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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Dedicated to you

Para Bernardo

Dentro dos sonhos estão os sonhos
(Jorge Luís Borges)


Haverá uma estação onde algum trem azul dormitará e nos encontraremos sob uma lua de tango, assim como somos hoje e que não sabemos como seremos amanhã, mas talvez você continue o mesmo mas eu serei mais uma, outra qualquer. Você estará com um cigarro entre os lábios, dessa marca que eu inutilmente guardo uma caixa vazia dentro da bolsa e que de vezenquando quase acredito que o seu cheiro deve ser o mesmo dele.E será colorido, tão diferente desse preto e branco ao qual a minha memória já está acostumada a desenhar em cada espaço vazio de mim o seu rosto, e eu serei desfocada ou pela metade, como geralmente sou.Nossos passos sobre a plataforma terão o ritmo de alguma velha música do não tão velho assim Coltrane e talvez a sua voz acabe mesmo tendo a mesma intensidade de Nick Cave e quem sabe ela acabe se impregnando na minha voz com a mesma suavidade de alguma canção-poema de Dylan.
Então você embarcará neste trem azul da cor do céu de inverno que também pode ser a cor dos teus olhos, antes mesmo que o seu olhar, o meu olhar, o nosso olhar faça de todas as noites uma única noite, enquanto eu procuro no seu adeus alguma nota de algum blues.
E o que resta apenas é o resto de um cigarro, assim como o resto de algumas das minhas cinzas
assim como alguns desses sonhos.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Para um lírio partindo.

"Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?"
(Caio Fernando Abreu)



Olha, talvez eu não consiga realmente dizer tudo isso que eu deveria dizer num momento desses, como o quanto eu amo você e o quanto isso me faz bem e como tudo isso que vivemos e tudo o que planejamos viver é muito mais importante de tudo isso que eu já vivi sozinha e planejei sozinha. Eu queria que tudo isso fosse mais fácil, um até logo responda minhas cartas e pense em mim, mas não tem sido e eu não consigo mentir porque eu nunca consegui te enganar e você certamente sabe disso e finge que não está acontecendo nada demais e talvez até não seja mesmo nada demais e eu seja dramática demais, como eu sempre fui e serei.
Talvez eu nunca tenha lhe dito isso mas eu nunca consegui amar alguém assim como eu amo você, com toda essa sinceridade que eu nunca tive em nenhum dos meus sentimentos e nem comigo mesma, eu que nunca entreguei assim o meu coração e a minha alma e todos os meus sonhos a ninguém, e simplesmente assim entreguei a você por qualquer motivo inicialmente mas que agora e tão somente agora eu consigo entender o porquê: De alguma maneira você é tudo aquilo que faltava em mim e que me completa. Não sei se um dia eu consegui dizer isso a não ser quando eu e você estávamos bêbados dentro de um ônibus, você deitado no meu ombro procurando conforto para tudo isso, isso tudo que a gente vive e não entende, mas enfim, você é o homem da minha vida, dessa e de todas as outras vidas mesmo que eu nunca vá acreditar nesse barato místico e todo esse blá blá blá dos teus livros ocultistas. Eu sei disso hoje como soube naquele 03 de março de 2007 quando estávamos dançando talvez certo ou errado, nunca se sabe, transmition, e todos olhavam para nós como se fóssemos os únicos ali. E somos ainda os únicos ali compartilhando a mesma música e a mesma vontade de se libertar de tudo e ficar cada dia mais presos ao amor um do outro, porque somente o amor pode dar asas verdadeiras a nós Ícaros.
Talvez eu não tenha vivido intensamente com você entre todos os cigarros e aquelas tequilas e vodkas e aquele wisky pela metade debaixo da sua cama nessas suas noites em que você sentia você mesmo, esses momentos que você me ligava só prá dizer que me amava e que eu respondia mesmo sabendo que nem precisava, era retórico.Mas eu vivi o suficiente com você e suficientemente para ser intenso para mim, essas coisas que eu jurava que eu jamais iria fazer e acabava fazendo, há uma lista enorme mas que somente eu e você saberemos os itens.
Eu que já fui simpática a você, colega, mera amiga, que te odiei, voltei a ser amiga e me apaixonei e quebrei a cara e te deixei de lado sem dizer nada e voltei e agora não sei o que eu sou e nem o que você é e nem o que somos.
E agora olhando para o meu quarto e olhando para mim mesma pelo reflexo da janela eu vejo o quanto dói saber que você vai embora, porque tudo lembra você, desde os meus livros e eu incluo aquele do Vinicíus de Moraes comprado numa tarde feita de poeira e de sonhos, até o botom que eu estou usando agora e que me perdoe mas não irei devolver assim como os teus cd's e aquele livro do Ferreira Gullar, porque porra, tudo isso tem você ali em cada verso e em cada nota.E todas as minhas roupas que mesmo que bem lavadas por mim ainda carregam a fumaça dos seus cigarros e dos cafés que você sempre fazia para mim em sua casa, esse refúgio que eu encontrava para esquecer um poucos dos meu problemas ou compartilhar eles com você ou simplesmente ficar em silêncio, esse silêncio que nos confortava e que era tão cheio dessas palavras que a gente nunca dizia um pro outro por serem desnecessárias. Daqui a pouco eu vou ter que trabalhar e eu sei que eu vou passar por aquela praça, a nossa praça, e que a partir de segunda feira eu vou passar e até me sentar para fumar, e sentir aquela ansiedade horrível, olhando para todos os lados,te chamando de desgraçado por que está demorando demais para me encontrar lá.E é claro que eu ainda vou prá esperança fazer a minha zeca hora, olhando para além daquelas janelas, imaginando como é que você vai chegar e me encontrar, feliz, vaga ou simplesmente meio besta demais quando os meus olhos encontram os seus e encontram eles mesmos ali.E eu não vou dormir nos finais de semana, vou ficar enrolando e olhando pro meu celular esperando uma ligação sua me descrevendo o seu porre e todas as coisas que aconteceram no bar, e que por algum motivo eu vou rir e vou falar para você parar de beber por aquela noite e você vai dizer, claro amigona, e vou rir demais disso e desistir, puxar outro assunto como o filme que eu vi ou o que tá tocando no Altas Horas. Prá ser sincera, toda a merda de Mairiporã em cada detalhe vai me lembrar você. E vai doer demais porque eu vou viver pela metade de tudo, porque eu vou ser uma metade vagando por aí esperando você voltar com as minhas esfihas de carne, justo agora que eu estou de regime mas tudo bem, eu vou comê-las porque você demorou demais para trazê-las e seria injusto com você se eu as negasse. Talvez nem vá domingo, talvez vá sábado fugido de todos, ou nem vá e esteja dando risadas de todos nós que estamos sofrendo e principalmente de mim que fui hoje prá faculdade com os olhos inchados e desesperada por um café, muitos cafés, talvez um outro dia aí muito longe, mas eu sei que você vai embora como tudo que não tem uma raiz mas que mesmo assim ainda é vivo e cresce, amadurece e morre, mas morre rapidamente se preso a algum lugar. Posso estar errada, mas eu sei disso porque somos um ká, um feito de muitos, e compartilhamos aquele velho sonho de perambular pelo mundo e morar em São Paulo ou talvez em Passo Fundo se tudo der certo e ainda vai dar ou porque não Buenos Aires?
Somos coração e alma.
Espere mais um pouco, odeio ver um lírio partindo.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Para se perder no abismo que é pensar e sentir II

Não sei traduzir o porque ou como de ainda enxergar você no meio de tanta luz e prédios vestidos de preto, escondidos na noite daquela cidade imensa e silenciosa apesar dos carros e todas aquelas pessoas tão solitárias quanto eu ou você.
Como eu queria que tivesse me deixado te levar para o meu lugar de saudade e que tivesse vivido um pouco mais desta noite comigo. Parte minha, vida, que queria ter te apresentando pessoalmente depois de algumas longas conversas e cigarros e doses de qualquer coisa que me deixe distante do que sou.
Te levaria aos meus sonhos mais vazios que ficaram por lá e tudo que construi de mais sólido. Teria te ensinado a viver e entender aquela dança de luzes brancas e vermelhas tão confusas, tão simples que você já deve ter se esquecido, certamente.
Apresentaria o meu passado, o que eu fui e o que eu conheço que não está tão perto. Assim como você, mais longe do que eu gostaria e mais perto do que eu possa prever. Você que eu não conheço tanto ou quase nada,ou que conheço tanto e que conheço mais do que qualquer outra pessoa.
Foi tudo tão rápido que você nem levou algo deste pretérito com você, nem ao menos alcançou o que ele carrega de belo e também frágil. Se na sua memória ficou algum filme antigo em preto e branco, talvez na minha ainda seja o último filme em cartaz:
Para se perder no abismo que é pensar e sentir.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Porto.

Valeu a pena?
Não, não vou responder com os versos de Pessoa.
Minha alma é pequena.
Se um dia fora grandiosa, aos poucos a vida tratou de encurtá-la, de humilha-la, de fazê-la pequena, amiúde.
E assim cresci.
A menina que morava perto do mar, perto de um porto e que observava os navios sumirem no horizonte assim como um dia ela faria quando crescesse.Sumir no horizonte daquela vida miserável e mesquinha e aportar onde ela poderia deixar os resquícios dessa infelicidade calada, mas perceptível nos gestos.
E cresci.
A menina pegou um navio, sem dar adeus.Não tinha ninguém para dar adeus, tinha ali uma família, mas acreditava que eles assim como ela não se importariam com a sua ida.Queria ter alguém para quem voltar e abraçar, que chorasse toda vez que ela fosse embora e que chorasse mais quando voltasse.E assim foi sonhando durante a viagem, durante a vida, toda a vida sonhando com isso.
Trabalhou nos primeiros meses, tão jovem ainda, em casa de família.Pai,mãe e 2 filhos homens, mais velhos do que ela.Pouco tempo ali virou forçadamente uma mulher pelas mãos grosseiras do pai e pelas delicadas dos filhos.Aos poucos acabou se acostumando, abafando dentro de si os gritos de dor e de horror ao simples toque deles.Aprendeu também a não chorar, a não se lamentar.Apenas aceitava.Queria ir embora mas a necessidade, o simples pensamento de passar fome a fazia voltar e a novamente abrir sua porta.Deixa-la entreaberta.
Queria que essa não fosse minha vida.
Conto-a como se fosse de alguém muito próximo a mim, como se eu lamentasse por ela, a abrassasse e dissesse que eu estava ali para ajudá-la.
Assim, como eu queria que existisse alguém assim para mim.
A mãe sempre soube.Talvez sentisse prazer em me ver ali humilhada, limpando o chão em que eles pisavam, em ver limpando-me depois que eles pisavam em mim.Ela nunca se importou com o fato de que a empregadinha fosse a amante do pai e dos filhos.Acho que se sentia aliviada por não ter que ser ela a mulher que o marido abrisse violentamente as pernas para saciar as vontades.
Um dia, ela realmente se importou com toda essa história.
Percebeu que minha barriga estava saliente.Perguntou-me a quanto tempo minhas regras não vinham e eu não sabia dizer.Eu realmente não sabia que estava grávida.Fiquei feliz por saber que teria alguém para amar e para me amar, alguém que me faria esquecer de todo o meu sofrimento.O que choraria nas minhas idas e nas minhas voltas.
Arrancaram me esse sonho.
Levaram-me para um médico, "Ele vai cuidar de você Maria. fica quietinha tá?" "Ele vai cuidar do meu bebê?" "Vai sim Maria,vai sim"
Me deu uma injeção e desmaiei.Ao acordar não sentia mais nada dentro de mim, meu filho não estava no meu ventre.Estava ali, num pano enxarcado de sangue.Tão pequeno, tão indefeso.Calado, quieto demais para alguém que acabara de nascer.Tentei pega-lo, abraça-lo, mas o médico me dissera que estava morto.Que ele a pedido da familia, fizera aquilo. "Foi pro bem de todos Maria,foi pro bem de todos viu?"
Me sentia fraca demais para fugir, me sentia enojada ao me ver suja com aquele sangue que eu nem mais sabia se era meu ou do meu filho, me sentia morta.Não chorei.Apenas dormi com a esperança de acordar e estar novamente olhando o porto, os navios.Sonhando.
Acordei e me vi ainda ali.Tudo limpo, meu filho deve ter ido para a lata de algum lixo.Estava melhor.Fugi
Corri para longe daquele inferno, sozinha e cansada.
Pelo caminho, tentei me imaginar atriz.
Eu era uma atriz vivendo aquela personagem.Assim que as luzes se apagarem e o público de retirar, eu voltaria a ser a atriz.Eu teria para quem voltar cansada do espetáculo.Teria alguém para me dizer o quão maravilhosa fui.
Mas estava correndo, fugindo e com fome, e eu não era uma atriz.
E assim fui vivendo fugindo. E quando não consegui mais fugir, virei mulher da vida.Experiência já tinha, o que viria de pior?
As primeiras noites foram as piores até me acostumar com aqueles homens.Descobri que todos eram iguais.O segredo era se entregar achando que ele me amasse,assim eu não me sentiria igual a eles, fazer por fazer.Eu fazia por amor.Amor por alguem que eu sempre sonhara e que tentava acreditar que poderia ser aquele que estaria por cima de mim.Fechava meus olhos e ignorava os palavrões e todo os grunhidos asquerosos vindos deles.Aos poucos fui gostando.Não que me desse prazer ou qualquer coisa assim.Gostava de ser desejada.Gostava de ouvi-los falando de suas familias, ou do sonho de ter uma.
Eu também queria ter uma, mas me era negado esse direito.
Fiquei lá por anos.Sofria humilhações e dores e toda sorte da desgraça, mas para onde eu iria?
Ali eu pelo menos fui feliz, tinha amigos e era tratada com algum respeito.Essa felicidade que sentimos ao nos iludirmos.
Fui envelhecendo e poucos ainda me queriam.Virei chacota entre as mais jovens.Então resolvi partir.
Não houve adeus.Ninguém ali se importava com isso, com o meu adeus.Eu não chorei.
Vaguei.
Voltei para onde nunca mais deveria ter voltado.
Estou aqui,observando os navios chegarem e partirem deste porto.
Um dia eu fui um navio.
Mas sem um porto.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Por um instante nos olhos de Lola

Não me importa com o que pareces, desde que eu te
ame

(Pablo Neruda)




1º dia.

Estava caminhando desatento como sempre por aquela rua repleta de pessoas que se desdobravam e se esbarravam entre si no desespero e na ânsia de chegarem em seus destinos pontualmente, olhando apenas para o chão e para a dança frenética de todos aqueles pés sobre o preto e branco hipnótico daquela calçada na velha rotina diária que eu seguia a risca até o meu trabalho medíocre de atendente de uma renomada seguradora, quando num relance a vi do outro lado da rua na fila para entrar num ônibus.Foi uma breve visão tão rica em detalhes que aos poucos fui esquecendo e que apenas o seu rosto permaneceu em minha memória.Ela entrou e desapareceu e eu segui adiante como se nada houvese acontecido, como se a minha vida não houvesse se despedaçado naquele instante.Em alguns momentos do meu expediente e da minha noite o seu rosto e somente ele vinha à minha mente.

2º dia

Andando por aquela rua com mais atenção procurei o seu rosto em cada pessoa com quem esbarrava e fui até o ponto de ônibus onde ela havia estado ontem.Em vão perdi 2 horas do meu dia e ganhei uma bronca do meu superior ao chegar atrasado ao meu trabalho.Me senti um total idiota por tamanha asnice, o que me fez ter uma crise de risos seguida de uma tristeza seca.Ao dormir sonhei com ela.Vinha em minha direção vestida de branco e cabelos longos e negros ao vento, num lugar onde eu não reconhecia mas era me familiar.Acordei suando e com um vazio latejante em meu peito.Repetia como se fosse um mantra o quanto aquilo tudo era ridículo.Paixão ou amor à primeira vista não existia.Não existia.Não existia.Não existia...

5º dia

Desde que a conheci sonho com ela.É sempre o mesmo sonho.Ela vindo em minha direção, inicialmente um vulto na distância refratado na névoa, mas que pouco a pouco se aproximava de mim, trazendo em seu sorriso uma luz que dissipava toda aquela escuridão dentro dos meus olhos.Sempre acordava antes de tocá-la e me amaldiçoava por isso.Tenho andado mais ansioso na empresa e relapso com os meus amigos, mas não acho que seja algo assim tão significativo.E não a encontrei pelo meu caminho.

10º dia

Chorei hoje de manhã ao acordar, como a muito não chorava depois que fui criança.Fazem 2 dias que não sonho com ela e 10 dias que não consigo pensar em outra coisa a não ser em seu rosto.Chorei porque me sinto estúpido, porque fui vencido pela irracionalidade e por não ter forças para esquecê-la, por não me conformar com tudo isso.É idiota, eu sei, se apaixonar assim por alguém, sem ao menos saber qualquer coisa sobre ela a não ser que ela possuí o rosto mais perfeito do mundo que destroí meus dias e assombra minhas noites.O que mais me consome, o que mais me faz sofrer é essa fúria de não ter adivinhado que a falta do bem que desejei era apenas o sinal da minha falta.Meu desempenho caiu muito no trabalho e meus amigos vivem me perguntando se realmente estou bem, porque ando melancólico e pálido demais.Acabo sempre respondendo que é uma má fase da minha vida que logo passa.Conheci uma mulher hoje num bar próximo a minha casa, quando eu estava na quarta garrafa de cerveja.Acho que seu nome era Ana.Transamos essa noite.

15º dia.

Tenho transado com Ana há 5 dias mas não sinto prazer algum, apesar de lhe proporcionar alguns orgasmos.Gosto dela,é bonita e inteligente e tem me feito sorrir, mesmo que melancolicamente.Hoje após ter transado exaustivamente com Ana, acabei dormindo e sonhando com a outra, a que eu amo.7 dias sem ela pareciam uma eternidade repulsiva.Dessa vez a toquei, a abracei e gritei o quanto a amava entre lágrimas e soluços.Quando ia lhe beijar, Ana me acordou secando minhas lágrimas, dizendo o quanto achava lindo me ver assim após uma noite com ela.Me beijou e se despediu.Me tranquei no banheiro enojado pelo beijo e por estar com ela.Saí e liguei o rádio.Tocava Lola, do Chico Buarque.Engraçado como me identifiquei com aquela música.Ela realmente rasgou páginas dentro de mim, não páginas claro, mas tudo o que havia dentro de mim, e ela invadiu minha mente, e somente ela permanecia ali, como uma orquestra a tocar a mesma música.Lola...Lola...Vou chama-la de Lola

20º dia.

Voltei a sonhar com Lola regularmente.Agora dançamos,beijamo-nos e fizemos amor ali mesmo,na rua onde nos conhecemos.Ainda assim, ao acordar me sentia mais angustiado e melancólico, amaldiçoando Deus por não ter fundido nossos caminhos.Esse meu caminho que me levava a todos os lugares, menos para aquele em que eu a encontraria.E assim eu vou me completando com a tua imagem, sabendo que a luz que faltar pelos meus dias estará no seu sorriso, que a ternura que sangrar pela minha alma estará em seu olhar, que a alegria que largar a minha noite estará em sua voz, que o prazer que deixar o meu desejo estará em tuas mãos, que a vida que eu não tive estará em sua vida.

25º dia

Ana me deixou alegando que eu achamava de Lola sempre, enquanto transávamos.Eu apenas lhe disse que jamais seria Lola e ela se sentiu ofendida.Tanto faz, Ana não me significou nada.Não sonhei com Lola ontem e quase cortei acidentalmente minha garganta ao me barbear pela manhã.A verdade é que nem coragem eu tenho para me matar.Essa coisa dos suícidas irem para o inferno sempre me assustou, agora ainda mais sabendo que Lola, quando morresse, certamente iria para o céu.Talvez fosse esse o nosso destino então.Me resta apenas essa espera seca e fria sem nenhuma esperança de nos encontrarmos de novo, já tão outros.Ela não precisará dizer seu nome porque já é tão minha e pura Lola,e qualquer outro nome não faria diferença, a que volta pela simples palpitação do espírito de amor dentro de mim.

30º dia.

Estou enlouquecendo.
Pedi demissão e resolvi me trancar em casa.Meus amigos estão preocupados comigo, me ligam e alguns acabam vindo aqui em casa conversar comigo.Até Ana me liga querendo saber como estou.Acabei lhe falando a respeito de Lola e ela simplesmente riu.Riu como se fosse uma piada, algo tão irreal que chega a ser engraçado.É,eu sei.Eu mesmo rio amargamente disso entre doses e mais doses de vodka, enquanto ela me persegue nos meus sonhos.Não quero mais dormir,mas eu sou fraco, me rendo a louca vontade de encontrá-la e senti-la dentro de mim, como se ali fosse seu único lar, como se desde sempre ela existisse ali.
Meus olhos estão inchados e com olheiras enormes.Estou mais magro e mais pálido do que o costume.Não sinto fome ou sede, apenas sono.E quando não sonho com ela, mantenho-a em meus delírios como posso.
Decidi dar uma volta hoje.Não sei, tenho o pressentimento que algo muito bom vai acontecer se eu sair de casa.Fui até aquela rua, onde a vi pela primeira vez.
Estava caminhando desatento como sempre por aquela rua repleta de pessoas que se desdobravam e se esbarravam entre si no desespero e na ânsia de chegarem em seus destinos pontualmente, olhando apenas para o chão e para a dança frenética de todos aqueles pés sobre o preto e branco hipnótico daquela calçada na velha rotina diária que eu seguia a risca até o meu trabalho medíocre de atendente de uma renomada seguradora, quando num relance a reecontrei do outro lado da rua.Ela me sorria e estava com um vestido branco e seus cabelos soltos ao vento.Fui ao seu encontro, sem ao menos dar atenção aos carros que vinham fatalmente em minha direção.Era Lola,não me importava se meu corpo estava ali estirado e estraçalhado pelo asfalto.Eu já me sentia no paraíso.Era Lola.
Lola...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Interlúdio em fá menor

Para Rennan, que me faz sonhar às vezes

Estamos eu e você naquela avenida que pode ser a Paulista ou a Tabelião Passarella mas não importa agora qual delas seja, o que importa é que estamos eu e você entre prédios e luzes e uma avenida vazia e aberta para os nossos sonhos numa dessas noites que a gente não consegue dormir.Estamos caminhando e conversando sobre qualquer coisa trivial quando você assim tão de repente me convida para dançar naquele absoluto silêncio preenchido apenas pelo som dos nossos passos e das nossas respirações e eu lhe digo que aceito mesmo sem saber dançar no ritmo do silêncio e você diz que eu sou boba e me conduz.Uma música começa a entoar e começamos a dançar e a cantar a letra mesmo sem nunca termos a ouvido antes.Rimos ainda cantando e você me diz que ela vem do coração e é assim mesmo essas coisas inexplicáveis do coração.Então percorremos dançando por toda aquela avenida até o seu fim quando descobrimos que ela não tem um fim.Procuro no relógio as horas e descubro que já não é mais noite e muito menos dia,apesar da escuridão cravejada de estrelas que brilham menos que o seu olhar e uma lua que flutua nesse céu tão pacato.Parados ali contemplando toda a extensão daquela avenida você me pergunta se eu iria com você até o final dela e eu lhe digo que eu iria com você mesmo se ela jamais houvessem um final.Continuamos a nossa dança enquanto fumamos o nosso cigarro favorito e a avenida não tem fim, eu te amo eu digo e a avenida não tem fim, eu te amo você me diz e a avenida não tem fim.Um dia estaremos com eles aqui você diz e a avenida não tem fim.Vamos esperar por eles então eu digo e a avenida não tem fim.Acordo então sozinha na escuridão do meu quarto e lamento que tenha sido apenas um sonho.Mas meus dedos estão cheirando ao nosso cigarro e eu me sinto cansada e feliz,então acho que tudo aquilo aconteceu.Aconteceu porque você é real.