quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Body & Soul.

Publicado Originalmente em 23/04/08


- Leve o Coltrane
- Como assim?
- Leve-o, já disse.
- Mas você sempre disse que amava Coltrane.
- Menti, nunca fui muito chegado em blues
- Jazz.
- O quê?
- Jazz, Coltrane é jazz, não blues.
- Ah, prá mim é a mesma coisa.
- É bem diferente.
- Ah?
- Jazz de blues, bem diferente. Você realmente mentiu. Não era de se esperar.
- AH, desculpe-me senhora eu-nunca-me-enganei-antes. Sinceramente, não me importo muito em ser taxado de mentiroso por você, pelo menos, não agora.
- Tudo bem, exagerei um pouco mesmo. Mas porque afinal, você mentiu naquele nosso encontro? O segundo.
- Sobre o quê?
- Sobre gostar de Jazz, essas coisas. Lembra que você me perguntou antes do nosso primeiro beijo, se eu gostava de jazz? Eu disse que amava, aí você tirou da sacola esse álbum do Coltrane, me convidando para ouvir junto de você.
- Queria ser diferente, te impressionar antes de te levar para a cama.
- É, e conseguiu. Ouvindo você falar assim, até me sinto mal comigo mesma. Idiota, seria a palavra mais exata. Mas de onde você tirou aquele álbum? Você falou de Coltrane com tanta veracidade que realmente acreditei que gostasse mesmo dele.
- É, eu andava meio ansioso com esse nosso encontro, digo, o segundo encontro, o tal encontro. Peguei e ouvi antes o album sozinho. Foi então que eu fui atingido por todas aquelas notas, sabe, parecia que alguma coisa dentro de mim havia mudado, dentro demais de mim. Você veio a minha cabeça junto com aquelas canções e você já não era mais a garota com quem eu passaria uma noite. Era a mulher com quem eu passaria a minha vida.
- Nossa...mas, porque mentiu?
- Menti o quê?
- Sobre jazz e blues, disse que não sabia a diferença
- Eu disse que não me importava, eu não preciso saber o que é jazz e blues para gostar de Coltrane.
- Mas então, porque quer se desfazer dele?
- Eu não posso ficar com ele, não posso.
- Mas...
- Não entendeu ainda? Amo tanto Coltrane quanto amo você.
- Ah...
- Cada vez que fazíamos amor, mais ouvia Coltrane, mais ele fazia sentido. Vocês acabaram se tornando algo único, saca? Estavam mesclados de uma maneira impossível de serem separados. Você era tão suave e delirante quanto alguns solos dele. Eu me perdia em seu corpo com medo de me encontrar, sabe, aquele mesmo medo que a gente sente de que Blue Train acabe antes dos seus olhos alcançarem algo azul no final de uma estrada desértica. Eu encontrava todas as notas ali, escondidas em teu corpo, um convite para que meus lábios pudessem tocá-las. Não sei explicar isso ao certo, mas certo mesmo, é que não posso ficar com Coltrane. Seriam músicas estranhas, só músicas. Mais um cara tocando saxofone.
- Eu não imaginava isso.
- Nem eu
- Tudo bem, eu fico com o Coltrane
- Ouça-o por mim.
- Ouvirei sim.
- Adeus
- Adeus


Ela coloca o Coltrane debaixo dos braços e ganha as ruas. Vira a esquina próxima e joga-o no lixo.
Não suportaria encará-lo como mais um cara tocando um saxofone.
Músicas, só músicas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Longa metragem.

Ótimo, parabéns, agora você pode lamentar não ter filmado porra nenhuma que chegue aos rastros daqueles filminhos franceses, dias de Godard na imaginação e de Truffaut na cabeça, sem aspirinas suficientes prá aliviar as malditas dores de cabeça e tantas dividas acumuladas pelos sonhos em rolos e rolos de películas já mofadas, sem público, sem a magia da tecnologia e todo aquele blá blá só para vender suas histórias mirabolantes de mocinhas viciadas que largam tudo por mocinhos do faroeste cangaceiro que se infiltram na política e saem de lá senadores da Gestapo. Ah sim, um prêmio um dia, nem me lembro pelo o quê, cinema underground de baixa renda, festival de grande prestígio no Acre, mas deve estar ali dentro de umas das caixas destinadas ao lixo junto com os roteiros dos melhores filmes ainda não produzidos pelo homem, pobrezinho. Que os catadores se animem com os roteiros e reescrevam seus próprios roteiros, melhores e mais ricos de verdade, porque claro, hoje em dia o cinema anda tão..verdadeiro! Papo de diretor frustrado, não liguem. Só porque não fez um ótimo filme de comédia onde todo mundo se come no final e toda a família pode ir no cinema, pagando obviamente, ver e aplaudir de pé, fica agora reclamando de tudo como se fosse o último grande diretor sobrevivente, grande porcaria, nunca foi.

Vamos por partes, você não consegue mais escrever e dirigir qualquer coisa, muito menos sua vida. A partir desse pensamento, muitos filmes poderiam ser feitos, aquela coisa toda de introspecção que no final sempre se encontra a tal luz no fim do túnel ou o cara enlouquece de vez, sem romances por favor, sua vida também não tem, não complique se apaixonando sempre por quem não deve ou fazendo que essa mesma te mate aos poucos dentro dela, se concentre na porra do trabalho, pense no melhor que pode fazer, sem querer Gilda, esqueça dela. Mas cara, então você escreve uma coisinha aqui, uma ceninha de merda ali e pronto, o filme já pode ser rodado e consumido. Só se você quiser continuar se sentido um frustrado.
Frustração é sempre melhor com dinheiro no bolso não?
Não.

Idéia fantástica I!

Roubar cartas, responde-las e envia-las. Reescrever a história das pessoas, melhor, roteiriza-las! Claro, se as pessoas se correspondessem hoje em dia, bando de anti-sociais grudados no computador. No máximo conseguiria roubar muitas dívidas a serem pagas, isso não faz filme, faz a vida. Idiota.

Idéia fantástica II !

Virar Hacker, invadir e-mails, respondê-los e reenviá-los. Roteirizar tudo depois, o que acha? Chamar uns atores de ínicio de carreira que topem algo totalmente inovador, tipo sair nus pelas ruas de São Paulo com câmeras imbutidas na cabeça a passos largos de dinossauros em tempos pré históricos com todo o aparato tecnológico, savana de fios espalhados.

Incluir os e-mails mais interessantes, com assuntos construtivos. Que façam pensar. Tipo o da garota que é mãe solteira e está dando em cima de um cara casado com familia constituída. Inveja é um bom tempero. Tem o do cara solitário que se inscreveu em muitas agências de relacionamentos mas até agora nunca conseguiu um encontro, ótimo, caras perdedores são clichês, mas dão certo no final. Não esquecer da prostituta que recebe por email o seu valor anual de constribuíção a sua igreja, vende o corpo para salvar a alma, nada mal.

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Conto comunitário- Caros leitores deste humilde e tosco blog: Quero dividir com vocês o final deste conto, por isso, peço que me ajudem com suas ideias, seja lá qual elas forem. No fundo, não sou eu bem que peço isso, mas meu personagem (NÃO TO FICANDO ESQUIZOFRÊNICA OK?). Enfim, sou péssima para explicações e vocês já devem ter entendido o que eu quero dizer, ele precisa de idéias para um filme e essas coisas.
É com vocês, beijos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

33 rpm.

Para Fernando, que me abrigou numa tarde perdida



Então, poderia começar assim:

Você perdido entre a vastidão das suas lembranças e a confusão dos seus dias passados, de um ontem amargo com gosto de vodka vomitada num vaso sanitário, às escondidas da sua famila que perpetuamente acredita que você é uma boa pessoa e vai ter um brilhante futuro além das inúmeras linhas que você escreve e sonha, quiçá, ver em páginas reais e palpáveis, mas obvimente é algo tão distante quanto o lugar onde você se encontra agora do lugar onde realmente é o seu lar
e que você nunca pisou, nunca visitou mas sabe, com aquela indefinível e maldita certeza que somente as pessoas que já perderam muito na vida sabem, que é o seu lar
bom, mas você não saberia explicar onde ele está, nem como seria, mas certemente é o lugar onde você repousaria o seu corpo de todo o peso que o mundo insiste por sobre seus ombros, curvados.
Em um dado momento, entre inúmeras possiblidades de fuga, você decide fugir de todos os lugares e principalmente fugir de si próprio, a imagem de um buraco negro que engole tudo, principalmente a luz de um sorriso ás 5 horas da tarde em plena Rua Augusta, aquele olhar grudado no seu ás 6 horas da manhã, o jogo de luzes naquela avenida que nem sabe o nome, mas ri divagando sobre a mistura do branco e vermelho dos carros em uma artéria aberta e entupida, prestes a entrar em colapso, ataque cardíaco quando vê a pessoa desejada, derrame cerebral deixando o débil perante aquele corpo que se dirige até você, e você-buraco negro vai triturando tudo e esquecendo tudo isso, e então
você se vê sozinho e perdido, espaço em branco a ser escrito novamente. Rasgado e amassado.
Preso à 33 rotações envelhecidas como os seus sonhos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Outros, pero no mucho.

O que vai ficando é distância,
estilos, afetuosas vacuidades,
e cada vez mais um pouco menos,
miséria porém em que se fica bem à vontade.
(Julio Cortázar)





Não falarei mais do que me permite esse silêncio feito de todas as horas desvividas por nós. É que parece tanto que somos os mesmos mas somos também outros. Mas um outro será ainda o mesmo, só que um pouco mais cansado do peso que carrega no olhar, distante a olhar para qualquer outra direção que pode ser a perna de uma cadeira ou os dedos envolvendo um cigarro quase apagado. Talvez um pouco mais velhos, bem mais conformados talvez. Os sonhos podem ter ganhado um pouco de poeira e os sorrisos podem ter saído tortos e caído no chão. Mas as ruas continuam as mesmas, os bancos um dia ocupados também, assim como as pessoas ao nosso redor, assim como as bebidas no seu balcão e nas mesas em que eu sento. Tudo carrega um pouco de nós, que nos desfazemos em cada lugar em que estivemos e fomos felizes. Não o resto dos nossos dias, mas a marca deles.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Giz.

Pensava com os olhos presos ao fundo do copo, o uísque quase no final, gelo derretido, lágrimas salgadas adoçando os lábios e manchando o balcão. Depois de um ano, ainda era possível sentir as mãos dele procurando algum lugar no corpo dela. Sentia-se patética ali, chorando por alguém que provavelmente naquele horário estaria numa cama confortavelmente trepando com outra mulher enquanto o casal protagonista da novela trocam aquelas juras de amor mais do que eternas. Mas ninguém sabe o que acontece depois do final feliz. Precisava de um ínicio e inícios dependiam de um fim. O dela era estar ali, comemorando um ano, olhando para o dedo com a marca imaginária de uma aliança, que apertava e doía nesses dias em que ela se deparava com a solidão de uma cama vazia.

O dedo girava dentro do copo vazio, brincando com o único cubo de gelo que sobrara quando ele se sentou ao seu lado, perfume de homem recém lavado e puro de qualquer pecado, fingindo muito bem que não notara as suas pernas bem torneadas de mulher feita que sabia usá-las com crueldade numa cama. Sorriram, os dentes dela, amarelo de anos que fazia questão de jamais ocultá-los, muitos tratamentos para que branqueassem mas no final, ela era fraca demais para o café que ele lhe trazia na sua cama e deixava o dia todo na garrafa térmica, a maneira dela de sempre estar com o gosto dele em sua boca salivando por um cigarro, acompanhante ideal; os dentes dele, de rapaz que usou por muito tempo aparelho e agora quer sorrir para todas as mulheres sem medo de denunciar a idade, que não era assim tão pouca, seus quase 24 anos, na lata. Assim, em como todos os bares onde uma mulher atraente e sozinha bebe uísque nacional ao lado de um rapaz jovial com muitos planos na cabeça mas nenhuma companhia, a história havia de seguir o roteiro original de conversas e desabafos do tipo"Hoje faz 1 ano da minha separação, foi muito fácil entende? Só precisamos assinar alguns papéis e éramos novamente livres para transar com qualquer outra pessoa. Não sinto falta dele, sabe, eu não lembro nem porque a gente se casou. Somos bons amigos, parceiros de truco ás vezes" " Não penso em me casar, sei lá, isso de ficar preso por pápeis, acorrentado pelo pé por uma aliança. Nem tenho idade prá isso, tenho? Quero só curtir a vida, conhecer mulheres como você" "Tá afim de ir lá em casa? Tem bebida e é de graça. E tem a minha companhia, a gente podia conversar mais sobre isso."

Mas não conversaram. Os dedos dele já foram procurando os botões da camisa dela e tão de repente, seus lábios mordiscavam os seios fartos dela, que controlavam seus dedos para não invadirem a calça dele, as unhas quase quebradas sobre o zíper semi aberto. Tentou beijá-la, mas não permitiu que ele a invadisse dessa maneira, tinha seu corpo a disposição de suaves e bruscas invasões, mas que não tocassem nos lábios que outrora foram de outro. Queria ainda ter o sabor de café da manhã, mesmo que muito tênue, em seus lábios. Única lembrança que lhe restara, as fotos foram picadas e queimadas numa típica atitude de mulher de meia idade infantil. Que ele se satisfazesse com os outros lábios.

Sorriram novamente. O dele um sorriso de agradecimento, o dela, satisfação.
Correu até a cozinha e brindou solitária por um ano. A geladeira refletia algo do seu corpo todo vermelho e suado. Sentiu-se orgulhosa, cada marquinha um troféu de consolação. E porque não, ligar e desejar que ele tivesse uma comemoração igualmente satisfatória?

Mas já passara da meia noite, não havia muito o que comemorar além de um garotão estendido na sua cama, gabando-se pelo feito de 5 vezes numa noite só. Expulsou-o da cama, com a promessa de que sua casa estaria sempre de portas abertas e sua cama sempre vazia. Mais um sorriso, desajeitado o dele, que nem sabia o nome dela, falso o dela, tudo mentira o que falara, queria ficar sozinha e dormir. Esquecer que gritou aquele nome, o dos convites de um casamento desfeito a um ano e que ninguém mais se lembrava que um dia existiu, só ela, com aquele orgulho ferido e fatiado, de noivinha largada ao pé do altar. Mulher esquecida e tragada nos lençóis doados ao exército da Salvação. Prometeu, como promete todos os anos que iria começar uma dieta e largar os cigarros na próxima semana, que amanhã esqueceria tudo o que se passara e começaria novamente, qualquer coisa que fosse. Já escrevera um final, não muito feliz, não muito convicente. Ótimo para um best-seller de bolso.


Acordou, e os dias estavam grudados no passado.
Escritos em giz.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Tão certo quanto. Se é certo.

Tão certo quanto não saber a cor exata dos teus olhos quase dormentes e quase tão próximos dos meus é a certeza de que a cada movimento do seu peito eu vou te perdendo entre os meus dedos sujos de cigarros que tentam timidamente se perderem dentro do seu cabelo empoeirado de lembranças das quais eu não sei se já faço parte, porque, esse momento ainda não me veio à cabeça como uma lembrança do dia anterior ou de muitos anos atrás, mas me veio como um sonho ou uma alucinação, muito real e que me assustou, confesso.
Então, há de se perdoar palavras confusas pronunciadas em frases ílicitas e gestos levianos em corpos alheios, uma profusão de sentimentos que, se bem sabem, foram emprestados, estes sim, de lembranças reais.
Tão certo quanto os meus lábios ligeiramente secos foram os teus sorrisos ligeiramente secos e soltos, ao belprazer do meu desespero em vão. Do meu corpo que de fato pedia o seu e do seu corpo que de fato pedia o meu, só restaram as marcas em nossas roupas e a frustração de não ter sido como um dia, cada qual independemente solitário em algum lugar, imaginou.
Mas tão certo quando a memória olfativa do que você bebeu na noite passada e do primeiro perfume que escolhi para usar, foi a mistura destes cheiros impregnados na minha pele e no meu cabelo, bilhete seu dizendo que não foi sonho, não adianta fechar os olhos e reimaginar a cena em outros lugares, com outras falas e gestos.
É certo que por todos os lugares para onde fugirei, encontrarei algo de você onde me refugiar.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sobra de sombras.

Para Marcelo

São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o seu corpo será luminoso ; se porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas são.
(Matheus 6: 22-23)


No princípio fez se a luz, que as sombras aos poucos foram consumindo aos longo dos dias em que aqui permaneci. O que me restou foi um fino feixe de luz que se desprendia de um buraco feito na parede, por uma bala. A muito tempo já não ouço o barulho das balas se perpetuando pelo ar e isso me doí como uma rajada de tiros. Elas gritavam que ainda restava alguma vida a ser eliminada, mas agora, esse silêncio sussura que estou só e que provavelmente devo estar morto. Mas ainda sinto a minha pele escorrendo pelos meus ossos e o meu sangue escorrendo pelos meus lábios. E a cada dia essa sensação de vida se torna estranha.

Meus olhos se atrofiaram, necessitados de cores, mas ainda consigo ver através das sombras: outras sombras. E as lhe dou cores, das minhas lembranças. De dias passados, quando tudo era luz, quando fazíamos fotosintese: transforamando tudo que era cinza e pesado em tudo que podia ser leve e alegre. Balão de gás. Lacrimogênio. Lágrimas secas que sustentam as linhas do meu rosto, cicatrizes feitas pelo tempo e feridas das quais ele jamais secará.

Sei que por aqui há um espelho, sinto medo de encontrá-lo, tal como um monstro que se esconde por detrás das sombras. Eu sei que já não devo ser o mesmo e o que os meus olhos irão ver não será o que um dia fui. Nem mesmo a sombra, por mais irônico que seja. Mas temo. Minha mãe dizia sempre, acho que ainda lembro, que a gente sempre se torna o que tem em nossa volta.

Algum tempo que eu não sei medir quanto, senti o gosto da luz, e era doce como açucar e mel. Minha lingua já acostumada com o sabor da solidão, se assustou, mas logo se entregou a esse prazer como o restante do meu corpo. Sei que ela me atravessou e me aqueceu, mas mais do que isso, trouxe meus sonhos de volta. Estremeci. Fechar os olhos e se entregar aos sonhos onde tudo poderia ser como não é e não apenas às minhas lembranças de tudo que foi e não será mais, era mais do que eu precisava. Então me entreguei definitivamente.

Hoje, o que havia sobre minha cabeça, desabou. Fechei os olhos e senti lentamente aquela dor inundando o meu corpo. Não era a dor provocada pelos escombros quebrando os meus ossos. Talvez eu não tivesse mais ossos, nem massa cárnea, mas a dor era como milhões de lanças fatiando o que existe de você. Sorri, sentia tanta saudades do que havia além daquela fresta na parede que esqueci completamente de que morria.

Então olhei, antes de desaparecer, para o espelho.