quarta-feira, 6 de julho de 2011

Movimento Rápido dos olhos - 4º capítulo

Para Guilherme Navarro, Antônio La Carne e Julio Perestrelo

e aos demais leitores.


Escrevo todos os dias para ela, um poema, um conto ou até mesmo uma crônica do meu dia de funcionário público do Estado, mal remunerado e completamente apaixonado por algo, ela, impossível aquisição porque ela, nossa, de todos. Elogia-me sempre e diz que vou longe com aquelas palavras, tão longe quanto possa ser meus sonhos, não digo, mas que são mais baratos que os da padaria. Ela desconfia das batidas escancaras do meu peito, disfarçadas pelas remessas de processos (kafkanianos) sobre a mesa que titubeio em sua presença, com um sorrio e alguns gestos que indicam “é, muito trabalho para pouco resultado”. Escondo dela que sei mais de Shakeaspeare do que as peças que ela já encenou um dia na sua juventude e que Keats sempre fora melhor que Byron, que eu detestava, mas que ela gostava tanto que dera ao seu gato o mesmo nome e jamais saberíamos que amor é aquele que morreria em 12 anos e que ficaria apenas nas lembranças. O nosso?

Eu achava que a amava, essa era a verdade. Mas descobri que era apenas um pretexto para escrever todos os dias alguma coisa a alguém.

Pra isso, a gente dá o nome de disciplina.

Sempre escrevo eu te odeio a lápis, me arrependo e apago, e escrevo a caneta eu te amo.

Um dia eu ainda pretendo não escrever mais nada.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Movimento Rápido dos olhos - 3º capítulo

Gosto de dizer que sou um escritor, olhar ao meu redor e ver sobre a mesa alguns dos meus livros, cada página um não a algo: vida social, televisão, jogos e a internet (em seus primórdios quando não desconfiávamos do monstro que alimentávamos com nossos restos). Alguns livros e alguma solidão, satisfatória para uma vida tranquila e inquieta para um ego que jamais se satisfaz com pequenas notas em jornais, em resenhas feitas sem emoção para revistas, com leitores tímidos que fingem que eu não sou eu, ou que sou eu e não gostaria de um elogio naquela fila do caixa ou entre uma prateleira e outra na livraria.

Confesso que a solidão se tornou satisfatória porque me conformei tão rápido me era necessário enfrenta-la. Não era medo ou fraqueza, mas sou maior que o isolamento que me foi dado em vida, entendem? Falando em vida, há sempre o desejo de se tornar mais do que um best seller ao lado dos romances adolescentes e os de auto ajuda, número um em revistas populares e sites muito acessados. Algo como ter um livro obrigatório nas escolas ou nos vestibulares, resenhas feitas pelos leitores para algum tipo de mídia dos intelectuais. Livros esquecidos em sebos e encontrados por jovens apaixonados, que pagariam qualquer coisa para me terem.

Queria também ser perguntinha de vestibular, essa coisa que decide a vida.

Meu ego é insaciável. Prá isso, a gente dá o nome de ambição

Para estar entre os melhores, antes de mais nada, preciso estar morto.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Movimento Rápido dos olhos - 2º capítulo

Adormecendo ao som de When you dance I can really love, Neil Young


Primeiro estágio


- Você acredita em vida após a morte?
- Eu mal acredito na vida, pra te dizer a verdade.
- Mas acredita em vidas passadas?
- Aquela coisa de reencarnação, você quer dizer?
- Exatamente, acredita?
- Não muito, mas eu tenho uns problemas de memória, você já sabe, eu nunca deixo os outros esquecerem disso também, mesmo eu sempre me esquecendo. Então quando o lapso de memória, aquele arrombo enorme, to falando aqueles buracos negros tridimensionais que engolem todos os fragmentos, você leu Hawkins e sabe disso, acontece de uma hora pra outra, eu esqueço essa vida. Aí tenho que viver outra, do zero, mas com esse mesmo corpo. Eu reencarno com o mesmo corpo, a alma é que vai mudando. Entendeu?
- Você é louco.
- Eu também acho.
- Você gosta de cartas?
- Só as de tarot. Por causa do destino.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Rapid Eyes Moviment. (R.E.M) 1º capítulo

Uma novela em 10 capítulos.

Despertando ao som de Misunderstood - Wilco



Não diria exatamente que PODERIA ser um sonho a ser realizado, até porque, não tinha exatamente um sonho ou uma meta, nem mesmo um rascunho de um desejo aos poucos esquecido. Mas era bom & era o que lhe bastava para acreditar que aquilo poderia ser chamado então de sonho ou qualquer coisa que fosse bom o suficiente para não ser real. Começou quando
(não tinha exatamente um começo mas apenas a percepção de que algo já estava se transcrevendo enquanto suas pálpebras caiam sobre os seus olhos o afundando em movimentos lisérgicos por minutos, até que se afogasse & voltasse do mundo dos mortos, bocejando pela casa com os olhos semi abertos)
chegara exausto do trabalho e algumas cartas se encontravam espalhadas sobre seu sofá. Até onde se lembrava, os correios não entravam em casas trancadas e acorrentadas de pessoas neuróticas com mania de perseguição (mas ele só tinha medo de infartos fulminantes, abduções, amnésias repentinas e de pessoas com mais de 70 anos ainda vivas)
e deixavam correspondências sobre sofás empoeirados e rasgados por unhas afiadas de felinos com tendências satânicas (a combinação dos fatores mataria qualquer carteiro alérgico).

E por mais que seus olhos cansados se recusassem a acreditar, o mais absurdo não era nem o número expressivo de cartas sobre seu sofá datadas de muitos dias atrás, tantos que poderiam ser anos a fio, mas o fato de não ser qualquer cobrança ou um equívoco, se tratando de qualquer homônimo (e ele sempre se sentira único).
Conhecia bem aquela disposição de letras, aquela coisa chamada texto com aquela caligrafia íntima. E era tão incrivelmente ele que poderia ser dele cada imagem descrita. Por um instante achou que estava ficando louco ao encontrar as pontes para sua memória destruídas(sendo a loucura um estado consciente de um nada interminável ).

Mas lembrou-se que em breve começaria o notíciario e que o jantar precisava ser feito.


A vida odeia ser simples.

sábado, 18 de junho de 2011

Paulistanagens #4

Nas unhas um esmalte roído datado da semana passada, em acessos de ansiedade crônica após ter desistido dos cigarros. O café continuaria, doses homeopáticas pela manhã enquanto o marido recitaria as manchetes da Folha de São Paulo e ela fingiria algum interesse pela Dow Jones. O casamento a envelhecera apesar da aparência ainda jovem, com as promessas de noites deitada no sofá importado da França acompanhando as séries da tv paga com doritos espalhados pelo decote da camisola de seda chinesa. As amigas ligavam, contando sobre seus casos durante as inúmeras festas que ela nunca mais seria convidada, persona non grata com sua vida nos eixos, contas pagas e a tranquilidade de quem pode dormir sem o peso das escolhas, apenas o peso do anel de ouro e do diamante que guardaria consigo eternamente seus pensamentos. O marido não mais a impressionava, peso morto sobre seu corpo em algumas noites em que ao fechar os olhos era com outros que fingia o orgasmo. Mas o amava, como amava a programação matinal da tv ou como as revistas femininas espalhadas nos salões de beleza que freqüentava. Um amor sem sentido e sem senso de realidade de uma vida igualmente assim, com cartões de crédito sem limites que jamais comprariam na Oscar Freire a felicidade, que é de graça, e que por ser assim, nunca a interessaria.

domingo, 12 de junho de 2011

A arte de não ser anfitriã.

3 sets a 1
na tv do hotel
onde
você escapa de mim
em forma de filete de sangue
e uma dor suportável
embaixo dos edredons
alguma lembrança
que será distorcida
pelo tempo
assim como o canal que se recusa a pegar.
Sinto muito
em não ser uma boa anfitriã
quando você
quis apenas
chegar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Sem fé, nada do que deveria acontecer acontece




'Pela manhã, obstinados ainda na sonolência que a campainha horripilante do despertador não conseguia trocar pela afiada vigília, contavam-se fielmente os sonhos da noite. Cabeça contra cabeça, acariciando-se, confundindo as pernas e as mãos, esforçavam-se por traduzir em palavras do mundo exterior tudo o que haviam vivido durante as horas de treva. (...)Tinham dormido com as cabeças encostadas e aí, nessa premência física, na coincidência quase total das atitudes, das posições, da respiração, do mesmo quarto, do mesmo travesseiro, da mesma escuridão, do mesmo tique-taque, dos mesmos estímulos da rua e da cidade, das mesmas radiações magnéticas, da mesma marca de café, da mesma conjunção estelar, da mesma noite para os dois, aí estreitamente abraçados, tinham sonhado sonhos diferentes, tinham vivido aventuras diferentes, um sorriso enquanto a outra fugia aterrorizada, um voltava a prestar um exame de álgebra, enquanto a outra chegara a uma cidade de pedras brancas. (...)Durante muito tempo, esperou um milagre, que o sonho que Talita iria lhe contar pela manhã fosse também aquele que tinha sonhado. Esperou por isso, incitou-o, provocou-o, apelando para todas as analogias possíveis, procurando semelhanças que, bruscamente, o levassem a um reconhecimento. Apenas uma vez, sem que Talita desse a menor importância ao fato, sonharam sonhos análogos. (...)Traveler continuou confiando cada vez menos. Os sonhos voltavam, cada um por seu lado. As cabeças dormiam encostadas e, em cada uma delas, levantava-se o pano sobre um cenário diferente. Traveler pensou ironicamente que pareciam os cinemas contíguos da calle Lavalle e perdeu de uma vez por todas as suas esperanças. Não acreditava absolutamente que acontecesse o que desejava, e sabia que, sem fé, jamais ocorreria. Sabia que, sem fé, nada do que deveria acontecer acontece; e, com fé, também quase nunca.'