sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Dias de nostalgia, dias de lembranças esparramadas pelo chão. Estou escolhendo as melhores para minha antologia.
Estou a horas debruçada sobre vários sorrisos, tocando com a ponta dos dedos todos os abraços e sentindo o perfume suave de todos os diálogos, digo, dos diálogos que valhem a pena serem lembrados,
os de madrugada pelo telefone, no chão do banheiro
ou sobre a cama da qual nunca compartilhamos
mas aqueles, em tons disformes, estes foram gravados em fitas k7. Não tenho como ouvi-los no momento.


O que fica, na epígrafe
ainda é você.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Pronome indefinido

Para Júlio.



Algum dia
sei que o reconhecerei em mais um sonho
em qualquer outra estação onde
tudo acontece sob o signo da mais implacável ruptura* e possamos conversar
um pouco mais sobre Cortázar
e ri muito mais
das previsões estampadas nas capas
de todos os jornais escritos
por alguém que deseja transformar a realidade em puro realismo fantástico ou numa piada da qual
ninguém consiguirá entender e conter os risos
e quem conseguiria?
Mas, só o que importa agora
e nada mais
é saber antes de acordar em qual estação será o próximo encontro
de você, pronome indefinido
comigo, sujeito indeterminado.



* Extraído do conto "Manuscrito achado num bolso" em Octaedro, Julio Cortázar

domingo, 13 de setembro de 2009

Canção de Adeus.

Setembro

não ficam nossas mãos dadas em todos os lugares, todos os nossos beijos em todos os lugares, nossos planos por todos os lugares. Só ficam um pouco das nossas mágoas caladas, seu silêncio amortecido pelas minhas frases e orações para que tudo melhorasse.
Das tantas canções no escuro, das tantas outras cantadas sob lençóis, só restam as canções de amor que não foram feitas para nós.

Ficam os sorrisos sobre a cama, os que deixamos escapar pelas ruas e os que não deixamos escapar de nós mesmos, presos a arames entre os dentes, rangidos de prazeres falsos. Ficam os esquecimentos, uma peça de roupa ali ou um cd aqui, as datas comemorativas, os favores e o amor. Ficam as lamentações das dúvidas e do tempo perdido, que sobrepõem o que construímos de mais belo e que isso, ficará sempre.

Mas desde sempre estive cansada, antes de setembro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Metaforicamente falando.



Aborto de São Paulo.

domingo, 6 de setembro de 2009

Delírio concreto.

Para Jamess


Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento
(Clarice Lispector)




Planos escondidos nos vagões da luz, no seu sorriso desajeitado que desajeitava o meu que se perdia por ali, entre as paisagens e as construções e os correios. Das muitas cartas do brás, de todos os sonhos coloridos, de todos os poemas que não eram nossos mas foram de todos. Porque os melhores não precisam ser entendidos se você já os sente apesar do frio das ruas que vão de encontro á Ipiranga com a Santa Efigênia, se você está perdido e sabe o caminho e sente que, aquela mão tão próxima a sua cabe exatamente entre os seus dedos, que aquele ombro pede a sua cabeça deitada sobre ele num vagão, que todas as promessas de daqui a dois meses serão verdade daqui a dois meses e o último abraço pode não ser e nem deve ser o último abraço.

E não importa se o Deus da praça da Sé lhe mandará para o inferno só porque você precisa de um pouco mais de alegria em meio àqueles que te olham certos de que virarão apenas uma fotografia em preto e branco já esquecida no dia seguinte e que o largo dos aflitos de fato não é largo o suficiente para caber toda a sua aflição, porque o que importa é que não foi abstrato, mesmo que delírio, foi concreto.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Blues de Asfalto

Isso? Blues de asfalto, notas caídas dos teus olhos emaranhados de segredo, dos teus beijos carregados de poeira, da tua pele percorrida de desejo. Já estive, não estou mais. No teu corpo encontro um pouco do meu, tão seu. Mas isso, isso que eu lhe digo, é blues de asfalto. Amor cometido sem pecado, maculado coração de Maria, eu digo
é blues de asfalto
que eu canto enquanto você sangra milagres que eu transformo em algo que chegue aos teus ouvidos como promessas
orações incendiadas de fé e fluídos, isqueiro. Simbolicamente Cruz e Souza & Baudelaire ás 5 da tarde em teus lábios
& seremos mais puros que o sangue, quase tão perto de Deus que vamos além dele
Miller voltando para Paris, olhos cheios de paz e o corpo desfacelado em pecado e você
dirá, é blues de asfalto, mas o tempo é um cancêr que está se comendo e não há de sobrar nada para nós, famintos de blues. De asfalto.
(de um pouco de pão, de circo. Amor?)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Meme. (Ou uma última carta)

Sei que me ama, talvez por isso e apenas por isso, lhe pedirei uma única prova deste amor. Termine comigo.

Sou um pássaro que se esbaqueia dentro do seu peito, preso por promessas que não consiguirei cumprir e que se sente mais preso ainda a essa culpa. Mas você não, você é uma aranha que tece sonhos e nesta teia nos prende. Eu estou aqui, preso também aos seus sonhos, com medo de que esses fios que seguram meus braços um dia se rompam e então você, vestida de negro e 8 patas, seja obrigada a injetar seu veneno.

Rasguei seus livros, seus poemas hoje pequenos pedaços espalhados que me fazem tanto sentido! Rasguei suas fotos e mesmo assim elas continuam com aqueles sorrisos e aquela felicidade transcendental que se, observada durante longo periodo de tempo, deixa nos lábios o sorriso mais débil e nostálgico existente. Mas não consigo rasgá-la, entende? Meus dedos não te alcançam para isso, tentei jogar sobre você ácido para ver se derretia e escorria pelo ralo, com uma tesoura fui recortando seus contornos, sem falar do fogo. Incêndio frio e silêncioso, com o crepitar das minhas lágrimas. Tudo, mas tudo tão inútil.

Preciso de liberdade, alçar vôos mais altos do que os seus olhos cinzas frias. Não posso lhe dizer que tudo terminará bem, que serei este que escreveu e ainda escreve em versos dos quais não me preenchem, não cabem em minhas estrofes. Não tenho as cores das tuas aquarelas, nem tenho as notas das suas músicas, não as sou. Eu sou este apenas, que te implora que o deixe, porque não consegue dizer adeus, porque as palavras não conseguem encontrar em seus lábios algum significado sonoro. Espero e lhe perdoo se for uma vaca e não me diga nada mais do que um adeus dentro de uma caixa com todas as minhas coisas, que são suas, que são nossas e que não serão de mais ninguém se devolvidas.

Porque eu não posso ser. Eu jamais serei.
Este que você espera sonhadora, que lhe faça feliz.


Sempre seu, irremediavelmente.


Recebi este meme (não sei o que significa a palavra meme, ignorante eu né?) inspirado na exposição da astista francesa Sophie Calle, Cuide de Você, que convidou 107 mulheres para interpretarem uma carta de seu ex namorado. No caso, eu deveria escrever uma carta rompendo com alguém.
Então, pelas regras, eu devo enviar este meme a 5 pessoas, que vão escrever uma carta de rompimento e todas essas coisas. Enfim, as pessoas são estas:

Ferdi, Jamess, Leandro, Lubi e Adriana.



Obs: Os comentários estão fechados neste post galere.