés que você sempre fazia para mim em sua casa, esse refúgio que eu encontrava para esquecer um poucos dos meu problemas ou compartilhar eles com você ou simplesmente ficar em silêncio, esse silêncio que nos confortava e que era tão cheio dessas palavras que a gente nunca dizia um pro outro por serem desnecessárias. Daqui a pouco eu vou ter que trabalhar e eu sei que eu vou passar por aquela praça, a nossa praça, e que a partir de segunda feira eu vou passar e até me sentar para fumar, e sentir aquela ansiedade horrível, olhando para todos os lados,te chamando de desgraçado por que está demorando demais para me encontrar lá.E é claro que eu ainda vou prá esperança fazer a minha zeca hora, olhando para além daquelas janelas, imaginando como é que você vai chegar e me encontrar, feliz, vaga ou simplesmente meio besta demais quando os meus olhos encontram os seus e encontram eles mesmos ali.E eu não vou dormir nos finais de semana, vou ficar enrolando e olhando pro meu celular esperando uma ligação sua me descrevendo o seu porre e todas as coisas que aconteceram no bar, e que por algum motivo eu vou rir e vou falar para você parar de beber por aquela noite e você vai dizer, claro amigona, e vou rir demais disso e desistir, puxar outro assunto como o filme que eu vi ou o que tá tocando no Altas Horas. Prá ser sincera, toda a merda de Mairiporã em cada detalhe vai me lembrar você. E vai doer demais porque eu vou viver pela metade de tudo, porque eu vou ser uma metade vagando por aí esperando você voltar com as minhas esfihas de carne, justo agora que eu estou de regime mas tudo bem, eu vou comê-las porque você demorou demais para trazê-las e seria injusto com você se eu as negasse. Talvez nem vá domingo, talvez vá sábado fugido de todos, ou nem vá e esteja dando risadas de todos nós que estamos sofrendo e principalmente de mim que fui hoje prá faculdade com os olhos inchados e desesperada por um café, muitos cafés, talvez um outro dia aí muito longe, mas eu sei que você vai embora como tudo que não tem uma raiz mas que mesmo assim ainda é vivo e cresce, amadurece e morre, mas morre rapidamente se preso a algum lugar. Posso estar errada, mas eu sei disso porque somos um ká, um feito de muitos, e compartilhamos aquele velho sonho de perambular pelo mundo e morar em São Paulo ou talvez em Passo Fundo se tudo der certo e ainda vai dar ou porque não Buenos Aires?
Somos coração e alma.
Espere mais um pouco, odeio ver um lírio partindo.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Toda a praticidade da solidão

Para Arthur.

-E aí,que horas você foi dormir? Pelo jeito nem dormiu direito

Não sei se deveria responder a verdade, então resolvi me calar. Deveria ter dito "cacete cara, dormi mal prá caralho", o que não deixa de ser verdade afinal tenho dormido mal prá caralho nos últimos dias. Correção,últimos anos. Não sei como isso começou, talvez quando eu me mudei para São Paulo. E sim, ela foi a causadora da minha insônia com suas luzes artificiais iluminando toda a escuridão da minha vida até então. Outra coisa que também ajudou: odeio claridade, desde muito jovem já não era muito adepto da luz natural. Logo é mais confortável para mim dormir durante o dia e viver de noite. Deve ser por aí, uma junção do que evito com o que prezo. Não tô nem aí para o barulho da avenida do lado aqui de casa, até gosto para ser bem sincero. Não tem como morar em São Paulo e não ser obrigado a gostar desse tipo de barulho. Não que sejam realmente obrigados a gostar do barulho incessável de São Paulo, apenas com o tempo todos acabam se acostumando. No final todo mundo ama.
Vejamos, sou tímido. Aquele sujeito que fica bebendo e fumando no balcão e observando o movimento ao seu redor sempre muito quieto. Durante a minha permanência no bar algumas pessoas acabam indo falar comigo, não sei porquê. Pessoas sozinhas e desesperadas, algumas vezes bêbadas que só querem conversar. Na verdade só querem ser ouvidas, e é o que eu proporciono. Acabo sendo um bom ouvinte: elas falam e eu finjo que escuto e no final falo qualquer coisa totalmente simbólica, bem rebuscada mesmo com termos que só se encontram em dicionários, e que elas fingem que entendem. Ponto, todo mundo sai ganhando.O bar nos últimos dias tem sido o meu segundo lar. Sempre ali no mesmo balcão bebendo e fumando sem objetivo algum. Não que eu seja alcoolátra, talvez ainda não ou talvez eu já seja e não queira admitir. Enfim, o dinheiro anda em falta ultimamente. Sou repórter policial de vez em nunca. Não que não haja material para as minhas reportagens mas como é um ramo que cresce muito, tanto o jornalismo quanto a violência, o mercado de trabalho anda meio saturado entende? Já trabalhei em um grande jornal, anos atrás. Escrevia sobre política. Interessante não? Ganhava bem e tinha certa liberdade para escrever, bom era o que eu achava. Acabei escrevendo uma matéria um tanto que ousada sobre um certo político importante na época. Fui despedido sem justa causa e sem nenhum direito trabalhista. Acabei aceitando o emprego de escrever obtuários num jornal de pequeno porte, já que o dinheiro andava curto demais. Desespero sabe? Inicialmente me envergonhava de estar ali, sendo que eu poderia estar colhendo os louros da vitória se eu continuasse quieto e conservador no outro jornal. Com o tempo fui é me sentindo orgulhoso do meu feito, não ter me calado frente a tanta corrupção. Quem sabe futuramente meu nome seja lembrado nas faculdades de jornalismo?
Então, ainda tenho alguma coisa até o final do mês para as contas principais como a comida, a água, a energia e claro, pro bar.Quando sobra alguma coisa gasto em diversão.Diversão: Mulheres.Mulheres: Prostitutas. Como eu já disse,sou um cara tímido que fica bebendo e fumando num balcão e pessoas acabam vindo conversar comigo. Nunca fui muito bom em nada além de ouvir e escrever. Flertar definitivamente não é comigo, logo essa coisa de sair com prostitutas é sempre muito prático, apesar de um pouco caro ao final do mês. Não preciso conversar com elas e nem ser romântico. Também não preciso ligar no dia seguinte ou fingir que gostei dela para não magoá-la. Só sexo e nada mais. Nem o meu nome eu digo a elas. Nunca consegui me adaptar a relacionamentos amorosos de qualquer tipo. As mulheres que passaram na minha vida foram muito vagas. Vagas que eu digo de vagas mesmo, não de vagabundas. Nunca me atingiram ou me conquistaram. Com o tempo desisti de encontrar aquela que me completaria e toda essa baboseira poética. A última mulher com quem tive alguma coisa era uma modelinho em ascenção, que achou que só porque eu era jornalista deveria ter dinheiro e contatos. Foi até que interessante enquanto durou. Mas acabou quando o pai dela morreu e ela viu a nota do obtuário no jornal do dia seguinte. Ela jamais havia me perguntado em que área do jornalismo eu trabalhava.
Voltando ao bar. É lá que eu me sinto bem comigo e com o mundo. Acho que foi o Vinícius de Moraes que dizia isso em relação ao wisky. Adoro wisky e odeio o Vinicius de Moraes. Nojentinho com aquele monte de inho. Tomzinho, pimentinha, toquinho, poetinha, poeminha. Será que ele já mandou alguém tomar no cúzinho? Não gosto mesmo, já tentei algumas vezes ler os poemas e ouvir as músicas, um tanto que forçadas demais.Samba mesmo é Chico Buarque, sem frescura alguma. Cartola também. Cartola é algo mais cru, mais verídico, fala do morro e da pobreza. Quando é que o Vinícius cantou isso?Sei lá, no fundo esse meu ódio gratuíto contra o Vinicius deve ser porque ele só fala de amor com todo aquele blá blá blá poético. Como já isse, nunca me adaptei a relacionamentos amorosos. Nunca me apaixonei de verdade, nunca me entreguei de verdade. Não que isso hoje me faça alguma falta. Só amei uma pessoa em toda a minha vida.
Amei. Não amo ou nunca soube exatamente o que é amar então talvez eu ainda ame mesmo não percebendo. Bem confuso não? Por isso não gosto de amar ninguém. Por isso as garotas de programa. Por isso o bar. Por isso um apartamento pequeno. Por isso a noite no lugar do dia. Por isso um emprego medíocre e flexível. Por isso esse ódio contra todos os inhos muito bonitinhos do Vinicius. Por isso a abandonei e nunca mais a procurei. Nunca mais tive alguém. Não me lembro exatamente o porquê o final de tudo e a desistência total do amor, talvez eu tenha sofrido demais com ela, quem sabe? Eu preferi esquecer e de alguma forma funcionou. Essa coisa de amar só fode as pessoas. É mais prático não amar e ser indiferente. Ninguém sai ferido com nada. A manhã está nascendo, vou voltar para o meu apartamento e dormir até o nascer da noite, quando voltarei para o bar. Obrigado por ter me ouvido. Sei que minha vida é um pouco insossa, mas admita que é prática .Pelo menos eu não sou que nem os outros que não saem do bar para afogar as mágoas. Não tenho. Não tenho nada e por isso me sinto bem. Não exatamente feliz. Mas quem é feliz hoje hein?