quarta-feira, 8 de junho de 2011

O poema que nunca foi escrito.

Você escreveria um poema
se ele precisasse ser escrito
mas ele te diz
ao pé do ouvido
que não gosta de você.

Então
oferece um afago
se abre a ele
diz que metade de tudo que possui
será dele
se ele for escrito.

Um tempo depois
você desiste dele
porque sabe
que não tem nada
para oferecer.




segunda-feira, 6 de junho de 2011

Paulistanagens #3

As mãos dadas não denunciavam o desconhecimento do nome uma da outra durante a contagem regressiva para 2011 e o abraço após o primeiro segundo do novo ano demonstrava um reencontro de outra vida e de outros corpos. Sorriam enquanto no palco uma escola de samba tocava brasileirinho fazendo algumas pessoas ao redor sambarem levantando seus copos plásticos com cerveja com seus corpos suados e indecifráveis, imersos no nada. Não conseguiam se comunicar até que tentaram alguns gestos e então compreenderam: Precisavam sair da Paulista.

- Quer colar lá na Augusta?
- Mas você está sozinha?
- Não, estou com você! E você?
- Eu também estou com você!

No trajeto entre desvios e empurrões se calaram. Usavam para si mesmas a desculpa da impossibilidade de qualquer comunicação com toda aquela movimentação. Tentavam descobrir como seria a outra pelas roupas e gestos. Uma usava um vestido xadrez e um cinto na cintura que combinava com a bota de couro de salto médio, muito delicada em seus movimentos esguios e no seu sorriso tão doce ao terminar de pronunciar um palavrão, que a outra chutava gostar de Bob Dylan e Beatles, literatura em geral e filmes cults. Essa tinha o cabelo curto e roxo, usava uma camisa com estampas de caveira e uma calça de couro, que fazia a outra acreditar ser punk e feminista, talvez até lésbica, grossa e ofensiva.
Conseguiram vencer a multidão até alcançar a rua Augusta sem maiores problemas, rindo sempre ao se lembrarem do que foram obrigadas a fazer para que conseguissem chegar até ali.

- Eu belisquei a bunda de um homem!
- E eu que tive que empurrar uma senhora de idade?
- Cara, eu acho que eu fiz uma criança se perder dos pais
- Sério? Eu pisei no pé de um cara manco!
- Você é pior do que eu imaginei!
- Só porque eu não sou tão feminina quanto você?
- Claro!

Encontraram um bar aberto e lotado de jovens deslocados de todos os ritmos & de toda a esperança de que aquele ano fosse um feliz ano novo, mas se sentiram finalmente confortáveis, num refúgio que poucos saberiam explicar. Ficaram de pé no balcão tomando uma cerveja e comendo algumas coxinhas das 10 da manhã. Conversaram por muito tempo (talvez horas) até descobrirem que Roberta, a de vestido, tinha acabado de chegar de Ribeirão Preto e havia se perdido dos amigos, que não atendiam seus celulares por qualquer motivo absurdo. Também não ligavam e possivelmente estavam tão felizes que não sentiriam sua falta por algum tempo. Não conhecia Bob Dylan mas era simpática aos Beatles, gostava mesmo de musica sertaneja universitária e MPB. Não conhecia São Paulo e não queria passar logo a sua primeira noite perdida e abandonada por todos, do tipo de pessoa infeliz que se encontrava pelas sarjetas. Clara, a de cabelos roxos e atitude punk, era uma ex modelo que havia desistido da carreira para cursar Física na Usp e não conseguia conceber a idéia de absurdo nisso tudo, mas achava graça mesmo assim. Era fã de Fiona Apple e Neil Young (gostava pouco de punk, o visual foi inspirado em uma modelo Russa que ela nunca mais lembraria o nome) e era paulistana da gema, morava próxima a cidade universitária e trabalhava num escritório de importações. Havia brigado com o noivo poucas horas porque ele havia saído com uma amiga (e talvez transado, na sua imaginação) antes de aparecer sozinha na paulista e fumar escondida atrás de uma banca um baseado com um pessoal que ela conhecia.

- Já são quase 4 da manhã, vai tentar ligar de novo para o seu pessoal?
- Desisti, prefiro esperar o dia amanhacer e ver se eles se tocam que eu não estou com eles. E você, vai ficar por aqui mesmo? Já tá pensando em ir embora?
- Não sei, não tenho muitos planos além de dormir e só acordar dia 2. E você, quais são os seus planos para 2011?
- Não ter planos? Já comecei 2011 sem tê-los quando resolvi te acompanhar.
- Isso é o plano B.
- O plano B seria permanecer ali tentando mandar sms para eles, ou tentar encontrar algum cara que topasse transar comigo num lugar onde eu pudesse dormir depois. Mas eu abortei todos os planos, o de ficar perdida ou de acordar sem um rim.
- Vai acordar amanhã sem estômago, isso sim.
- Talvez, e você?
- Com você.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Excerto.

Simétricos, digo que são os dias em que se erguer das próprias cinzas já não pode ser considerado força de vontade ou persistência, mas insuficiência de provas de que nada vale a pena (e provavelmente posso estar errado também em relação a isso) e não há mais nada a se perder além dos anos, já perdidos, que se reservam ao direito se serem lembrados com amargura, num café muito forte e sem açúcar ao acordar & também se lembrar (são tantas coisas!) de que é necessário encarar o frio das 7 da manhã num ponto de ônibus, ao lado de pessoas que não se conhecem o suficiente para insistirem em conversas redundantes até que qualquer cordialidade é dissipada (não, talvez extirpada cairia melhor) quando as leis da física precisam ser postas em prova, vários corpos num mesmo espaço onde qualquer ação sempre será sujeita as piores reações possíveis e a inércia não existe a partir do momento em que o ônibus faz uma curva e 5 corpos jogam meu corpo contra a janela poluída com a vida do lado de lá. Então estou aqui reconstruindo tudo o que destruí, com os materiais mais em conta do mercado e com mão de obra desqualificada. E se um dia ela me perguntar o que é esta construção tão miserável, onde até os observadores se intimidam com tamanha humildade e falta de qualquer projeto assinado por um técnico, terei de lhe dizer (quase soluçando) de que se trata do meu caráter.









(Capítulo 8 do romancemprocessodegenerativo)

terça-feira, 26 de abril de 2011

O lapso incalculável




Durante um lapsto incalculável, a que nenhuma medida se adequaria, tudo permanece, subsiste, isolado e simultâneo, o pelo suave e suado, a mão, a confiança, o alívio, o olhar, o gosto do café, o café, a transparência cinza do ar que envolve, quase que resplendorosamente, apesar do céu baixo e negro, os corpos que latejam monótonos e o vazio que os separa, riscado pelas gotas intermitentes e oblíquas, cada vez mais numerosas, que vêm estatelar-se no chão. Quando as palmas batem, por fim, uma na outra, ecoando, o salva-vidas se vira e começa a descer na direção da praia, o Gato levanta a cabeça, olhando para o portão, o segundo gole de café cobre o primeiro na garganta de Elisa, o baio amarelo começa a sacudir a cabeça sob a pancada de chuva, e o lapso incalculável, tão vasto quanto longa é a totalidade do tempo, que teria parecido querer, à sua maneira, persistir, submerge, ao mesmo tempo, paradoxal, no passado e no futuro, e naufraga, como o resto, ou o arrasta consigo, inenarrável, no nada universal.










Trecho de Ninguém, nada, nunca, de Juan José Saer.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Antigamente as canetas não falhavam

Saudades dos papéis
e da caneta que falha
os pensamentos
e aquele verso perfeito
em azul escuro azul claro azul nada
ou do barulho do papel
ao ser amassado
rasgando o ar em frações de segundo
ao ser arremessado contra um cesto
e não o acertar.


Eu pensava que que não se faziam canetas
como antigamente
mas na verdade
o que não se fazem mais
são poetas.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pelo coração da galinha

No sábado a tarde era a mãe que apontava para o Alambrado: quero aquela ali, e o pai entrava no galinheiro, pisava na merda e nos restos de comida, encurralava a ave e ali mesmo torcia-lhe o pescoço. Ele já saía com a galinha presa pelos pés, de ponta cabeça, os pequenos olhos perdidos em meio ás que deixava, vivas ali, ciscando o destino que lhes esperavam.
A irmã mais velha avisava que a água estava fervendo e a mãe trazia o caldeirão fumegante para o quintal. Ali, a família se juntava, queimava a mão no caldo quente e depenava a galinha. A caçula sempre lembrava: "o coração é meu". A do meio retrucava: "não, ele é meu porque eu vi primeiro!". A mãe lamentava a desgraça das galinhas de possuir apenas um coração, também queria ter mais de um, ela própria e por isso não conseguia lamentar como convém. A mais velha limitava-se a arrancar as penas em silêncio antes que a água esfriasse e os pensamentos escapassem.
O pai trazia algodão embebido em álcool, colocava fogo e passava a galinha de leve na chama para acabar de tirar as penugens. Ficava no ar o cheiro de pena queimada e pele tostada, enquanto o sol caminhava a lentos passos para o meio do céu.
As galinhas sobreviventes continuavam ciscando monótonas, olhavam umas paras as outras, tentando descobrir quem iria para a panela na proxima semana, apostando com isso os últimos grãos que o saco caído, ao longe no chão, possuía. A ave de pescoço quebrado e depenada era colocada em cima do mármore frio e aberta na ponta da faca pela mãe. Conforme limpava, ela ia mostrando para as filhas, exímia cirurgiã doméstica, a anatomia da galinha. Não muito diferente da anatomia das meninas.
A manteiga estavalava na panela a espera dos temperos. A caçula preparava o suco de limão enquanto a do meio preparava o forno. A mais velha arrumava a mesa, pondo os talheres e pratos, sorrindo discretamente com a certeza de que o coração seria seu, escondido secretamente entre as pernas da ave. Um dia descobriria, com pesar, que o coração das mulheres também se refugia entre as pernas ocasionalmente.
Posta a mesa o pai puxava uma oração, seguida de uma bronca pela discussão à mesa sobre o maldito coração da galinha, que havia sumido e ninguém, nem mesmo a seqüestradora, sabia onde estaria. Após muita briga e a ameaça crescente de birra da caçula, a mãe descobre que o coração havia caído das pernas da ave sobre o fogo alto do forno. Só restava cinzas e mágoas.


Muito tempo se passou desde então. As meninas cresceram e cada uma freqüenta o restaurante que lhe convém, e os corações agora vem aos montes, em espetos. Menos a caçula, que traumatizada, virou vegetariana.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

02:24

Preso
em fotos que não foram tiradas por mim
em eternas poses
das quais jamais haverá um espaço
para esse abraço
esquecido em bancos de praças
das igrejas que nos casaríamos
depois das trocas de bilhetes de ônibus
amassados.

Você se esqueceu de mim
em alguma rodoviária
onde eu sempre perco
todos os itinerários
de volta para casa.