sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Direito de resposta

Katrina pediu meus conselhos médicos. Eu Disse para usar colgate proteção total contra os dentes e comprar lixa grossa para os pés. Ela riu para amenizar a dor, se enterrava pouco a pouco, meio morta, quis viver algumas horas a mais, olhando fixamente para os dedos que mais pareciam tocos de cigarros apagados. Tenho receitas para dor, venderia pelo amor de alguém que me trouxesse um samba mais feliz que o meu. Ela não seguiu os meus conselhos, boa bisca que ela é, decidiu desviar os trilhos e acordar sozinha por debaixo do coração de são paulo. Ela escreve clássicos, enciclopédias de dramas na parede de seu quarto, recita poemas para bêbados que beijam a sua mão. Mora longe porque está muito perto.

(De Leandro http://letediz.wordpress.com/category/kl/)

Resposta

Esses dias encontrei Leandro num supermercado, dizia ele que precisava comprar Clarice para o almoço, estava de dieta, parou com o Trevisan nos intervalos para o lanche. Eu só estava ali porque meu Henry Miller só deu para um copo ontem a noite e eu não queria manter essa minha sobriedade por muito tempo, coisa mais triste ir dormir sem os lábios humedecidos de libertinagem. Falando nisso, me perguntou se me senti ofendida por ter me chamado de boa bisca. Absolutamente que não, eu disse, se me chamasse de puta, mesmo se eu não a fosse, eu seria. Faço de tudo para caber em seus textos. Ele disse que eu andava fácil, e eu ando, meus passos estão cada dia mais leves, por sinal. Sorriu, e porque não iria sorrir se eu estava enfiando sorrisos naqueles lábios? Doí de ínicio, com o tempo você se acostuma. Aliás, to procurando um inseticida, disse a ele. Sabe a vagabunda da Hilda Hilst? Andou me assombrando dias atrás, não me olha assim, eu sei que ela não está morta. Ela fica falando com Lennon pelas minhas costas, a vadia, e ainda por cima, fica tocando ao contrário meu Abbey Road repetindo cranberry sauce nove vezes, só para que não saia mais da minha cabeça. Diz ela que conversa com os espíritos, acredita? Ele acreditou, sempre acredita em cada palavra minha até quando nenhuma palavra minha existe. Posso pedir um favor, dizia ele enquanto enchia a cesta com as frutas do jardim elétrico, já que ela fala com mortos, vê se ela manda um recado meu prá Ana Cristina Cesar? É claro que sim, única resposta cabível, os nãos não me cabem, sabe disso. Qual seria? E ele, diga prá avisar que a ana é a melhor poeta que já existiu.
Com tanto veneno, prá quê inseticida?
Eu sei que ele saiu rastejando e ao virar a esquina saiu voando.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

De hoje e amanhã num ônibus.

Mariana resolveu que faria francês, ideia que há muito tempo fermentava em seus pequenos desejos mas que ainda não crescera. Mas o aroma permanecia ali, sempre a lhe lembrar do que prometera a si mesma num dia em que ouvira Anna Karina, meio sarcástica, bem apaixonada, dizer "Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujour", desfilando com aquele robe azul. A legenda dizia " Eu nunca disse que sempre vou te amar", mas para Mariana, soou como se Anna tivesse dito "Eu vou te amar para sempre", e com aquele sorriso e aqueles olhos encarando o pobre Jean Paul numa breve dança sustentada por suspiros, não era para se entender isso?

Convencera aos pais da sua idéia, usando de todos os argumentos possíveis, desde lágrimas de crocodilo de bolsas falsificadas até promessas de se rebelar contra qualquer ordem, uma fuga ensaiada de casa, quem sabe. Desistiu da agressividade e do drama, apelou para a realidade então, já que, para eles, seria muito conveniente que a filha fizesse francês. Era algo a mais para falarem aos seus amigos do clube, imaginem, nossa filha de 12 anos, além de falar inglês e espanhol, agora também fala francês!

Descrentes da excentricidade da filha, fizeram a matrícula na melhor escola de francês da cidade, indicação de alguns amigos que já haviam feito o mesmo curso. Sentiam-se felizes, como se a pequena de repente houvesse se tornado uma pequena mulher de grandes decisões. Não conseguiam esconder o orgulho e uma certa nostalgia, do tempo em que era tão dependente e tão pequena que cabia em seus braços. A menina, ao perceber a mudança dos pais de comportamento, agora tão corujas e doces como jamais foram, ria molemente sobre a cama. Se estavam assim, antes que ela aprendesse a falar qualquer coisa em francês, imaginem como ficariam depois das primeiras aulas? Bobinhos.

No primeiro dia de aula, decidira relutante que iria sozinha ao colégio. Os pais, preocupados, tentaram convencê-la a ceder ao menos isso, uma carona não faria mal a ninguém, se fosse vergonha, eles a deixariam na esquina mais próxima. A garota apenas dizia que da mesma maneira que escolhera falar francês, também queria a mesma liberdade de escolher como queria ir ao colégio. Não era vergonha, explicava, mas não era mais uma menininha, queria saber caminhar sozinha usando suas próprias pernas. Queria apenas que lhe explicasse qual ônibus deveria pegar, em qual ponto deveria descer. Se pudessem detalhar quantos passos dar, seria grata. Novamente, os pais, com o orgulho engasgado, descreveram todo o itinerário à filha, já que não havia mais o que fazer.

Mariana então pegou o ônibus no ponto próximo a sua casa. Subiu sôfrega os degraus, quase trêmula. Todos os medos juntos com as apostilas dentro de sua mochila rosa, o coração trôpego que ora batia no lugar do estômago, ora aparecia tão próximo dos rins. Procurou algum lugar onde se sentar, tinha um vago ao lado de um rapaz distraído com seus fones no ouvido e camisa de banda gringa que ela jamais ouvira falar antes, em uma outra ocasião até o acharia gatinho se não fosse o balanço do ônibus e o medo de prestar mais atenção no garoto do que no seu ponto. O outro lugar vago era ao lado de uma mulher, bonita até, um tanto familiar para se falar a verdade. Desconsiderando os hormônios pré adolescentes, sentou-se ao lado da mulher.

A medida que o ônibus avançava, o medo aumentava. E se passasse do ponto? E se o ônibus fosse assaltado, porque havia tantas notícias assim nos jornais de seu pai que achava que era muito provável que todos os ônibus fossem assaltados? E se, aquele cara negro de boné e roupas largas, perto do cobrador, estivesse mexendo em uma arma dentro do bolso? Tantos "e se" passaram por sua cabeça, que mal percebera que o que o jovem tinha em seu bolso era apenas um celular e que o olhar da jovem mulher ao seu lado, recaíra sobre sua face séria, traçado por várias linhas de desespero.
Preocupada com o seu ponto, que não saberia se poderia ser o próximo , perguntou então a mulher, se faltava muito para seu ponto chegar. Conteve a vergonha, esboçou um sorriso sereno, e arriscou:

-Moça, por favor, sabe se demora muito prá chegar até o ponto próximo à escola de idiomas?
- Daqui uns 15 minutos, eu vou descer um ponto depois, qualquer coisa te aviso.
-Ah tá, obrigada.
- De nada, aliás, espero que não me interprete mal, mas fiquei olhando para você e vi que parece tanto comigo, nessa mesma idade. Tem os mesmos traços que eu tinha quando ficava com medo
- E quem disse que eu estava com medo?
- Desculpa, eu só disse que parecia comigo. Faz algum curso de idioma lá na escola?
- Vou começar a fazer francês hoje.
- Olha só, que legal. Eu também comecei a fazer francês com a sua idade, mais ou menos. Acho que fiquei até uns 16 anos fazendo o curso. Todo final de ano eu preparava minhas malas, esperando que os meus pais pagassem uma viagem até Paris. No final, eu mesma que tive que arcar com ela.
- Ah não, eu não quero ficar tanto tempo assim fazendo francês, pretendo fazer só para entender o que falam nos filmes franceses. Sabe, meu tio tem uma coleção de filmes, até agora só consegui assistir os franceses. Mas sempre assisto escondida dos meus pais, eles não gostam que eu assista filmes de adultos.

- Mas que bobagem a deles! Na sua idade, eu decidi fazer francês quase pelo mesmo motivo, acredita? Lembro que assisti na tv ao Pierrot le fou, não sei se já viu esse filme. Numa cena, uma atriz, a Anna Karina, vestida num robe azul chega perto do mocinho e diz: Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujour, assim mesmo, fazendo o mesmo biquinho. Achei tão lindo na hora, sabe, a maneira como ela movimentou os lábios, como sorriu para ele, como ele suspirou bem baixinho que quase se dá para ouvir, mas dava prá perceber que ele estava completamente apaixonado por ela. Não consegui acreditar que ela tava dizendo que não o amaria para sempre, poxa, os olhos dela diziam outra coisa, tanta coisa, pareciam que diziam que ela o amaria para sempre. Achei que a legenda estava errada. Queria ver o filme sem legendas, por isso, fiz francês.

Mariana sentiu que suas pernas ficaram um pouco sem força e não conseguia respirar direito. Coincidência demais? Preferia acreditar que nada, mas nada mesmo, passava de mera coincidência. Um monte de gente deve ter feito aulas de francês por causa de algum filme do Godard, óbvio. Ainda mais se fosse o Pierrot le fou, em questão. Queria saber mais sobre a estranha, que não era assim tão estranha afinal.
-Posso te perguntar a idade ou você se sentiria ofendida?
-Claro que pode, ainda não me sinto mal em dizer que tenho 31 anos. E você? Parece ter 12 anos, estou certa?
- Sim, mas logo faço 13 anos. Você trabalha do quê? Fez faculdade? Morou em Paris mesmo?
- Calma, uma pergunta por vez minha querida. Nunca me fizeram essas perguntas dentro do ônibus, fico um pouco acuada assim, tudo bem? Vejamos, eu só fui para Paris uma vez, antes de me casar, mas fiquei pouquíssimo tempo. Aí terminei a faculdade de letras, comecei trabalhando como tradutora de livros franceses, os mais recentes. Aí me casei, não deu certo, fiquei com depressão, larguei o trabalho. Me afundei em dívidas, vendi meu carro e agora estou indo trabalhar como assistente em revisão, numa editora. De ônibus. Aliás, teu ponto tá quase perto.
- Nossa, e porque não deu certo seu casamento?
- De certa maneira ele foi o único cara da minha vida. Fazíamos francês juntos, quando me apaixonei por ele. Durante 4 anos fomos bons amigos, depois grandes amigos, aí namoramos, brigamos várias vezes. Aí eu fui para Paris com 17 anos, mais para esquecê-lo do que para aproveitar a cidade e viver meus sonhos, e quando voltei aos 18, não teve jeito, acabei voltando para ele, e no final nos casamos. Bom, no final mesmo, nos separamos. Foi trágico, trabalhávamos juntos, os mesmos amigos, os mesmos comprimissos. Sempre os mesmos filmes, os mesmos livros, as mesmas músicas. Com o tempo já sabíamos o que um ia fazer antes mesmo que este soubesse o que faria. Surgiram brigas, ele me traiu, eu o traí. Aí surgiu o divórcio, tão doloroso! Quase me matei, de tanto desespero. Aí contratei analista, advogado. Aé mãe de santo prá me livrar de tanto mal olhado, se fosse o caso. Olha, teu ponto é o próximo pequena.
- Afinal, porque tá sendo assim, tão sincera com uma menina de 12 anos?
- Querida, quem já assistiu Godard, já assistiu o que é a vida de verdade, sabe, pelo menos, o que começa a ser a vida de verdade depois que a gente descobre que estamos vivos. É daquela maneira mesmo, um pouco romantizada mesmo, ás vezes sem o esperado final feliz. Esperamos que em 2 ou 3 horas tudo aconteça de uma vez, e não é bem assim. Ela nem acontece, a vida. Mas não fica assustada assim não, é a gente que escreve ela, não nenhum francês pirado, fica tranqüila. Claro que se a gente sabe antes como a história pode terminar, ainda dá tempo de reescrever as primeiras cenas.
-Obrigada pelo conselho, senhora. Qual seu nome?
- Mariana, e o seu querida?
- Flávia.
-Teu ponto. Boa sorte na primeira aula, Encore plus!
-Ah?
-Assista Felinni, e Bertolucci. Não deixe os americanos de lado, nem os alemães.
- Obrigada!
-Até mais!

Mariana desceu no ponto. Resolveu ligar a cobrar para os pais, para que a buscassem. Não sabem, no meio do caminho, falaram sobre Berlim e de como a Alemanha vai ser o país mais importante de toda a Europa. Acho que alemão é uma língua mais importante do que o francês, não acham?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A cor do teu vermelho sobre a cor do meu branco

Originalmente publicado no meu (extinto) recanto das letras em 19/07/08
Aqueles que amam e os que são felizes não são os mesmos
Marcel Proust


Acho que não saberia explicar a alegria que sinto agora ao te ver aqui, finalmente após esses quase 5 ou 10 ou quem sabe até 20 anos? Eu nem me lembro qual foi a última vez que me senti assim tão feliz por tão pouco, aliás, eu já me senti assim ao seu lado sem qualquer tédio ou obrigação? Durante toda essa eternidade que se desfaz agora com esse seu sorriso, fiquei te esperando entre esse teto, essas paredes e todas essas pessoas de branco, ansiando que você me presenteasse com alguma cor, assim como esse seu vermelho meu favorito em seus lábios, nas suas unhas e espalhado em seus olhos. Só Deus e eu sabemos o quanto o branco é doentio, nada de paz ou pureza, a cor do vazio e da imensa solidão, somente pessoas gritando e se debatendo umas contra as outras, contra esse maldito branco que me dá ânsia de vômito. A última vez que eu vi alguma cor foi o vermelho dos borrões de sangue nas paredes, quando eu quis ultrapassá-las e chorei de alegria sem sentir qualquer dor ao ver aquele vermelho vivo quente escorrendo pelo branco virginal daquelas paredes e prostrei-me a Deus em agradecimento, quando pude senti-lo como uma leve dor em meus braços e uma corrente percorrendo as veias do meu corpo. E a paz, de dias mais brancos. E o pai, como está? Espero que tão bem como eu estou aqui. Ele nunca veio aqui me visitar, me perguntar se estou bem e se preciso de algo. Eu queria olhar para ele e dizer que pela primeira vez na minha vida preciso de sua ajuda. As vezes temo esquecer aos poucos os contornos daquele rosto tão forte e tão triste que era o dele. Quando eu me vejo refletido em algo, principalmente assim nos seus olhos como eu estou me vendo agora, não pisca tá?, eu me lembro demais do pai por lembrar demais ele. A gente é bem igual né? Assim fisicamente pareço com a mãe, mas de resto herdei tudo do pai, desde não saber amar até essa cegueira involuntária, de querer viver na incerteza do que enxergar a verdade, não tem cura, sabia? Talvez por isso eu e ele nos tornamos esses cretinos imundos que no final perderam, cada qual a sua maneira, a única mulher que realmente um dia amaram. Fico me perguntando se isso se carrega no DNA ou é mais uma mera coincidência do destino? Porque eu lutei para não ser como ele, mas no final, segui os seus passos até parar aqui, meu ponto final. Eu sempre me pergunto isso e agora vou te perguntar, apenas para confirmar todas as minhas dúvidas e me atirar novamente ao inferno, quem teve o melhor final feliz: Eu preso neste branco terminal lentamente, sendo morto pela minha loucura que se alimenta da minha tristeza ou ele, que vez ou outra estupra a filha porque essa pobre infeliz tem os mesmos traços delicados da mãe que a abandonou? Queria ter mais pena de você Julia, chorar com alguma sinceridade ao te ver assim. Mas eu não consigo nem mesmo sentir piedade de mim, eu nem sei o que eu sinto por mim, além de dor, porque cada lágrima que eu consiguia derrubar, rasgava meu rosto como giletes, mas hoje, cada vez que penso em chorar já me corto e sangro, não sou forte como pensa que sou. Posso te pedir um favor?Quando ele estiver por cima de você, diga que eu o amo de todo o meu coração e que o perdôo por tudo, mesmo que eu ainda sinta aquele tapa em minha face e aquele “você não presta tanto quanto a sua mãe” ecoando em minha mente quase todos os dias. Daqui a pouco, se você me der licença, terei de tomar o meu remédio, e adivinha a cor dele?Sim, essa cor bem no fundo dos teus olhos, que faz me sentir mais leve e quase tão morto que consigo ver a lucy no céu com diamantes vermelhos. Quero logo que essa sensação de quase morte não seja mais apenas uma sensação, mas ando fraco demais para pulsos. Se lembra da mãe? É, talvez eu ainda a ame mesmo sem ter tido a sensação de ter uma mãe. Ela de traços tão delicados e olhos cinzas flertando com a surrealidade daquela felicidade que ela irradiava num casamento frustrado, com filhos tristes mendigando pela sua atenção. Espera Júlia, por favor, os seus olhos estão tão iguais aos dela...

Mãe, minha amada Marta, adormecida nos macios olhos de Julia, quase não posso acreditar que seja realmente você na minha frente, quanto, mas quanto tempo se passou até que esse dia chegasse? Papai nos mandava rezar por sua alma ás vezes, dizia estar morta... Ainda me lembro de você vagando pela casa ao som de Gardel, com aqueles seus passos tão certos quanto a certeza que tínhamos que você não fosse feita para nós. E essa sua alegria humilhava meu pai, porque ele já sabia do seu amante, aquele seu galã decadente da nouvelle vague, que me dava balas para que eu os deixasse em paz, enquanto estavam no quarto em que você certamente nos concebeu. Hoje eu sei que você nunca nos amou, eu sei disso mesmo tendo abraçado a ilusão de que você um dia, por algum momento, nos amou. Você que nos olhava como se fossemos estranhos que compartilhavam a mesma casa com você, e que você tentava manter o mínimo contato possível, com medo de nos amar. E segundo aquela carta deixada sobre a mesa, você havia fugido para Buenos Aires com aquele quase Jean-Claude Brialy que lhe fazia a mulher mais feliz e mais completa do mundo, e sabia que crianças de 10 e 8 anos compreenderiam isso perfeitamente assim como o marido abandonado. É claro que entendemos isso tanto que, durante muito tempo, rezávamos para que você voltasse logo para nos buscar, porque também queríamos ser felizes e completos. Então eu e Júlia começamos a odiar Deus a cada dia que se passava sem você estar por perto. Enquanto mães se sacrificavam pela felicidade de seus filhos, você nos sacrificavam pela sua felicidade. Mãe, eu que sempre desde muito cedo invejei aquele seu amante por ter a sua atenção e o seu amor incondicional, e hoje o invejo mais por ter tido o seu corpo entrelaçado ao dele, por ter estado dentro de você e ter chegado mais perto do seu coração mais do que qualquer um de nós. Eu que nunca hei de esquecer os teus olhos cinzas e os teus lábios tão perfeitamente vermelhos contra a sua pele violentamente branca. Branca como todas as paredes que me cercam, branca como essa minha dor vazia de você, que está aqui, agora mais do que nunca perto dos meus abraços. Você deixando para trás rosas vermelhas murchas no vaso do seu quarto, murchas como Julia ao longo desses anos ao lado do pai, mesmo quando ela tentou fugir, espalhando todo aquele vermelho existente dentro dela por todo o ladrilho do banheiro todo branco, a sua cor favorita não? Você nem soube da partida de Julia. Eu que amava Julia até mais do que a mim mesmo e que encontrava nela esse amor maternal que eu queria que fosse seu. Julia foi embora e me deixou sozinho com aquele que em breve eu seria. Queria que você tivesse conhecido Sophie, talvez por ser tão igual a você eu tenha me apaixonado por ela. Sophie tão perfeita quanto você ou até mais, Sophie tão você em meu amor doentio. Assim, olhando para você eu posso contornar o rosto de Sophie, o pescoço de Sophie, o mesmo pescoço que ainda sinto em minhas mãos...

Sophie...Sophie, você ainda é aquela de quem eu me recordo entrando em minha vida pela porta da loja de discos em que eu procurava algo para relembrar do que já ouvira (antes da sua voz), talvez qualquer coisa naquele dia, eu não me lembro do que escolhi porque eu só me lembro dos teus dedos deslizando sobre os meus até chegar até aquele álbum branco do Caetano e que eu só ouvi muito tempo depois, quando você era tão minha quanto um dia eu já fui meu, dono de alguma razão. Você tentando me ajudar nessa escolha que até hoje eu realmente não me lembro porque eu só me lembro do seu sorriso dentro dos teus lábios carmins tais como o seu vestido vermelho que usaria mais tarde para me encontrar num bar ali perto, onde me contaria após vários copos de alguma coisa que eu não vou me lembrar agora porque eu só me lembro dos teus olhos multicoloridos, ora azuis quando estava alegre ora meio verdes quando estava triste e as vezes era algo como um verdeazul quando estava apenas comigo, a história da sua vida até ali, até me encontrar, até começar ali a escrever em poucas linhas o seu fim, muito mais meu do que seu. E assim começou tudo, de alguma maneira começou ali a minha vida. Porque antes eu não vivia de verdade Sophie. Eu, morto que andava por todos os cantos procurando algum sentido, desvairado alienado que se contentava com aquele nada que existia e batia no meu peito como dor. Ah Sophie, quisera ter lhe dito isso algum dia quando estávamos juntos. Tantas coisas que calei, que guardei comigo e que agora abro para você. Sophie, ainda há tanto de você pela minha casa, nada aqui senão a tua vaga imagem sobre meus olhos dormentes, mas lá, único lar que tive, ainda há os teus cigarros jogados debaixo da minha cama, com o leve sinal do teu batom vermelho e que eu, nesses momentos sem você, buscava neles o resto dos teus beijos que tinham o gosto amargo dos meus. E as tuas roupas que ainda guardam um pouco desse teu corpo que eu deslizava suavemente, com medo de que derretesse com o calor do meu desejo, ainda estão por lá, em alguma parte em que ninguém mais álem de mim saberá a quem pertenceram.

Ah, Sophie, não queria que isso tivesse acontecido.Me lembro de você assim tão leve flutuando assim como a minha mãe pela sala dançando qualquer tango de Gardel e me levando junto, me conduzindo através do seu corpo por lugares jamais imaginados até o paraíso que é tão somente te sentir dentro de mim e compartilhar das mesmas batidas do seu coração, enquanto eu cantava quase recitando de tão belo e de tão real a nós aquele trecho de Gardel em seu ouvido, aquele assim "Por una cabeza,todas las locuras.Su boca que besa,borra la tristeza,calma la amargura.Por una cabeza,si ella me olvida que importa perderme mil veces la vida, para qué vivir?"*.Os nossos livros e discos que agora já nem fazem sentido algum para qualquer pessoa que os tenham, mas que tão somente nos completavam entre versos entoados por nossas vozes embriagadas em alguma música, mas que agora se perdem em algumas caixas que alguém levará para o lixo onde ninguém mais poderá ouvi-los e senti-los, um final tão trágico quanto o nosso. Ouço agora o eco de todos aqueles “eu te amo” que você insistia em me dizer e que eu não acreditava por não fazerem parte dessa minha vida, feita de ódio e sangue. Perdão Sophie por não ter acreditado nesse teu amor tão desprendido e sincero, esse amor que eu tanto procurei em Marta e encontrei em você. Você tão igual a ela mas tão mais humana e real. E você foi parando de dizer que me amava, bem aos poucos. Dizia-o agora em doses homeopáticas, até que um dia, nunca mais o disse, como se eu estivesse curado da sua paixão e não nessitasse mais dele. Não dizia mais em palavras e nem em gestos simples, como um como um olhar bobo ao acordar ou um toque suave sobre as minhas mãos quando próximas as suas. Talvez você tenha se cansado querida, e deixado para que eu pudesse subtender o seu amor em outras maneiras de demonstrá-lo. Era isso que eu não vi?

Assim eu quero acreditar Sophie, acreditar que você preferiu não dizê-lo mais por simplesmente saber que eu tinha total certeza do seu amor, certeza que não precisava de palavras para saber que ele existia entre nós. Sophie, assim foi a minha mãe um dia, sabia?. Ela simplesmente parou de dizer "eu te amo" nos gestos que acreditávamos serem sinceros assim como você se cansou um dia, e nos abandonou. Não Sophie, você não me abandonou como ela, porque ela apenas nos deixou largados em casa esperando pela sua volta, ano após ano, até que a nossa esperança desaparecesse. Não Sophie, o seu abandono foi o mais terrível e doloroso de todos os abandonos. Era ainda você ali ao meu lado na cama ouvindo Gardel, sorrindo e se despreguiçando enquanto eu a olhava com amor e que estes teus olhos verdes que eu sabia tão bem o que significavam não conseguiam refletir o meu olhar. Tão distante de mim por estar tão perto, assim como Marta dos meus abraços e dos meus beijos, tão fria quando o chão em que costumávamos nos deitar para ouvir aquelas declarações absurdas de amor, contida em qualquer canção. Só você, sozinha na sala ao lado da vitrola, olhando para além daquelas paredes vermelhas, além de mim ali, além de tudo.Não era mais você Sophie, porque você Sophie, me abandonou ali sozinho naquela casa com uma estranha que não sabia o quanto eu a amava

Você disse assim “Preciso ir embora de você. Não daqui, desta casa, mas de você. Compreende?”. E eu te olhando, fixamente, procurando me encontrar deitado numa cama e dizer a mim mesmo que eu precisava acordar porque eu poderia ficar preso áquele pesadelo para sempre. Mas não, eu não me encontrei em nenhuma cama, meus olhos estavam abertos, inchados de lágrimas. E você ainda dizia “Ando confusa demais com você. Acho que meu amor se esgotou, entende? Não que eu não te ame mais, mas não sei onde, ou porquê, te amar. Eu sinto o mesmo vindo de você, de uma maneira tão grande, que me engole. E eu não consigo me sentir DENTRO de você, me sinto fora, entende?" Eu chorando, sem ter o que dizer, com aquele “eu te amo” calado na minha garganta que forçava um grito. Você pegando as suas coisas, enquanto eu a observava calado, revendo todas as cenas dessa nossa história em cada segundo em que, eu poderia ter lhe dito tudo o que eu deveria ter dito em todas aquelas horas, em todos aqueles dias, contornando novamente o teu corpo assim como eu fazia com o de Marta, através daquele seu vestido vermelho, como todos eram afinal para mim. Mas você tinha razão Sophie, não era você que estava dentro de mim. Eu Édipo cego de amor com mãos tão sujas que te tocavam Sophie, mas que só tocavam aquilo que eu acreditava ser Marta, ali no seu corpo, assim como meu pai, que procurava em Júlia tudo o que Marta lhe significava. Lembra, eu te pedi mais uma chance e você negou-a. Então eu lhe pedi o seu corpo pela última vez Sophie, e eu jurei para mim e para você que era o teu corpo que eu tocaria, era você que eu teria dentro de mim. E você permitiu tão esperançosa quanto eu de que aquilo pudesse ser verdade. Sabíamos, aquele era o nosso fim, um adeus depois e eu jogado no chão procurando as cinzas dos teus cigarros misturadas com as minhas cinzas. Eu tentando conviver com as tuas lembranças que vagariam por ali enquanto você seria de outros e eu seria apenas de você, Sophie.

Não Sophie, eu não agüentaria. Então eu sobre você, envoltos naquele meu branco tão doentio quanto o seu vermelho manchado de amor, tão absortos nessa despedida, tão absorta em se sentir dentro de mim, não percebeu minhas mãos tateando pela gaveta da mesinha de cabeceira, a procura da tua tesoura. Você se sentia feliz dentro de mim pela primeira vez enquanto uma das minhas mãos segurava o teu pescoço e a outra abria a tesoura, mostrando contra a luz aquele fio tão afiado. Você sorrindo, gritando que me amava, e eu ali, a tesoura contra o teu pescoço, você sorrindo pálida, a cor do teu vermelho sobre o a cor do meu branco, a tua cor prevalecendo como os teus sorrisos e as lembranças de todas as cores vermelhas de Marta. Estirada crua como sempre sobre a minha cama, sorrindo tão branca como o resto do branco que ainda existia naquele quarto, aquele vazio dentro de mim prevalecendo agora sobre a tua cor, você ficaria para sempre ali onde jamais deveria sair.Para sempre ao meu lado Sophie.Malditos sejam estes que nos tenham separado.Esse seu amante galã dos anos 50, o meu pai e essa tua dúvida sobre esse meu amor, esse maldito amor, mais maldito do que qualquer outra coisa. Duas partes do meu amor, que eram uma apenas.

Compreende Sophie?
Compreende Marta?
Compreendam assim como eu compreendi o adeus de ambas.E agora estou aqui, sanatório, me disseram, não sei, não lembro, sinceramente tanto faz onde estou se eu estou morto. E agora sou eu, preso para sempre a esse branco doentio que me lembrará sempre dos lençoís, do sorriso de Julia, da pele de Marta, procurando qualquer traço do vermelho, minha cor favorita. Agora, refletido pela primeira vez em anos, o rosto tracejado de tempo e vendo vocês todas dentro de mim pelos meus olhos nesse reflexo da janela, um reflexo bem transparente, que as vezes acho que o que vejo são fantasmas.
Ou eu seria o fantasma?

sábado, 26 de setembro de 2009

O tempo em minhas mãos (Ou você em meus braços)

Nos teus olhos as pessoas se amam bem mais do que se permitem e o mundo parece bem mais leve do que este que eu carrego dentro do peito com o peso de milhões de anjos caídos da fronte do paraíso que você carrega consigo dentro dos teus abraços que eu espero

[como espero a anunciação de todos os evangelhos pelos lábios maculados de dor & sangue de algum Jesus do qual possamos tocar e sentir o gosto da verdade

Não consigo acreditar em Deus se eu posso acreditar em seus olhos inquebráveis & irreversíveis
injetados de sangue do teu imaculado coração]


Toda minha'lma cheira a sandâlo em noites de verão mas nas noites de verão ela também exala esgoto
Todo o meu corpo se embala em um samba-canção mas nenhum samba-canção se embala por meu corpo.
Todo meu pensamento se encanta com os teus sonhos mas teus sonhos também se encantam por outros pensamentos.

Morderei cada lembrança
e cada lembrança terá seu sabor agridoce&etílico&inebriante
atordoado
sufocante como cada abraço

[paraíso amortecido e esquecido e dilascerado onde todos os anjos gozam Amém, graças a você, Aleluia
Hosana aos que sofrem, aos que perdem, aos que morrem todos os dias e no dia seguinte ressuscitam amargamente em suas camas. Hosana]

Todos os dias eu sonho com São Paulo
sempre dentro de você
E acordo sempre em algum inferno artificial
sempre muito longe de você

Ainda te colocarei dentro de um poema embrulhado por um belo blues
(Presente só meu, passado de outros)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Tango # 2

Você me tira para dançar com os teus olhos que me engolem para além de você, jamais para dentro, onde provavelmente eu estaria confortavelmente esperando a próxima contra-dança abraçada ao teu coração. Envolve apenas meu corpo, repudia o que não faz parte. Piso em seu pé, peço desculpas, você mal pode me ouvir, não pelo volume desse tango, mas pela distância que nos separa. Aproveito e digo aquele eu te amo que borbulha em meus lábios, só para que eu jamais me arrependa depois de nunca tê-lo dito á você. Piso novamente em seu pé, com a ponta finíssima do meu salto alto. Que você sinta, por um leve instante, o que eu sinto todo o tempo dentro do peito quando o seu peito no meu encosta. Mas ele se quebra, caio dos teus braços, me sinto no chão. Seus olhos dizem que é lugar de onde eu jamais deveria ter saído. Claro, alçar vôos mais altos do que o céu da sua boca, me causariam alguma queda.

Você ainda vai me convidar para uma próxima dança.
Concederei minha costas, não mais minhas mãos.

Amor nos olhos dos outros, nos meus, arde.

(em algum lugar, minha saudade tira São Paulo para dançar a nossa canção. Em meio ao congestionamento de emoções, ela atravessa não se importando com os sinais abertos nos cruzamentos de pernas e sorrisos. Destila um tango rasgado como inúmeras tentivas de poesia e

Morre
dentro de outra poesia)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Arranco um suspiro de uma página, respiro.
O som do meu peito tem a ausência de um tango, como se ele fosse o último a tocar nossos corpos que enfim se cruzam num arfar de pernas. Dos teus vícios, ficaram apenas os meus.
Sobre minha pele, alguns bilhetes do tempo. Para que eu não me esqueça do que já se passou. Sob minha pele, alguns bilhetes teus. Para que eu jamais me esqueça por onde você passou.

Encontro alguns pedaços de nós, dentro de uma gaveta, protegidos pelas mesmas notícias de hoje
dos jornais de outros ontens.
É, eu sei, não tenho porque sorrir

mas sorrio aos pedaços de outros que já se foram. Inteiros.

Enquanto isso, ao pé do ouvido, desisto.

Desculpe Gardel, Contra el destino nadie la talla ,se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más...

quem sabe, num próximo tango, você me engana.

domingo, 20 de setembro de 2009

Carta zero, décimo primeiro caminho - o caminho de Aleph

Meia noite e teus olhos perdidos na vastidão do meu pensamento vazio e indolor
que não contém nada mas comporta tudo
calculando os próximos passos em direção ao caminho do qual devo tomar com minh'alma insone se debatendo dentro do meu corpo rasgado de mágoas em carne viva
(sonhos com carne morta)
As pontas dos meus pés se equilibrando no inferno enquanto as pontas dos meus dedos tateiam alguma salvação entre um cigarro e outro e várias pontas, me valendo do que sobra. Das cinzas, das quais fênix alguma surgirá como surge o contorno suave das suas mãos em torno do meu corpo
Quisera eu ser uma pessoa melhor
mas o melhor de mim ficou para trás, debaixo do tapete da sua porta
Mas não, não quero ser alguém melhor
alguém que caiba nos seus versos
(já me basta caber em algum dos seus abraços)
mas que apenas permaneça neles.
Quisera desenhar-te rubro sanguíneo dentro de mim, cravejado de possibilidades como cicatriz tatuada pelo tempo bem no meio do peito, para que arda ao respirar e morra quando meu coração se partir, porque és tão parte de mim que em mim é você que corre pelas veias. É você que eu perco um pouco mais ao sangrar.
Quisera eu lhe ter por inteiro e não somente as lembranças a cada esquina em São Paulo, espalhado nas calçadas da São João ou sobre a mesa de qualquer bar na Augusta ou em alguma folha de qualquer árvore da Sé, o ponto exato onde você renasce em mim, que nasce em meu ventre, útero revirado por tantas noites e

cartas.

Quisera eu, não acreditar em cartas
de tarot
nas suas.