sexta-feira, 6 de maio de 2011

Excerto.

Simétricos, digo que são os dias em que se erguer das próprias cinzas já não pode ser considerado força de vontade ou persistência, mas insuficiência de provas de que nada vale a pena (e provavelmente posso estar errado também em relação a isso) e não há mais nada a se perder além dos anos, já perdidos, que se reservam ao direito se serem lembrados com amargura, num café muito forte e sem açúcar ao acordar & também se lembrar (são tantas coisas!) de que é necessário encarar o frio das 7 da manhã num ponto de ônibus, ao lado de pessoas que não se conhecem o suficiente para insistirem em conversas redundantes até que qualquer cordialidade é dissipada (não, talvez extirpada cairia melhor) quando as leis da física precisam ser postas em prova, vários corpos num mesmo espaço onde qualquer ação sempre será sujeita as piores reações possíveis e a inércia não existe a partir do momento em que o ônibus faz uma curva e 5 corpos jogam meu corpo contra a janela poluída com a vida do lado de lá. Então estou aqui reconstruindo tudo o que destruí, com os materiais mais em conta do mercado e com mão de obra desqualificada. E se um dia ela me perguntar o que é esta construção tão miserável, onde até os observadores se intimidam com tamanha humildade e falta de qualquer projeto assinado por um técnico, terei de lhe dizer (quase soluçando) de que se trata do meu caráter.









(Capítulo 8 do romancemprocessodegenerativo)

terça-feira, 26 de abril de 2011

O lapso incalculável




Durante um lapsto incalculável, a que nenhuma medida se adequaria, tudo permanece, subsiste, isolado e simultâneo, o pelo suave e suado, a mão, a confiança, o alívio, o olhar, o gosto do café, o café, a transparência cinza do ar que envolve, quase que resplendorosamente, apesar do céu baixo e negro, os corpos que latejam monótonos e o vazio que os separa, riscado pelas gotas intermitentes e oblíquas, cada vez mais numerosas, que vêm estatelar-se no chão. Quando as palmas batem, por fim, uma na outra, ecoando, o salva-vidas se vira e começa a descer na direção da praia, o Gato levanta a cabeça, olhando para o portão, o segundo gole de café cobre o primeiro na garganta de Elisa, o baio amarelo começa a sacudir a cabeça sob a pancada de chuva, e o lapso incalculável, tão vasto quanto longa é a totalidade do tempo, que teria parecido querer, à sua maneira, persistir, submerge, ao mesmo tempo, paradoxal, no passado e no futuro, e naufraga, como o resto, ou o arrasta consigo, inenarrável, no nada universal.










Trecho de Ninguém, nada, nunca, de Juan José Saer.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Antigamente as canetas não falhavam

Saudades dos papéis
e da caneta que falha
os pensamentos
e aquele verso perfeito
em azul escuro azul claro azul nada
ou do barulho do papel
ao ser amassado
rasgando o ar em frações de segundo
ao ser arremessado contra um cesto
e não o acertar.


Eu pensava que que não se faziam canetas
como antigamente
mas na verdade
o que não se fazem mais
são poetas.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pelo coração da galinha

No sábado a tarde era a mãe que apontava para o Alambrado: quero aquela ali, e o pai entrava no galinheiro, pisava na merda e nos restos de comida, encurralava a ave e ali mesmo torcia-lhe o pescoço. Ele já saía com a galinha presa pelos pés, de ponta cabeça, os pequenos olhos perdidos em meio ás que deixava, vivas ali, ciscando o destino que lhes esperavam.
A irmã mais velha avisava que a água estava fervendo e a mãe trazia o caldeirão fumegante para o quintal. Ali, a família se juntava, queimava a mão no caldo quente e depenava a galinha. A caçula sempre lembrava: "o coração é meu". A do meio retrucava: "não, ele é meu porque eu vi primeiro!". A mãe lamentava a desgraça das galinhas de possuir apenas um coração, também queria ter mais de um, ela própria e por isso não conseguia lamentar como convém. A mais velha limitava-se a arrancar as penas em silêncio antes que a água esfriasse e os pensamentos escapassem.
O pai trazia algodão embebido em álcool, colocava fogo e passava a galinha de leve na chama para acabar de tirar as penugens. Ficava no ar o cheiro de pena queimada e pele tostada, enquanto o sol caminhava a lentos passos para o meio do céu.
As galinhas sobreviventes continuavam ciscando monótonas, olhavam umas paras as outras, tentando descobrir quem iria para a panela na proxima semana, apostando com isso os últimos grãos que o saco caído, ao longe no chão, possuía. A ave de pescoço quebrado e depenada era colocada em cima do mármore frio e aberta na ponta da faca pela mãe. Conforme limpava, ela ia mostrando para as filhas, exímia cirurgiã doméstica, a anatomia da galinha. Não muito diferente da anatomia das meninas.
A manteiga estavalava na panela a espera dos temperos. A caçula preparava o suco de limão enquanto a do meio preparava o forno. A mais velha arrumava a mesa, pondo os talheres e pratos, sorrindo discretamente com a certeza de que o coração seria seu, escondido secretamente entre as pernas da ave. Um dia descobriria, com pesar, que o coração das mulheres também se refugia entre as pernas ocasionalmente.
Posta a mesa o pai puxava uma oração, seguida de uma bronca pela discussão à mesa sobre o maldito coração da galinha, que havia sumido e ninguém, nem mesmo a seqüestradora, sabia onde estaria. Após muita briga e a ameaça crescente de birra da caçula, a mãe descobre que o coração havia caído das pernas da ave sobre o fogo alto do forno. Só restava cinzas e mágoas.


Muito tempo se passou desde então. As meninas cresceram e cada uma freqüenta o restaurante que lhe convém, e os corações agora vem aos montes, em espetos. Menos a caçula, que traumatizada, virou vegetariana.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

02:24

Preso
em fotos que não foram tiradas por mim
em eternas poses
das quais jamais haverá um espaço
para esse abraço
esquecido em bancos de praças
das igrejas que nos casaríamos
depois das trocas de bilhetes de ônibus
amassados.

Você se esqueceu de mim
em alguma rodoviária
onde eu sempre perco
todos os itinerários
de volta para casa.





quarta-feira, 13 de abril de 2011

Merda é tudo que não seja a morte



"O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que escrevi minha primeira palavra feia no muro alto do colégio - exatamente essa bela palavra MERDA que agora me fita do outro lado da rua, como um desafio. MERDA é tudo que não seja a morte, que talvez também o seja, e disso sempre tiveram consciência os homens menos mentecaptos em seus momentos de maior lucidez, e que são poucos. Merda é a própria vida, mero eufemismo para uso dos salões elegantes e dos tratados diplomáticos, que também são uma merda como tudo mais, como sempre o foram e o serão até o fim dos tempos. Proponho mesmo que, em lugar dos nomes dos países, se diga simplesmente: Merda n.º 1, Merda n.º 2, e assim por diante, chamando-se aos Estados Unidos a capital de todas as merdas, como de fato eles o são."


Trecho de A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho.

domingo, 10 de abril de 2011

Paulistanagens #2


Otto Lara Rezende



"Tem isqueiro?"

"Tenho, só um instante"

"Que horas são moça?"

"8:40. Vem cá, deixo acender para você o cigarro"

"Engraçado né, os fumantes são um povo unido. A gente nega tudo, menos isqueiro e fósforo pro próximo"

"É coisa de paulista, você viaja prá outros estados e não rola isso naturalmente, isso de você pedir e eu te oferecer com um sorriso, sem ser cantada ou coisa do tipo. Eu morei um tempo no Rio Grande do Sul, eram poucos os que cediam o isqueiro sem te olhar com a cara feia, como se fumar fosse errado"

"Coisa de paulista"

"É, por isso acho que o Otto Lara Rezende disse besteira"

"Esse Otto aí disse o quê?"

"Ah, ele disse que o mineiro só é solidário no câncer. Mas é porque ele nunca pediu um isqueiro prá um paulista"