
Quem acha que o melhor de Cuba são seus charutos e seu rum, está completamente enganado. O melhor de Cuba atende pelo nome de Pedro Juan Gutierréz, um senhor já sem cabelos, todo tatuado, viciado em rum, charutos e sexo. Ah, e antes que eu me esqueça, um dos maiores nomes da literatura latina.
Gutierrez escreve, sim, livros com altas doses – e muitas páginas – de sexo. Mas sua obra vai além. Revela a realidade escondida sob o véu da prosperidade socialista de Cuba, há muito tempo desmascarada com as denúncias de corrupção e miséria espalhada pelas ruas de Havana e a apenas 150 km do País das Maravilhas, vulgo, EUA. Mas não se define como um crítico e afirma que não tenta denunciar nada em seus livros. Só é verdadeiro, nada mais do que isso.
As contradições de Cuba são inúmeras, o país tem um alto nível de adultos alfabetizados mas seu sistema de ensino é falido, tem industrias estatais mas ainda seu PIB provém da agricultura e exportação de charutos e rum, a população venera Fidel mas odeia o regime socialista. É a partir disso que Gutierrez cria suas histórias imaginárias sobre a mais crua e perversa realidade além das suas janelas. Gutiérrez passa bem longe da cartilha dos companheiros socialistas, a desgraça que ele expõe no que escreve, de certa forma poderia acontecer em boa parte do mundo capitalista e não ter como cenário a esplendorosa Havana.
A verdade é que não é fácil ler Gutierrez. Não que seus livros sejam complexos, pelo contrário, são de uma simplicidade encantadora, mas o que os tornam difíceis é a maneira pela qual ele submete seus leitores. Ele tenta provocar as mais terríveis aversões, para que no final, o leitor acabe se rendendo e pedindo por mais e mais. Outra coisa a se falar, é o seu lirismo. Além de escritor/contista/cronista/jornalista/pintor, Pedro também é poeta, e a todo momento, introduz sua poesia entre as pernas de sua prosa, até que ocorra o mais sublime orgasmo.
Seguinte, resumidamente: Pedro mata a cobra e mostra o pau, com exibicionismo. Cutuca as onças com varas curtas (ou longas, como preferirem) e as hipnotiza (com a vara, se preferirem). Suas putas são as mais fiéis mulheres, as respeitadas mulheres da alta sociedade desejam ser putas, seus charutos causam alucinações, seu rum se torna seu melhor amigo, a política é um cancêr e o sexo é algo totalmente secundário, mas ainda sim, a melhor forma de escape para tudo. Apesar de ser extremamente comparado a Bukowski, do qual ele afirma que só começou a ler depois de ter escrito sua obra prima "Trilogia suja de Havana", ele consegue ser superior a Chinaski em veracidade (mesmo que transforme o homem aranha num heroí preguiçoso e viciado em sexo selvagem, comendo qualquer mulher que passe em sua frente)
Trechos a seguir (roubados) da revista da cultura, em 08/08
Em O Rei de Havana, por exemplo, há cenas de sexo a cada quatro páginas, mas a angústia do protagonista vem de sua condição social, não de sua luxúria. A sexualidade é um componente importante em seu trabalho, mas você não pensa que as análises que colocam o sexo como ponto central de sua obra sejam reducionistas? É exatamente isso. Essa novela é um estudo sobre a miséria, a pobreza extrema e o círculo vicioso a que estamos presos. O sexo é secundário. É tudo o que o personagem principal tem para ele mesmo, é uma forma de exercer algum poder – e ele o faz de modo inconsciente. Não sei bem. Foi uma novela que escrevi de uma maneira estranha, sem pensar. E agora não posso explicar.
Você diz que não escreve sobre política. Mas é impossível não pensar em uma micropolítica do cotidiano quando se lê O Rei de Havana, ou O insaciável homem aranha. Nesse último, a história dos acrobatas que são interrompidos pela polícia é uma metáfora interessante sobre a intervenção do socialismo no âmbito privado, não? Cada um lê o que quer em um livro e faz sua própria leitura! Os antropólogos encontram antropologia em meus livros. Os jornalistas, crônicas da vida cotidiana. Os obsessivos sexuais, luxúria. Os políticos encontram política. Eu vejo histórias interessantes de gente em situação-limite.
E da literatura internacional, quem seriam seus eleitos? Para mim, Franz Kafka e Julio Cortázar são os dois maiores escritores do mundo. Além deles, comparo minha condição de escritor censurado em meu país com a de Fiódor Dostoiévski de
Crime e Castigo. Ele escreveu esse romance sob a dominação do czar e vivendo no subúrbio de Moscou. Mesmo assim, em vez de fazer um panfleto político, criou uma novela policial, como eu, que em vez de fazer os personagens sofrerem, os boto para trepar".
Por essas e outras, só me resta bater palmas ao Pedrito (e bateria outras coisas também, porque não sou boba, haha)
Post dedicado a outra amante desse cubano,
Dona Adriana Gehlen