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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Para um lírio partindo.

"Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?"
(Caio Fernando Abreu)



Olha, talvez eu não consiga realmente dizer tudo isso que eu deveria dizer num momento desses, como o quanto eu amo você e o quanto isso me faz bem e como tudo isso que vivemos e tudo o que planejamos viver é muito mais importante de tudo isso que eu já vivi sozinha e planejei sozinha. Eu queria que tudo isso fosse mais fácil, um até logo responda minhas cartas e pense em mim, mas não tem sido e eu não consigo mentir porque eu nunca consegui te enganar e você certamente sabe disso e finge que não está acontecendo nada demais e talvez até não seja mesmo nada demais e eu seja dramática demais, como eu sempre fui e serei.
Talvez eu nunca tenha lhe dito isso mas eu nunca consegui amar alguém assim como eu amo você, com toda essa sinceridade que eu nunca tive em nenhum dos meus sentimentos e nem comigo mesma, eu que nunca entreguei assim o meu coração e a minha alma e todos os meus sonhos a ninguém, e simplesmente assim entreguei a você por qualquer motivo inicialmente mas que agora e tão somente agora eu consigo entender o porquê: De alguma maneira você é tudo aquilo que faltava em mim e que me completa. Não sei se um dia eu consegui dizer isso a não ser quando eu e você estávamos bêbados dentro de um ônibus, você deitado no meu ombro procurando conforto para tudo isso, isso tudo que a gente vive e não entende, mas enfim, você é o homem da minha vida, dessa e de todas as outras vidas mesmo que eu nunca vá acreditar nesse barato místico e todo esse blá blá blá dos teus livros ocultistas. Eu sei disso hoje como soube naquele 03 de março de 2007 quando estávamos dançando talvez certo ou errado, nunca se sabe, transmition, e todos olhavam para nós como se fóssemos os únicos ali. E somos ainda os únicos ali compartilhando a mesma música e a mesma vontade de se libertar de tudo e ficar cada dia mais presos ao amor um do outro, porque somente o amor pode dar asas verdadeiras a nós Ícaros.
Talvez eu não tenha vivido intensamente com você entre todos os cigarros e aquelas tequilas e vodkas e aquele wisky pela metade debaixo da sua cama nessas suas noites em que você sentia você mesmo, esses momentos que você me ligava só prá dizer que me amava e que eu respondia mesmo sabendo que nem precisava, era retórico.Mas eu vivi o suficiente com você e suficientemente para ser intenso para mim, essas coisas que eu jurava que eu jamais iria fazer e acabava fazendo, há uma lista enorme mas que somente eu e você saberemos os itens.
Eu que já fui simpática a você, colega, mera amiga, que te odiei, voltei a ser amiga e me apaixonei e quebrei a cara e te deixei de lado sem dizer nada e voltei e agora não sei o que eu sou e nem o que você é e nem o que somos.
E agora olhando para o meu quarto e olhando para mim mesma pelo reflexo da janela eu vejo o quanto dói saber que você vai embora, porque tudo lembra você, desde os meus livros e eu incluo aquele do Vinicíus de Moraes comprado numa tarde feita de poeira e de sonhos, até o botom que eu estou usando agora e que me perdoe mas não irei devolver assim como os teus cd's e aquele livro do Ferreira Gullar, porque porra, tudo isso tem você ali em cada verso e em cada nota.E todas as minhas roupas que mesmo que bem lavadas por mim ainda carregam a fumaça dos seus cigarros e dos cafés que você sempre fazia para mim em sua casa, esse refúgio que eu encontrava para esquecer um poucos dos meu problemas ou compartilhar eles com você ou simplesmente ficar em silêncio, esse silêncio que nos confortava e que era tão cheio dessas palavras que a gente nunca dizia um pro outro por serem desnecessárias. Daqui a pouco eu vou ter que trabalhar e eu sei que eu vou passar por aquela praça, a nossa praça, e que a partir de segunda feira eu vou passar e até me sentar para fumar, e sentir aquela ansiedade horrível, olhando para todos os lados,te chamando de desgraçado por que está demorando demais para me encontrar lá.E é claro que eu ainda vou prá esperança fazer a minha zeca hora, olhando para além daquelas janelas, imaginando como é que você vai chegar e me encontrar, feliz, vaga ou simplesmente meio besta demais quando os meus olhos encontram os seus e encontram eles mesmos ali.E eu não vou dormir nos finais de semana, vou ficar enrolando e olhando pro meu celular esperando uma ligação sua me descrevendo o seu porre e todas as coisas que aconteceram no bar, e que por algum motivo eu vou rir e vou falar para você parar de beber por aquela noite e você vai dizer, claro amigona, e vou rir demais disso e desistir, puxar outro assunto como o filme que eu vi ou o que tá tocando no Altas Horas. Prá ser sincera, toda a merda de Mairiporã em cada detalhe vai me lembrar você. E vai doer demais porque eu vou viver pela metade de tudo, porque eu vou ser uma metade vagando por aí esperando você voltar com as minhas esfihas de carne, justo agora que eu estou de regime mas tudo bem, eu vou comê-las porque você demorou demais para trazê-las e seria injusto com você se eu as negasse. Talvez nem vá domingo, talvez vá sábado fugido de todos, ou nem vá e esteja dando risadas de todos nós que estamos sofrendo e principalmente de mim que fui hoje prá faculdade com os olhos inchados e desesperada por um café, muitos cafés, talvez um outro dia aí muito longe, mas eu sei que você vai embora como tudo que não tem uma raiz mas que mesmo assim ainda é vivo e cresce, amadurece e morre, mas morre rapidamente se preso a algum lugar. Posso estar errada, mas eu sei disso porque somos um ká, um feito de muitos, e compartilhamos aquele velho sonho de perambular pelo mundo e morar em São Paulo ou talvez em Passo Fundo se tudo der certo e ainda vai dar ou porque não Buenos Aires?
Somos coração e alma.
Espere mais um pouco, odeio ver um lírio partindo.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Outros tão outros de si mesmos

Para Carol.
(para se ler ouvindo Get Together-Madonna)
Sozinhos.
Tocaram-se e uniram-se.
Juntos.
Ainda assim sozinhos.
(Hilda Hilst)


Sem qualquer expectativa e direção ou motivo eles entram na primeira boate que vêem aberta.Nunca haviam se visto antes daquela noite quando esbarraram-se na entrada violentamente como se soubessem que deveriam entrar ali.Trocaram um olhar tão absoluto quando a certeza que tiveram:Seriam tão outros de si mesmos nesta noite.
Se distanciaram e ela vai até a pista e aos poucos vai se entregando ao ritmo da música, totalmente desarmada e indefesa de todos aqueles olhares furtivos que desnudavam sua confiança na personagem aparentemente feliz e despreocupada que vestia, enquando seu corpo ia desenhando suaves formas no ar.Tenta esboçar um sorriso, qualquer sorriso, mas é inútil.Não consegue mais mentir para si mesma.Está cansada e fecha os olhos, esperando talvez, quando abri-los, se ver em outro lugar.Melhor.
Ele tenta se distrair e ignora-la, mas aquele olhar não sai do seu pensamento, porque aquele olhar carregava cansado o peso de algo que ele sabia exatamente o que era por ser algo tão óbvio em seu próprio olhar: Um apelo desesperado para crer em algo.
Quando abre seus olhos entre tantos outros olhares é o dele que encontra como se houvesse encontrado o seu próprio olhar refletido em um espelho.Perpertuaram este olhar que aos poucos os fez se aproximarem lentamente até que apenas o som de suas respirações ofegantes fossem ouvido em meio aqueles ruídos secundários.Não houve qualquer palavra porque eles já sabiam o que levou um e outro a estarem ali: O desejo de se encontrarem dentro um do outro.
Ele a segurou pela mão e a guiou para fora daquele lugar como se a guiasse numa valsa.E ainda sem que ninguém pronunciasse qualquer palavra, fundiram seus corpos e seus espíritos em um só ser enquanto seus corações tentavam suportar o êxtase que unia suas solidões naquela rua tão isolada e fria.Sentiram suas lágrimas percorem por suas faces até que se encontrassem e se unissem em apenas uma.
-Queria não ter feito isso.Ainda mais porque eu procurei em você algo para amar.
-Eu também procurei isso em você.Nos procuramos e talvez nem tenhamos encontrado isso, essa coisa que deveríamos amar.
-Por um dia eu queria deixar de acreditar nisso.Que o amor existe, esse tipo de amor que nos fez chegar até aqui, porque queríamos encontra-lo.
-Por esta noite poderíamos esquecer disso.Ser outras pessoas do que somos, procurar outra coisa para sentir, topa?
Assentiu.Então seguiram de mãos dadas por aquelas ruas desérticas preenchidas por néons que lhes davam alguma vida enquando falavam de tudo menos de suas vidas e seus nomes.Sabiam que amanhã seriam novamente os mesmos que abandonaram numa esquina qualquer, queriam viver aquela noite como outros, correndo e dançando e rindo como se nada pudesse os separar.
E reteram o tempo em seus dedos que teciam lentamente as horas, prolongando aquela noite que jamais teria fim, mesmo após o seu fim.
-Talvez, você seja a mulher da minha vida nesta noite.
-Dessa sua vida ou da outra?
-Das duas.
-Mas amanhã estaremos mortos, seremos outros diferentes do que somos agora.Você não vai me amar amanhã como eu também não vou te amar.
-Esqueça isso, esse amanhã que não tarda em chegar, mas que não vai nos atingir.Acredite, vivi nesta noite o que eu jamais iria viver durante toda a minha vida.Morro hoje, ressuscito outro amanhã, o que importa?Fui feliz, isso que importa.
-Também fui feliz, só queria que isso durasse para sempre.
-Mas essa noite vai durar para sempre.
Abraçaram-se enquanto o sol ia nascendo e fazendo morrer aquela noite em que puderam ser livres de qualquer imposição de suas vidas.Não houve despedida.Houve apenas a vontade de nunca se encontrarem agora tão outros do que foram.
Após esse encontro o resto foi um eco de tudo aquilo que não foi, pois passou como sempre passa aquilo que queremos para sempre.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Porto.

Valeu a pena?
Não, não vou responder com os versos de Pessoa.
Minha alma é pequena.
Se um dia fora grandiosa, aos poucos a vida tratou de encurtá-la, de humilha-la, de fazê-la pequena, amiúde.
E assim cresci.
A menina que morava perto do mar, perto de um porto e que observava os navios sumirem no horizonte assim como um dia ela faria quando crescesse.Sumir no horizonte daquela vida miserável e mesquinha e aportar onde ela poderia deixar os resquícios dessa infelicidade calada, mas perceptível nos gestos.
E cresci.
A menina pegou um navio, sem dar adeus.Não tinha ninguém para dar adeus, tinha ali uma família, mas acreditava que eles assim como ela não se importariam com a sua ida.Queria ter alguém para quem voltar e abraçar, que chorasse toda vez que ela fosse embora e que chorasse mais quando voltasse.E assim foi sonhando durante a viagem, durante a vida, toda a vida sonhando com isso.
Trabalhou nos primeiros meses, tão jovem ainda, em casa de família.Pai,mãe e 2 filhos homens, mais velhos do que ela.Pouco tempo ali virou forçadamente uma mulher pelas mãos grosseiras do pai e pelas delicadas dos filhos.Aos poucos acabou se acostumando, abafando dentro de si os gritos de dor e de horror ao simples toque deles.Aprendeu também a não chorar, a não se lamentar.Apenas aceitava.Queria ir embora mas a necessidade, o simples pensamento de passar fome a fazia voltar e a novamente abrir sua porta.Deixa-la entreaberta.
Queria que essa não fosse minha vida.
Conto-a como se fosse de alguém muito próximo a mim, como se eu lamentasse por ela, a abrassasse e dissesse que eu estava ali para ajudá-la.
Assim, como eu queria que existisse alguém assim para mim.
A mãe sempre soube.Talvez sentisse prazer em me ver ali humilhada, limpando o chão em que eles pisavam, em ver limpando-me depois que eles pisavam em mim.Ela nunca se importou com o fato de que a empregadinha fosse a amante do pai e dos filhos.Acho que se sentia aliviada por não ter que ser ela a mulher que o marido abrisse violentamente as pernas para saciar as vontades.
Um dia, ela realmente se importou com toda essa história.
Percebeu que minha barriga estava saliente.Perguntou-me a quanto tempo minhas regras não vinham e eu não sabia dizer.Eu realmente não sabia que estava grávida.Fiquei feliz por saber que teria alguém para amar e para me amar, alguém que me faria esquecer de todo o meu sofrimento.O que choraria nas minhas idas e nas minhas voltas.
Arrancaram me esse sonho.
Levaram-me para um médico, "Ele vai cuidar de você Maria. fica quietinha tá?" "Ele vai cuidar do meu bebê?" "Vai sim Maria,vai sim"
Me deu uma injeção e desmaiei.Ao acordar não sentia mais nada dentro de mim, meu filho não estava no meu ventre.Estava ali, num pano enxarcado de sangue.Tão pequeno, tão indefeso.Calado, quieto demais para alguém que acabara de nascer.Tentei pega-lo, abraça-lo, mas o médico me dissera que estava morto.Que ele a pedido da familia, fizera aquilo. "Foi pro bem de todos Maria,foi pro bem de todos viu?"
Me sentia fraca demais para fugir, me sentia enojada ao me ver suja com aquele sangue que eu nem mais sabia se era meu ou do meu filho, me sentia morta.Não chorei.Apenas dormi com a esperança de acordar e estar novamente olhando o porto, os navios.Sonhando.
Acordei e me vi ainda ali.Tudo limpo, meu filho deve ter ido para a lata de algum lixo.Estava melhor.Fugi
Corri para longe daquele inferno, sozinha e cansada.
Pelo caminho, tentei me imaginar atriz.
Eu era uma atriz vivendo aquela personagem.Assim que as luzes se apagarem e o público de retirar, eu voltaria a ser a atriz.Eu teria para quem voltar cansada do espetáculo.Teria alguém para me dizer o quão maravilhosa fui.
Mas estava correndo, fugindo e com fome, e eu não era uma atriz.
E assim fui vivendo fugindo. E quando não consegui mais fugir, virei mulher da vida.Experiência já tinha, o que viria de pior?
As primeiras noites foram as piores até me acostumar com aqueles homens.Descobri que todos eram iguais.O segredo era se entregar achando que ele me amasse,assim eu não me sentiria igual a eles, fazer por fazer.Eu fazia por amor.Amor por alguem que eu sempre sonhara e que tentava acreditar que poderia ser aquele que estaria por cima de mim.Fechava meus olhos e ignorava os palavrões e todo os grunhidos asquerosos vindos deles.Aos poucos fui gostando.Não que me desse prazer ou qualquer coisa assim.Gostava de ser desejada.Gostava de ouvi-los falando de suas familias, ou do sonho de ter uma.
Eu também queria ter uma, mas me era negado esse direito.
Fiquei lá por anos.Sofria humilhações e dores e toda sorte da desgraça, mas para onde eu iria?
Ali eu pelo menos fui feliz, tinha amigos e era tratada com algum respeito.Essa felicidade que sentimos ao nos iludirmos.
Fui envelhecendo e poucos ainda me queriam.Virei chacota entre as mais jovens.Então resolvi partir.
Não houve adeus.Ninguém ali se importava com isso, com o meu adeus.Eu não chorei.
Vaguei.
Voltei para onde nunca mais deveria ter voltado.
Estou aqui,observando os navios chegarem e partirem deste porto.
Um dia eu fui um navio.
Mas sem um porto.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Dançando Descalço

Para João Ricardo


Estamos dançando descalços esta noite e você põe os seus pés sobre os meus talvez para não sentir frio ou apenas para ficar no meu tamanho, enquanto essa estranha música se desenha no ar.Eu te conduzo entre velas espalhadas pelo chão e taças com restos de vinho mesmo sem saber os passos, e você apenas confia em mim com este seu olhar fixo no além desta sala e esse seu sorriso tão espalhado por todos os cantos da minha vida.Eu tenho a leve e certa sensação de que estamos flutuando em nossa última canção, em nossa última dança, em nosso último contato corporal, nas minhas últimas lágrimas que tocarão a sua pele translúcida.E eu estou com medo desta música terminar, de você se despedir e nunca mais voltar.E eu te quero, meu deus, como eu te quero para sempre sobre os meus pés dançando entre essas taças e velas, flutuando.
Eu te abraço e te deito delicadamente no chão mas você não parece se importar.Ainda dança e flutua pelo ar em sua ilusão de felicidade, que afinal eu nunca lhe porpocionei.
Eu vejo morrer o outono em seus olhos da cor da minha morte e incertos como a minha vida, e uma rosa cárnea desabrochar em primavera entre suas pernas embebidas em fel e que eu não posso tocar ou colher.Tentativas inúteis entre seus movimentos delicados conforme a canção que ainda preenche o ar durante nossa última noite.
É fácil pensar em suícidio quando não estou com você e é melhor manter-se ébrio quando você está longe e eu sei que mesmo que volte, ainda estará longe dos meus braços e do meu amor.Minha benção e minha maldição e toda a desgraça da minha felicidade incompleta.
Entre cigarros e papéis nunca surgiram poesias à você por mais sujas e líricas que fossem minhas inspirações noturnas após o sexo, quando eu me sentia sozinho em seu corpo vagando pelo vazio do seu amor.
E você continua pura entre meus braços que se confundem entre os seus, nessa dança frenética sobre o carpete onde você não quer mais ser conduzida e quer que troque a canção, mas eu quero que seja esta e pego suas mãos que antes já foram minhas com tanta calma e as faço percorrer pelo meu corpo em febre.Seus gritos me soam como uma oração a algum Deus muito bom.Gozo sentindo suas lágrimas misturadas a todos os meus fluídos, enquanto você se afasta de mim procurando mudar a canção.
Agora ela é triste, assim como os seus olhos.
Agora ela é desesperadora, assim como o seu adeus entre gritos de ódio e taças quebradas de vinho e sangue pelo carpete.
Agora ela termina, como em breve farei com a minha vida.
Estou dançando descalço mas ainda sinto o peso dos seus pés sobre os meus.


Dancing Barefoot~Patti Smith

domingo, 11 de maio de 2008

Aquele ontem

Para Rennan.A quem nunca dedico nada,a não ser a minha vida.



Consigo claramente lhe imaginar em frente a este mar que ondeia nossa música com a mesma brisa a lhe desmanchar o cabelo tão loiro,olhando sem entender o motivo pelo qual meu carro está aqui aberto e com uma pequena caixa azul da cor do céu que são seus olhos quase verdes,e com curiosidade você abre e sem surpresa alguma encontra esta carta.E lê e relê e desespera-se em prantos de risos e gritos.Espero que entenda e me perdoe.Doí-me ter que lhe escreve-la.Debaixo da minha escrita há sangue no lugar de tinta.
Por quê?Porque tudo é inexato e confuso.Crescemos juntos e dividimos nossos medos, amores, rancores, dores, dúvidas, feridas, cigarros e bebidas e drogas e a nostalgia de quando éramos puros,de quando chorávamos apenas por motivos fúteis e não por coisas confusas e inexatas.Me é difícil continuar com qualquer certeza depois de ontem,difícil continuar com o que morreu naquela noite,difícil continuar como se nada houvesse acontecido, como se estivéssemos intactos.Porque era puro aquele amor que sentíamos até ontem, porque eu sei que você me ama tanto quanto eu te amo mas talvez não sofra com isso tanto quanto eu sofro.Amor esse que nos levou a essa decandência.Amor não carnal prazer sexual e orgasmos.Amor beijos e abraços e cumplicidade que não se mede em palavras.E mesmo depois de ontem eu só te quero nos meus lábios e nos meus abraços porque o meu corpo palpita pelo teu porque o teu corpo acalma o meu.
Eu tentei de encontrar em outras mulheres, nos beijos e nos abraços delas mas só encontrei transas e orgasmos que eu gosto com o meu sexo de homem em perfeito estado de funcionamento.Eu tentei de encontrar em outros homens mas encontrei apenas nojo e ânsia de vômito e o meu pênis que não endurecia.E o que me restou foram apenas cinzas e faíscas das minhas certezas e mais e mais dúvidas.Dúvidas sobre o que realmente eu sentia por você.Você que era casado e estava com tantas outras mulheres e na minha imaginação paranóica flertava com outros homens enquanto dizia que me amava, e isso me fazia mal e eu sentia ciúmes ou algo como querer você só para mim.Seria você o errado nisso tudo?Não.
Você é o esplendor de eu haver encontrado algo quando desesperava encontrar algo.O meu estar feliz alcançando o infinito para trazê-lo à terra e fundir os dois numa única visão.O que me faz reecontrar comigo a cada vez que a tua imagem suspende o meu caminho porque a cada exata aparição tua me devolve meu próprio eu.Você que está em cada sorriso e que eu respiro.
Ontem.
Ontem.
Como não foi possível reter aquele momento que me separa hoje de você?
Nossos olhos se buscavam como a encontrar-se um no outro como a morrer um no outro.Nossos lábios se cruzavam como a penetrar-se um no outro como a morrer um no outro.Era todo o nosso ser que se entregava como a viver-se um no outro.O teu corpo no meu corpo tão em mim e tão no além.Nosso desejo.O meu delírio.O teu delírio.E no universo havia apenas o espaço e o tempo que ocupávamos nós dois, libertos de tudo sem mágoa e sem medo e livres e serenos e puros.Vibrando todas as fibras dos meus nervos.Vibrando todas as fibras dos teus nervos.Era um desses instantes em que o infinito se concentra num segundo.Era um instante infinito e passou.Passou apesar do absoluto em que vagávamos.Ficou somente a tua imagem que ora se vai ora se vem dançando nua.Nem sequer ficou a estrela que isolava aquela noite mas apenas o apelo do teu olhar sumindo no silêncio, apenas a delícia dos teus carinhos se esvaindo na distância, apenas a magia dos teus gestos desfazendo-se em ausência.E a espera seca e fria sem nenhuma esperança.Porque entre suor e sêmen era em sua esposa e em suas inúmeras amantes que você pensava.Porque entre suor e sêmen era esse meu amor que se afundava e se afogava nessa imundice de sêmen e suor.E você chorava depois.Chorando desesperado me perguntando se aquilo tudo foi real e eu inerte e enojado tentando balbuciar qualquer coisa como foi por culpa do álcool e do extâse que ingerimos.E você me olhando com esses seus olhos tão petrificantes e confusos gritando alguma coisa assim que não deveria ter feito isso com sua esposa e comigo e eu tentando te acalmar dizendo que nada daquilo aconteceu que essa noite logo seria esquecida porque não nos significou nada apesar de me sentir sujo com o seu gozo misturado ao meu por todo o meu corpo.Somos caras normais não somos, você me disse.E eu lhe disse que nada daquilo aconteceu.
Não amigo,ela aconteceu.É desesperador e dilascerante descobrir assim que eu te amava da maneira mais singela que existe e não da maneira mais atrativa,se é que posso me referir a isso dessa maneira.Tudo isso se reduziu a nada e eu me sinto mal e eu ainda sinto você em casa parte do meu corpo e na minha alma como se até nela você houvesse penetrado naquela noite de ontem.Não sei o que fazer, estou perdido e terrívelmente confuso.Não foi nossa culpa, eu poderia dizer.Mas foi mais minha do que sua,mas temos nossa parcela de culpa.Mesmo que não houvesse a porra do álcool e da droga,ela aconteceria a qualquer momento.A saída que encontrei para estar em paz foi esta.Dirigir até esta praia,escrever-lhe estar carta enquanto fumo e observo o mar.O mar que irei lançar esse nosso segredo.O mar que fará afundar comigo todos os vestígios de ontem.Que Deus faça ser doce morrer no mar nas ondas verdes do mar que é a quase cor dos seus olhos azuis da cor do céu.