domingo, 29 de novembro de 2009

O dono dos finais.

Pego as coisas pelo meio, puxo um começo mas acabo sempre é no fim. Por ser avesso a começos, acabei me tornando especialista em finais, os melhores possíveis, é só escolher. Prometo sempre que jamais farei chorar, caso não queria isso, mas caso seja uma romântica absurdamente desenfreiada, não garanto que possa ser o cara que vá segurar no teu volante e pisar no freio. Geralmente eu sou o cara que gosta de te ver perdendo o controle sob sua vida, aquele mesmo filho da puta que vai fingir que você nunca existiu em seu passado e que não vai te mandar flores, a não ser que você esteja morta e me dê motivos para isso. Desculpe-me, mas minha sensibilidade fica apenas entre minhas pernas, ás vezes, ela também se esconde atrás do meu pescoço, depende de como você quer que seja. Minhas lágrimas, só no final do ano, se meu time perde o campeonato que estava quase ali, em suas mãos. Ou se você se irritar e me der um belo chute no saco.
Mas se você for igualmente cretina, quer dizer, se você for daquelas que não se importam com declarações de amor porque, o amor está morto a muito tempo e a melhor maneira de festejar sua morte é dando para todos sem a menor modéstia, sem a menor esperança de encontrar aquele príncipe encantado, aquele cara que a sua mãe vive rezando para que apareça na sua vida, então por favor, me procure. Tenho o melhor final para esse tipo de relação. A gente começa pelo meio, da parte onde já nos conhecemos a muito tempo, e por já nos conhecermos, já nos tornamos íntimos suficientes para uma cama e todas as posições para todos os jogos. Depois, por algum motivo que não saberemos nunca, você vai saber que eu não sou o seu príncipe encantado e nem você é a futura mãe dos meus filhos, usei camisinha e você rasgou o útero. Mas sorriremos, trocaremos telefones, talvez eu lhe faça aquela promessa, te ligo amanhã, você vai sorrir e responderá, ligue mesmo e a gente marca alguma coisa prá sexta feira. Mas o nosso final sempre foi esse, não vou te ligar e você não vai ficar esperando pelo telefonema, porque vai estar com outro cara fazendo o joguinho de mulher que AINDA espera pelo príncipe encantado, e olha só, pode ser você, cara de sorte.
Não procuro finais melhores do que este, sabe, eu gosto de ser o dono dos meus finais. Talvez nem Deus se meta nos meus finais, ele não é louco. Ou me esqueceu, também esqueci ele, estamos igualmente quites.
Se me derem licença, a cama me chama. Um cigarro aceso, os lençoís fora do lugar. Mas sou cavalheiro, não direi jamais quem fez isso.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ressaca urbana.

Despertou com um forte arrepio pelo corpo, como se inúmeros insetos percorressem demoradamente a sua pele, mas achou que fosse somente o típico frio de uma manhã de segunda feira. Tentou se levantar, mas era como se sua cama fosse um grande imã que a atraía de tal forma que, qualquer esforço seria meramente em vão. Lutou para que uma das pernas pudessem ficar para fora da cama, enquanto a outra lentamente se desgrudava dos lençóis. Após uma verdadeira batalha dantesca, conseguiu enfim apoiar os dois pés no chão e se arrastar até o banheiro para tomar banho, mas no meio do caminho, entre a sala e a cozinha, pôs para fora todo o resultado de um domingo entre quase amigos e desconhecidos agradáveis. Resmungou entre um pano sujo e um rodo jamais utilizado que aquela segunda feira seria uma merda.

- Mas que ressaca da porra!

Vestiu-se numa velocidade quase maior do que a com que o relógio marcava o seu atraso. Sua pontualidade ainda era britânica, seu chefe é que não se acostumara ainda com o fuso horário. Pegou as chaves e a bolsa, bateu todas as portas ás suas costas. Esqueceu sobre a cama a carteira e toda a sua maquiagem. Acabou deixando a si mesma sobre a cama, sem perceber.

Correu pelas ruas acumulando sobre si a poeira do cotidiano daquela cidade que parecia engolir a todos, um grande triturador de sonhos e pensamentos. Um liquidificador de sentimentos e planos sobre as suas imensas avenidas retas e sujas de asfalto. Precisava chegar a tempo em seu emprego, não era a primeira vez que corria contra o tempo mas era a primeira vez que sentia que seria inútil, que talvez não conseguisse chegar lá, sensação tão certa quanto o estômago revirado e a cabeça dolorida. Como se os seus próprios pensamentos fossem os causadores daquilo.
Não adiantaria pegar um ônibus, mesmo que quisesse, a cidade estava emaranhada em um trânsito caótico e infernal. O que lhe restava era correr até chegar a uma estação de metrô e ter a sorte de não precisar enfrentar fila alguma. Seus sapatos novos pareciam desgastados demais, sua roupa branca parecia refletir o asfalto, num tom de cinza muito parecido com os seus olhos da cor do céu que anunciava algum fim, talvez do dia. Lembrou-se que estava sem maquiagem, o rosto limpo de qualquer mentira, era ela, uma mulher atrasada para tudo. Principalmente para si mesma. Olhou novamente para o relógio, amaldiçoou mais uma vez a ressaca, o trânsito, o sinal que não abria nunca. Talvez tivesse sorte se corresse.

E correndo não percebeu que o trânsito então, como um laço mal feito, se desatou de repente, e ela, um mísero ponto tão cinza quanto a rua, cinza como seus olhos que anunciavam algum fim, estava no meio de todo o movimento das rodas, dentro do coração selvagem de pedra que pulsava. Viu apenas como um borrão vermelho, algo a se aproximar tão rapidamente de si que a atravessara. Apenas sentiu o seu corpo estar tão leve que poderia voar sobre todos aqueles carros e cair delicadamente sobre o asfalto quente e seco. Ouviu ao longe pessoas gritando, buzinas enlouquecidas e passos quebrando mais ainda o seu corpo. Não sabia o que estava acontecendo exatamente, mas sabia que chegaria muito atrasada e que certamente seu chefe lhe daria um aviso prévio, então, esse era o fim. Não conseguia abrir os olhos para se certificar se estava próxima ao prédio do seu trabalho, o sol queimava seus cílios e algo a impedia de abri-los. Ouviu quase que surdamente algumas sirenes e, quando finalmente conseguiu, com esforço igual ao que teve ao se levantar, abrir um dos olhos, viu ao seu redor várias pessoas e algumas câmeras.
Estava atrasada, estava suja, estava esticada dilascerada numa avenida, estava sem maquiagem e ainda por cima queriam fotografá-la. Amaldiçoou a todos, mas principalmente a ela mesma, por ter esquecido o seu estojo de maquiagem sobre a cama.
Não queria aparecer assim, na capa de qualquer jornal, como se estivesse morta. Só estava com ressaca, só isso.

-Mas que ressaca da porra! - disse, antes do seu dia terminar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

She took a long cold look

Ficou sorrindo como se um elefante pudesse se dissolver em seus lábios enquanto eu apenas continuava a bater uma como se fosse o pai dela. Eu lembro dela perguntando a todo momento se estávamos doidões, eu adoraria, dizia, que tívessemos mesmo um motivo para isso, mas você nunca trás nada além do seu madcap laughs debaixo das pernas, quer dizer, acho que podemos ficar bem doidões só com isso e alguns hi-fis, o que acha?
Ela era fraca para bebidas, careta demais para drogas, mas fingia overdoses ouvindo Syd Barret para me agradar, não sei, queria matar minhas saudades da época em que eu ficava chapado só de me lembrar de woodstock. Geração saúde, menina, sou o garotão de 50 anos que abandonou o pozinho e a picadinha para encher a cara de jack daniels sem gelo enquanto me masturbo ouvindo meus lp's raros, prá jogar na cara dos jovens que nem você que o som deles é melhor, qualidade saca?
Lembro que lhe pedia que não fechasse os olhos, não importa se você vai gozar em instantes, continua com a porra dos olhos bem abertos, eu pedia, the beauty of love's in her eyes,
She was long gone long, long gone
eu te amo, ouvi bem perto do meu ouvido, procurei seus cabelos por toda a cama, apalpei entre minhas pernas e mesmo assim não encontrava seus cabelos para um carinho, eu queria ir abrindo eles, na verdade, deixando que eles se escondessem entre meus dedos até que sua orelha aparecesse, eu a morderia na pontinha para que você estremecesse e aí sim, encostaria a minha voz em sua imaginação e diria o quanto eu te amo minha garota. Mas você estava estendida no chão rindo, rainha de copas a espera de Alice.
Eu tinha o sorriso do gato de Alice, talvez lhe faltasse mais coração para ser a rainha.
-Syd poderia ser o chapeleiro maluco?

-Tá louca? Ele sabe dos caminhos, eles nos trouxe aqui. Ele é o coelho branco, a porra do coelho mais branco que existe.
- Ele brilha em nós.

-E você está louca.

Ela sabia que eu odiava esse papinho romantizado em falsete, eu tava velho demais prá loucuras assim e ainda mais sem porra nenhuma. Mas naquela incessante gargalhada ela só me pediu, entre um gole de ar e outro, que a chupasse.
-E por favor, seja romântico.

E fui, faixa 3, volume baixinho.

Honey love you, honey little,
honey funny sunny morning
love you more funny love in the skyline baby
ice-cream 'scuse me,
I've seen you looking good the other evening

(cantei bem perto daqueles lábios enfurecidos de juventude. Não me importei se a porra dos olhos dela estavam abertos enquanto gozou)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Antologia de uma escritora fracassada

De Francisco Jamess, com minha co autoria involuntária de um leito hospitalar


“To com 40 de
febre. Se morrer
fica com os
meus livros e
prepara uma
antologia de
tudo o que eu
escrevi?

Remetente:
Katrina

Enviada:
19/11/2009
07:32:20 pm”

“Claro, pode
deixar comigo.
Eu cuido de tudo.
Mas sua
antologia vai ser
muito maior,
meu. E os textos
de quando voce
for uma velha
brava com
problema de
pulmao serao
imortais.

Enviada a:
Katrina

Data e hora:
19/11/2009
07:37:36 pm”

eu acho mesmo que ela ainda escreverá
algo vivo, de vida mais longa
que os 60, talvez 70 anos
que o cigarro a deixará viver.

há uma senhora de 75 anos
que vive cachimbando na calçada
de frente pra minha casa

ela provavelmente morrerá
de velhice.


(Pena Jamess, que eu ainda não escrevi um poema para a antologia)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Aviso a New Orleans

Co autoria de Leandro (não menos do que minha metade)


Verbalizo os seus encantos e os seus desejos de afrodite. Deixo solto o compasso. Você alcança as nuvens em seu samba enredo, ficamos afoitos no chão te aguardando. Não temos o seu tempo, o tempo de um suspiro, estamos atrás enquanto você passa. Eles comem os sonhos de padaria e nós lambemos os dedos sujos de sangue.
Sangue do nosso ventre

[dos nossos dedos rasgados de imperfeições & fracassos contínuos mas que usamos nesse nosso sexo selvagem solitário com as palavras
Pegamos amores emprestados e lhes damos corpo e alma mas só até o próximo ponto final
onde senhores de nossas míseras verdades mais do que falsas
lhe damos um tiro a queima roupas com um sorriso de satisfação
e ressussitamos
num proximo poema
talvez?.]

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Louca.


(Jamess me vê através de traços de giz)

quando você declama poesias em cima de
uma cadeira de bar
e recebe aplausos tímidos
e um bêbado beija sua mão em reverência

quando você tenta ligar para a Duda Rabuda
num orelhão em frente ao prédio do INSS
e constata que ela só pode estar dando
pois não atende o telefone
e você vê um mendigo sobre o viaduto
contemplando os carros da avenida à noite
o olha nos olhos
e ele te estende uma garrafa de aguardente
depois de um "oi" gutural

e você nota um grupo de pessoas vestindo panos longos
um manco, um velho e algumas mulheres
vestindo panos e cordas
e uma criança entre eles
menina ágil e curiosa sobre estas duas pessoas do mundo
que corre a ver a foto digital que você tirou
do grupo
depois de um pedido anormalmente espontâneo
de sua parte
e você aprende um sinal de paz
dessa religião esquecida
e lhes agradece com sorrisos
e zomba de um crente na praça da Sé
que te responde furioso
"hoje você zomba, amanhã você desce!"

e você se senta na escadaria da igreja
e fotografa lixeiros
velhos
e um indigente solitário
e tira poesia de uma vendedora de amendoins no trem
e depois disso me diz
"tenho medo de você
você é louco..."
eu me rio satisfeito
pois com este espírito
talvez um dia você me alcance
e jogue fora sua TV

ou quiçá você a continue assistindo
e isso te torne mais louca
que eu.

(Francisco Jamess, que além de ser um dos melhores poetas com quem tive a oportunidade de dividir cervejas, risadas e desabafos em escadarias da Sé, por pura obra do destino, é meu melhor amigo também)

domingo, 15 de novembro de 2009

Revolta cubista.

(Tete Domo - Picasso)


Inimigos da saudade
Inimigos das lágrimas
Inimigos de tudo o que eu amo ainda
(Apollinaire)




Você me pintou de uma maneira tão real que agora ao me ver em suas tintas percebo os borrões em que me tornei, a imagem dos teus dedos não é a mesma do meu espelho, no vai e vem de decompor e recompor a realidade, que escorre pelos ralos como meus pedaços fragmentados por suas lâminas, palavras. Cores vivas que morrem em cada suspiro.
Desconfio amargamente de que estaremos cada qual em sua Babel, no alto da torre gritando coisas das quais nunca conseguiremos entender ou coisas das quais preferimos não entender, no final serão sempre algumas pinceladas violentas numa tela que sangra sem entender.
O teu sorriso quebrado & espalhado pelos cantos da minha tela
fascina.