segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Dolores

"O que acontece é que não aguentamos o peso da consciência"

Gabriel Garcia Marquez


O celular vibrava mas só o soube quando percebeu o barulho de algo se movimentando dentro de sua bolsa, como se alguém por detrás dela seguisse seus passos e estivesse a vasculhando em busca de algo. Quatorze ligações perdidas de um número desconhecido num curto período de duas horas. Desligou o celular sem ao menos descobrir quem tanto a ligava, sem ao menos ter sido absorvida por um pouco de curiosidade ou preocupação. Estava muito tranquila, como há muito tempo não se sentia ao trilhar o caminho de volta ao seu apartamento. Também estava muito cansada e já sentia o seu cheiro sobressair o perfume que usara de manhã ao sair para o trabalho, os saltos incomodavam seus pés que não sabiam exatamente onde se apoiariam: se jogavam todo o peso para a ponta dos pés ou para todo o calcanhar. De vez em quando parava e tirava um dos saltos para que um dos pés descansasse um pouco e se lembrasse a postura correta para usá-los, o dedão do pé parecia inchado mas não tinha certeza, também não tinha certeza se era câimbra o que sentia em sua panturrilha. Estava próxima da rua do seu apartamento, onde usualmente havia uma grande movimentação naquele horário devido aos bares e restaurantes, mas que naquela noite estava vazia, com poucos carros estacionados e um ou outro que aparecia e desaparecia na curva de uma esquina. Tirou de sua bolsa seu já velho Ipod mesmo que só faltassem uns 5 minutos até chegar à sua casa e deixou que o shuffle escolhesse a canção que por acaso seria If you hold a stone, talvez do melhor álbum do Caetano Veloso na opinião do seu ex namorado, que nem sabia o nome do álbum e não conhecia o Caetano até conhece-la.

O porteiro a cumprimentou da guarita meio sonolento e desnorteado sem mesmo olhá-la direito. Não havia ninguém no hall de entrada como era de se esperar (não talvez para aquele horário), porém as revistas da sala de espera estavam espalhadas pelo chão e algumas inclusive estavam rasgadas. Talvez fosse uma das crianças do casal do quinto andar, do quarto ou do terceiro andar, mas preferiu não chutar o andar onde haviam as tais crianças (se é que haviam crianças naquele prédio ou mesmo casais). Estava tão cansada que sentou-se em uma das poltronas até que o elevador chegasse ao térreo do décimo andar. Segurava os saltos em uma das mãos e a outra revistava a bolsa no colo em busca do maço de cigarros e isqueiro, mas não os encontrava. Encontrou uma caixa de tranquilizantes quase dentro da bolsinha de maquiagem, mas não se lembrava de carregar consigo aquilo. Também não se lembrava que o elevador estava quebrado já fazia um mês e por sorte ela morava no segundo andar. Subiu os dois andares descalça, agora se lembrando que para se andar de salto o peso dos pés tem que se dividir entre as pontas dos dedos e o calcanhar, nunca jogando o peso do corpo todo para uma só das partes. Movia de vez em quando os dedos como se conduzisse um cigarro imaginário sendo que a vontade naquele momento era tão real que roía as unhas e deixava pelos lábios os pedacinhos do esmalte azul da semana passada. A cada degrau o seu corpo era arremessado para a frente, o peso do tempo a movendo lentamente. Tentava se lembrar de tanta coisa, mas só conseguia se lembrar agora do refrão de “Zombie” de uma banda irlandesa que não era o U2 e ela não lembrava, ela não conseguia se lembrar de tal maneira que no quadragésimo degrau sentou-se e tentou controlar um pouco o desespero da situação. Tentou aliás, se lembrar porque estava tão desesperada de tal forma que estava chorando e roendo as unhas. Os saltos foram arremessados até o trigésimo sétimo degrau e não havia uma previsão de resgate.

In your head, in your head

A canção se repetiu sete vezes e sete foram suas tentativas de se recordar o nome da banda que também já não se recordava que era irlandesa, como uma outra banda que ela também conhecia e que não conseguia se recordar qual seria. O Ipod estava sem bateria desde o momento em que ela entrou no prédio.

Desistiu.

Buscava agora a chave do seu apartamento dentro da bolsa (e tentava se recordar como é que fora parar na porta do seu apartamento sem seus saltos). Ao abrir a porta, se deparou com sua sala quase destruída. O sofá estava de lado e em pé, sua mesa de vidro quebrada assim como alguns vasos e objetos de decoração, suas lembranças de viagens e presentes de amigos espalhados pelos cantos, alguns próximos de uma televisão caída. Algumas fotos espalhadas pelo chão estavam rasgadas, mas seu rosto sempre permanecia intacto nas imagens, intacto e solitário em meio aos fragmentos das outras pessoas. Não se desesperou ao andar pelos cômodos e ver as paredes rabiscadas com palavras e desenhos inidentificáveis e suas roupas rasgadas, peças íntimas expostas nas luminárias e seus livros jogados dentro de panelas transbordando água. Não se desesperou ao ver marcas de sangue pelo chão, manchas que conduziam até o lavabo do banheiro que apresentava poucos sinais de destruição. Ela estava absorvida em todos os detalhes, absorvida demais para se desesperar por aquilo, ou por ela. O telefone tocava abafado, até que descobrir que estava dentro do lixo. Na segunda chamada atendeu a ligação, a música na cabeça, a banda irlandesa que a vocalista tinha nome de dor, os pés que doíam sem seus saltos. A pessoa do outro lado da linha gritava ao mesmo tendo que agradecia a Deus por tê-la atendido finalmente. Não compreendia tudo o que se dizia do outro lado, mas entendia que estavam preocupados com ela. Quem? Ela não se lembrava. A mulher apenas dizia que iria agora mesmo busca-la (seria sua mãe?) e que ela tomasse dois comprimidos do remédio (o tranquilizante?) que ela havia posto em sua bolsa ás escondidas para um caso semelhante a esse (que caso?). Não mais gritava, mas chorava enquanto pedia alguma coisa a Deus, implorava que ela tomasse os dois comprimidos e que ficasse no quarto. Agora ela dizia algo sobre surtos e suicídio, algo a respeito de sumir durante uma semana e a família (que família?) estar a sua procura (mas não havia ido ao trabalho?). Ela ficava muda, ouvia a mulher desabafar e aconselhar, apenas consentindo quando o silêncio e a urgência de suas palavras surgiam. A mulher novamente recomendava o remédio, o quarto e a calma. Ela não aguentava mais. A mulher pedia que não desligasse o telefone, para que permanecesse na linha, que contasse como chegou em casa. O fio do telefone cada vez mais se parecia com um colar de madrepérolas que ela sempre quis em sua infância, mas nunca teve a chance de usá-lo. A mulher chorava, dizia algo sobre amor e que tudo ficaria bem. O fio do telefone ficaria bem entre as suas correntes. Comentou apenas para que a mulher ligasse mais tarde, que ela iria tomar (então) os comprimidos e experimentar um colar de madrepérolas que ela havia comprado. A mulher consentiu, pediu cuidado e disse sobre amor. Antes que ela desligasse, perguntou à mulher misteriosa do outro lado da linha:

- Tem uma banda, in you head in your head, zombie, zombie, zombie. Ela é irlandesa, a vocalista tem um nome que lembra dor, ou que doí. Você sabe quem é?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Down downtown

Para I.C


Os pedestres os olham abismados ao passarem rentes aos seus passos, dois embriagados abraçados na frente da estação de metrô olhando absortos para o céu que lentamente ganhava as cores do dia. Sentaram-se na calçada esperando que a estação abrisse e que cada um seguisse o seu destino, em silêncio, com medo de que algo muito frágil entre eles fosse quebrado com a primeira palavra pronunciada.

Ela foi a primeira a se manifestar ao dar um sorriso meio desgovernado e alinhar sua cabeça no ombro dele, tentando sussurrar algo que era impossibilitado pelas risadas provocadas pelas cócegas que ele sentiu naquele instante. Era difícil não sentirem um estranhamento ao se tocarem com aquela intimidade depois das garrafas deixadas para trás transbordando de mágoa. Suas peles eram feitas de vidro e qualquer toque estava sujeito a fraturas e estilhaços que machucariam qualquer um que estivesse próximo, mas também estavam sem pele e qualquer toque ocasionaria dores lancinantes até se desintegrarem, talvez se tornando início: cinzas.

- Você é capaz de lembrar de alguma coisa que eu disse no começo? Algo que prove que eu posso ter sido uma companhia bacana mesmo se eu não tivesse bebido nada?

- Vejamos, você disse que o que mais odeia em toda a filosofia marxista é essa coisa de chamar todo mundo de companheiro. Que chamar de companheiro consegue ser pior do que chamar de brother e que chamar qualquer pessoa de ambos, prá você, consegue ser pior do que xingar de filho da puta. Lembra disso? Eu não parava de rir com esse seu comentário.

- Vagamente, foi bem antes da vodka isso? Eu parecia chata, não parecia?

- Foi antes, você nem estava falando enrolado ainda. Foi erro meu ter lhe oferecido vodka enquanto você se mantinha forte na cerveja. Mas não parecia chata, ou pelo menos não ficou assim do meu lado.

A estação de metrô abre, as pessoas próximas se encaminham rapidamente para dentro das acomodações e ignoram o casal sentado próximo à escada como se fossem dois cães de rua, silenciosamente abandonados num canto qualquer por alguém. Ela procura dentro da bolsa o seu celular e deixa derrubar sua escova de cabelo e um absorvente. Ela não repara, mas ele não conseguia tirar os olhos daquele absorvente como se fosse uma evidência de que ela era tão humana quanto qualquer outra mulher, tão sujeita a sangramentos quanto as demais.

- Desculpa pelas perguntas, é que eu ando meio mal esses dias.

- Você contou, eu te entendo.

- Eu devo ter contato tudo quando eu estava bêbada né?

- Se eu te conhecesse a mais tempo eu diria que foi tudo. Como te conheço a pouco, acho que foi só o suficiente para uma noite.

- Eu pareço uma cadela insensível não? Eu lembro vagamente de ter te empurrado quando tentou me beijar.

- Você parecia que ia chorar, ficou calada e meio distante por um tempo depois de ter dito tudo aquilo. Eu só queria te abraçar e te dizer, sei lá, que estava tudo bem. Sabe, aquilo não ia mais acontecer, essas coisas.

- Mas eu lembro de ter te empurrado, não foi? Você caiu até. Eu nem tentei te levantar, devo ter rido. Aliás, eu ri não foi? As pessoas encontram algum motivo para rir no desespero.

- Caí da mesa, tive até que dizer para você ter calma, eu não ia mais tocar em você, que aquilo que aconteceu com você não ia acontecer hoje, lembra? Quando eu me levantei e vi você rindo fiquei mais tranquilo. Eu esperava ter que sair atrás de você pelas ruas, com medo de sei lá, que você tentasse fazer alguma besteira contra você mesma naquele estado.

- Mas eu corri, não lembro bem qual foi o motivo, mas eu corri de você. Lembra?

- Eu segurei a sua mão depois de ter contato um pouco sobre mim. Deve ter sido muito para você e então, bom, você se levantou e saiu andando do bar. Eu paguei a conta e fui atrás de você. Parecia desnorteada e quando percebeu que eu te seguia começou a correr.

- Eu te xinguei tanto e você só tinha feito o favor de me ouvir a noite toda. Viu como eu fui uma vaca estúpida com você? Insensível prá cacete?

- Não, olha só: não é porquê você não me deixava te tocar e te ajudar que você é isso. Não nos conhecemos a tanto tempo assim, as nossas peles ainda estão estranhas. Elas doem e podem se quebrar a qualquer momento. Você me contou algumas coisas da sua vida, eu contei outras da minha, mas ainda assim eram superficialidades, camadas sobrepostas a essas nossas peles. Seremos esquecíveis em breve, você vai ver. Não se preocupe no que eu acho de você agora, seria uma opinião baseada em uma camada, entendeu?

- Entendi, mas o que você acha de mim agora?

- Quer mesmo saber?

- Claro! Diz aí, o que você acha de mim?

- Acho que você está cansada demais por hoje e que deveria entrar logo nessa estação e voltar para casa.

- Não vai mesmo dizer né?

- Eu acho que eu também estou cansado demais por hoje e que meu ônibus é aquele que está se aproximando daquele ponto perto dos correios, e que se eu não o pegar agora, só daqui a uma hora.

- Você parece um fugitivo.

- Você também. Assim como eu, você também está fugindo da sua pele.

Levantaram-se com a ajuda um do outro e seria a primeira vez que se tocariam sem medo da dor que isso lhes causariam. Ela garantiu que tinha o número dele gravado em sua agenda e que ligaria ainda naquele dia por respostas. Ele a abraçou rapidamente e correu para o ponto antes que o ônibus, que já havia parado na rua acima, dobrasse a esquina e o esquecesse ali a mercê do frio e do sono.

Mandou-lhe beijos à distância que se perderam pelo caminho.


Conto baseado em Downtown


domingo, 1 de janeiro de 2012

Cola Pritt

Fiz um risco sobre a linha do metrô
que leva exatamente o mesmo tempo
do plano que tracei para esquecer
as palavras que eu recortei
da revista que você odeia
e que colei
na tentativa de criar um poema
que mesmo rasurado no título
fizesse algum sentido saturado.
Mas as palavras caíram uma por uma
por falta de um pouco mais de cola pritt
e muita sinceridade.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Bloco de notas.

Para Igor & Mauro.



Era a última folha do bloco de notas, já rasurada e amassada que demonstrava a agitação das mãos de Marcos sobre uma matéria em branco que, muito tinha o que se falar, mas mal sabia o que escrever. A primeira matéria longe da faculdade e do jornalzinho impresso às custas de seus pais, distribuído gratuitamente entre os seus amigos e demais alunos do curso de jornalismo da mais tradicional faculdade de São Paulo, e que para os amigos mais próximos, revelava com orgulho ter se formado com louvor e perspectivas de breve e rápida ascensão.


As pessoas daquele bairro da Zona Norte sobreviviam com louvor às adversidades da vida e não se orgulhavam nem um pouco de terem chegado onde estão. Certamente, o cadáver que Marcos acabara de ver, também não.


Sua mais aclamada matéria para o jornal Nossa Opinião (alusão muito bem sacada ,diriam os leitores, ao jornal que fez grande oposição durante os Anos de Ferro) foi a respeito da repressão do governo e das autoridades aos movimentos estudantis, que ganharam força nos anos 2000 com o advento da internet e, consequentemente, a rápida transmissão e compartilhamento da informação por todos. A política do “pão e circo” deveria acabar para que florescesse o real socialismo, mais técnico e ideológico. Até hoje, muitos dos seus colegas comentam a grandiosidade de uma matéria como aquela num jornal estudantil (que torciam, fervorosamente, para que Marcos repetisse o feito agora em um grande jornal).

O cadáver jogado no meio-fio da calçada sofria a repressão de um grupo de traficantes, que comandavam tanto as favelas daquela região quanto os bairros periféricos. Foram dois tiros no peito (um pouco abaixo da clavícula esquerda) e um no estômago (que aparentemente apresenta grandes possibilidades de também ter perfurado o fígado e o pâncreas). Era membro de uma ONG que batia de frente com os criminosos de forma pacífica, ao tentar afastar os jovens das promessas do tráfico com o auxílio dos esportes e da cultura, com respaldo pedagógico e psicológico necessário a pessoas que viviam todos os dias uma realidade insustentável. O cadáver ensinava aos jovens as técnicas para a mixagem de sons e batidas no hip-hop, promovia alguns concursos para a escolha da melhor letra ou do melhor MC. Ao seu lado, uma jovem gritava por justiça, mas não dizia o nome do cadáver, talvez pela dificuldade imposta por tamanha dor e descaso. Olhava para Marcos esperando que este tomasse qualquer iniciativa para com o corpo, mas ele só pensava em seu próprio corpo, trêmulo, e o bloco de notas amassado em uma das mãos com umas poucas anotações rasuradas. A ONG lutava para que a subprefeitura da região fechasse um convênio para a compra de computadores e a assinatura de banda larga, tendo como argumento a importância e a extrema necessidade ao acesso a todo tipo de informação para os jovens, futuros formadores de opinião. No instante em que Marcos rasurava mais um trecho de suas anotações, o projeto permanecia sob outros projetos, em algum departamento para o desenvolvimento social.


Os pais de Marcos, inicialmente, foram contrários à escolha do filho em cursar jornalismo. Onde já se viu, diziam, o filho de dois juízes escrever notinhas em jornalecos? O garoto era irredutível quanto a recuar em sua escolha, não se enquadrava naquela vidinha burguesa e buscava se libertar das amarras da sociedade consumista que lhe sufocava, mas se sentia muito aliviado quando sua mesada caía em sua conta corrente. No fundo, ele sabia: seus pais também já tiveram os mesmos objetivos mas tentaram os alcançar de outra forma, e se perderam no meio termo e das frases em rodapés. De qualquer forma, o que perderiam com um filho jornalista? O porta voz dos oprimidos e dos assinantes.



Os pais do jovem assassinado estiveram no local do crime para reconhecimento do corpo in loco. Não foram chamados pela polícia, mas souberam por um vizinho que talvez, seu filho único houvesse sido assassinado. O filho do qual eles, por 23 anos, economizaram um quarto de seus salários para aplicarem em uma poupança, para que ele pudesse, um dia, cursar uma faculdade e escapar daquela vida. O menino estava no terceiro ano de ciências contábeis e estagiava numa pequena empresa de contabilidade no centro de São Paulo. Os vizinhos comentavam que os pais sempre desejaram que o menino fosse doutor. O dinheiro economizado ainda não fora o suficiente para bancar a universidade, o que fez a mãe do garoto, que já era aposentada, voltar a realizar alguns serviços de costura para a comunidade. Fora sim uma boa escolha a do garoto, afinal. Mas agora estavam ajoelhados na calçada, a mãe segurando sua mão e o pai com sua cabeça ensanguentada no colo, ambos sem qualquer escolha. Os policiais tentaram em vão os afastarem da cena do crime, até que desistiram perante a impossibilidade de mais uma vez, afastarem os pais daquele menino. Marcos escrevia alguma coisa quando o pai, segurou sua mão, e pediu que incluísse na nota que o filho fizera muito pela comunidade e aquele era o agradecimento que recebia. É isso que dá querer mudar o mundo, dizia, não dá para mudar nem o bairro.


Marcos chegou no primeiro dia de trabalho na redação com a certeza de que impressionaria todos ali. Foi estagiário de uma revista de grande circulação nacional, e mesmo apenas tendo feito a redação de algumas matérias, trazia consigo a experiência de trabalhar sobre pressão e com precisão. Quando indagado pelos jornalistas próximos à sua baia sobre o trabalho de campo, confessava que era o que mais desejava fazer, a emoção de estar nas ruas, no momento em que tudo acontece, escrever a história e entrar para ela. Alguns de seus colegas riram, um deu um tapa em suas costas e um outro comentou que era sempre assim, nosso dia a dia, o reconhecimento de todos ao contribuírem de maneira significativa para a história. Melhor se acostumar a isso, ao reconhecimento diário e claro, as inúmeras oportunidades de mudar o mundo. São tantas que é muito difícil para um iniciante como ele, foquinha, escolher qual é a melhor para aquele momento. Marcos não sabia, mas era o que ele mais queria em sua vida.


As primeiras frases no bloco de anotações reserva (precavido, levou dentro da calça mais dois pequenos blocos de R$ 0,80) eram ilegíveis. Parte pelo nervosismo ao ver o jovem morto e parte por ter que relatar ao jornal o que aconteceu. O carro do IML chegou logo após as 16:00 horas, 2 horas após o jovem morto ter sido baleado por dois homens em uma moto. Os assassinos ainda não foram reconhecidos e ninguém anotou o número da placa do veículo. A mãe se apoia no carro para não desmaiar enquanto o pai fala com algum parente no telefone. O corpo é colocado dentro de um saco e retirado pelo carro do IML, seguido por uma viatura da polícia. A segunda viatura ainda permanece no local, acompanhando alguns peritos. Marcos foi até um bar ali próximo, sentou-se na mesa e pediu uma tubaína em garrafa e uma coxinha. Repassou cena por cena do que presenciou, além dos relatos que ele não recolheu, mas que ouviu ao seu redor. De onde estava, a visão era tragicamente privilegiada. Via a jovem que antes gritava, abraçar alguns amigos próximos. Os pais entraram na viatura e provavelmente se dirigiam a delegacia para enfrentar uma puta burocracia ao registrarem o B.O e provavelmente uma outra, ainda mais desgastante e humilhante, que seria a liberação do corpo do filho. As anotações foram além da notícia: fizeram uma história de 3 laudas, 2 tubaínas e 3 coxinhas. Paralelos entre suas vidas foram traçados e seus argumentos se afastaram da impessoalidade, transformando as anotações num relato fiel de quem talvez tenha presenciado desde o nascimento do garoto até a sua execução, uma testemunha ocular do calvário do jovem assassinado. Não daria outra, primeira página do caderno popular. Ainda não era o que ele esperava, mas já era um começo para um brilhante jornalista como ele. Já imaginava até a diagramação: meia página, uma foto no meio (ele havia tirado com uma câmera semi profissional que sempre carregava consigo em casos de emergência), talvez os dos pais ajoelhados com o corpo do filho. No caminho de volta para a redação pensaria num bom lead e em um título.


O chefe da redação chamou Marcos até a sua mesa e passou o seu primeiro trabalho jornalístico: Um cara foi morto a alguns minutos num dos bairros próximos do prédio e a pessoa responsável por esse tipo de matéria ainda não havia chegado e muito menos atendia os telefonemas.


- Vai lá e cobre o caso, e de preferência, seja breve. Não esquece do bloquinho e de uma boa caneta preta. Jornalismo é isso aí cara, tudo acontecendo ao mesmo tempo, e nunca estamos alertas o suficiente.


- Eu pensei que eu iria cobrir alguma coletiva de imprensa, você sabe, levantar alguns dados também. Sempre tive um certo talento para o jornalismo investigativo ou pro político.


- Cara, vai lá e cobre essa matéria antes que outro jornalista chegue antes de você. Vai lá levantar os dados com os moradores e a polícia, junte as peças do quebra cabeça e fica por lá até chegar outros jornais. Mas vai! Não fica pensando.

Sua matéria ocupou um box com pouco mais de 5 linhas, um pouco menor que uma das folhas do seu bloquinho de anotações.

Nenhuma das palavras utilizadas foi escrita por ele.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

Anti-história.

C. telefona histérica dentro de um ônibus (ou metrô) e suas últimas palavras eram pequenos palavrões que esperaram por anos até aqueles 2:05 de conversa numa ligação a cobrar. Do outro lado ele limpava as lentes dos óculos em sua camisa engordurada pelo balcão do bar da família (carinhosamente chamado de restaurante) e pregaria os olhos (sem as lentes) na rua que ali desembocava na porta de entrada (e era uma avenida semi estrada, como muitas coisas naquela cidade, sempre semi, nunca completas).

A sensação de vazio que ia sentido a cada adeus que C. gritava ao telefone (que ele amargamente concordava e pedia para que não desligasse, não agora, diz mais uma vez adeus porque eu não sei, mas diz mais uma vez e continua, por favor) foi preenchido pelo verdadeiro vazio das mesas onde ele, um pouco mais jovem, se imaginava sentado em cada uma com C. e lhe descreveria como imaginava aquele momento, naquele bar semi restaurante, onde ele lhe ofereceria o cardápio e ela poderia escolher qualquer coisa porque, afinal, seria por conta da casa e ele a acompanharia naquela escolha e em todas as outras que ela decidisse, mas não no adeus, que ele concordava necessário (mas pedia para que ela repetisse tantas vezes antes dos palavrões e da ligação cair, de um precipício imaginário, junto com ele.). C. imaginava o encontro em algum bar (também) onde logo após algumas doses ela se inclinaria um pouco para frente dando a entender que ele também poderia se inclinar um pouco mais para frente, e depois dos trâmites óbvios, dividiriam a conta e iriam para qualquer lugar que não fosse dele ou dela e que daquele dia em diante seria dos dois, naquela cidade que não lhes pertenciam. Mas não fora assim e nem deveria. Mas se encontraram num lugar neutro onde ele seria ele, o cara que fica atrás do balcão, e por isso, a afastaria para sempre e aos poucos.

Ele fora demasiadamente pequeno em tudo a ponto de C. não lhe caber, espaço apenas para uma cicatriz que a própria C. insiste para que ele esconda, faça alguma tatuagem ou sobreponha a outras cicatrizes, mas ele não consegue. Insiste na camisa branca engordura e em planejar sua vida sempre após o expediente do bar quase qualquer coisa, onde R. (outro R. como ele & mesmo tão jovem é tão velho e mesmo tendo tanto já não tem nada) lhe dedica "Last Night" no palco improvisado, com sua banda que, bem todos sabem, jamais saírá do perímetro urbano daquela cidade.

Namora B. que mesmo vindo antes de C. não quer dizer absolutamente nada.

sábado, 16 de julho de 2011

Sobre o tudo.

Como foi dito anteriormente, a minha novela "Movimento rápido dos olhos" saíra muito em breve, completa, com seus 10 pragmáticos capítulos. Devido a isso, não lançarei o restante da novela por aqui, como fazia em doses homeopáticas.

A série "Paulistanagens" também não será mais publicada aqui. Recentemente, recebi uma proposta para trabalhar em parceria com o ilustrador/quadrinista Raphael Andrade e iremos transformar o Paulistanagens em quadrinhos. Recebi hoje o primeiro esboço e não consigo esconder a minha ansiedade para que mais esboços povoem minha caixa de entrada e que, obviamente, deixem muito em breve de serem esboços.

Sansão vai bem, obrigada.

Até mais.

Movimento Rápido dos olhos


Para download em breve com seus 10 capítulos, finalmente.
Aguardem ou me esqueçam.