domingo, 26 de julho de 2009

O que não cabe em linhas.

Para Leandro, com quem compartilho letras & dores

Se em linhas
coubesse o amor
então
ele seria pouco
Como ele
nunca é pouco
é muito
ainda existirão
pessoas como eu e você
que não desistem
de minimizá-lo
em poesia.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

So What.

Para B.B

12 segundos, um dia, 365 anos.
(ou todo o amor que houver nessa vida)


Sim, era Coltrane
pulmões dilascerados de tanto amor & tantos cigarros
elevando sua dor a mezzo forte noite após noite, em algum lugar esquecido pelo tempo em New Orleans onde
exausto
descansava sua solidão em algum seio prostituído que tocava
Art Blakey exorcisando toda a pureza do silêncio
com todos os corações apaixonados no ritmo da saudade.

Você disse que quando os pulsos são cortados o sangue não mancha o mundo & rasgado é o quadro de Da Vinci
e que eu era a heroína do seu jazz.
Loucura impressa em tantas poesias & prosas
misturas alucinógenas de paixão
chama incendiária que ainda queima
na mais tenra memória
de todos os sambas em prelúdio & tangos anacrônicos.

Ainda espero esse trem azul como todos os blues
nos salvar.

Sim, é Coltrane
Desgraçadamente nos lembrando
que a love supreme
sempre vai tocar na próxima estação do coração.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Você sorriu e deixou cair dos seus lábios muitas verdades das quais prefiro me deitar com as mentiras
bêbadas
embaladas por muitos planos retângulos
móbile
sonhos de padaria

domingo, 19 de julho de 2009

Cenas de algum filme classe B.

- Nem pense em acender isso aqui dentro, não suporto cigarro.
-Parece uma cena de cinema, acredita?
-Que cena?
-Morangos Sivestres, ela vai acender o cigarro e o cara que tá dirigindo fala a mesma coisa. Um chato, igual a você.
- Pelo menos foi inteligente da parte dele. E saudável.
- Ele era velho, sacana e um pouco reclamão. Igual a você.
- Continue me elogiando e te deixo na próxima esquina, duvida?
- Falando nisso, onde é que tá me levando?
- Não sei, prá sua casa, pode ser?

- A quanto tempo isso não vê uma limpeza?
- A quanto tempo você não pára de reclamar de algo? Não ligo para essa superficialidade, até porque nem tenho tempo e se tivesse nem limparia. Veja bem, prá que limpar tudo isso se eu posso perder esse tempo, na verdade ganhar, vendo meus filminhos medíocres do Bergman ahn? Ou folheando meus livrinhos patéticos do Proust, coleção completa hein. Ou ouvindo as idiotices da Nina Simone, sei lá, esse pessoal que eu escuto não presta.
-Mas, olha pro seu redor, tudo imundo, como consegue se sentir bem aqui? Tem até comida estragada, vai ver que quer companhia de ratos e vermes. Dá tanto valor à suas coisinhas bobinhas que nem percebe que vai perdê-las em breve.
- AÍ, CALA A BOCA! Não sabe do que fala. Eu me sinto bem assim e pronto, tá insatisfeito? A porta da rua é a serventia da casa, ou qualquer coisa do tipo. Se for, fico com pena, não sabe o que vai perder.
- Convencida e porca.
- Velho e reclamão

- Tira a calcinha.
- Só depois dessa música.
- Posso então ficar te beijando enquanto isso?
- Se contenta com tão pouco, tenho dó. Não quero ter a sua idade, morro antes. Depois a gente chega nesse ponto, pedindo carinho se pode dar uma boa trepada, do tipo espetacular. Sente prazer com carinho ou com o que tem dentro da minha calcinha? Vai ter que esperar por um dos dois querido, porque juntos não rolam.
- Não pretendo esperar por nada, perdi o tesão.
- Percebi, quer tentar mais uma vez? Juro que fico calada, só abro a boca pro básico. To me sentindo meio que culpada. E uma vaca também.
- Vaca não é. Porca sim.
- E você velho. Porra, agora eu to com tesão, e aí?
- Vai ter que esperar, querida.


- E aí, gostou?
- Foi legal, mas poderia ser melhor.
- Reclamão.
- Porquinha.
- Me beija?
- Ué, morria antes disso, não morreria?
- A gente já deu a boa trepada, a espetacular. Pode rolar carinho agora, não pode? Vou ficar te beijando, assim muda de ideia.


- Já vai?
- É, tenho que resolver uns problemas. Quando se tem minha idade, é o que mais se tem.
- Quando se tem a minha idade, é o que menos se tem. É isso o que quis dizer?
- Menos, por favor. Longe de mim comparar os meus problemas com os seus. Não tem família, não tem emprego, não tem doença alguma típica dos 50 e tantos anos. Só é porca.
- Te deu menos tesão o fato de ser ou não porca? Que eu saiba foram meus livros que endureceram o seu pau, foi as minhas canções que te fizeram segurar por mais de uma hora o teu gozo e os meus filmes te fizeram querer mais e mais ser mais do que um velho reclamão de 50 e tantos anos que não suporta a vidinha que leva. To errada?


- Dinheiro ou cheque?
- Dinheiro.
- Aproveita e compra uns filmes alemães.
- Tá bom, eu compro. Pensei nessa semana mesmo. Herzog, acho.
- É, já vi alguns dele, vale a pena. E, paga uma faxineira tá? Qualquer um perde o tesão numa imundice dessas.
- Tá, tá, vai embora agora, vai! To parecendo uma puta com tudo isso.
- Você só é
- Nem termina a frase vai. Você sabe o que é, é o que importa né?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Tátil.

Conter o tempo entre os dedos & deixá-lo escorrer pelas coxas, fome antropofágica iludindo toda a farsa antropológica
Toque mais do o que meu corpo, dedilhe algum samba sobre meu coração
porque hoje eu vou lhe oferecer mais do que
beijos perdidos na órbita dos teus olhos
vou lhe oferecer
todas as canções de amor que ainda não escrevi.

domingo, 12 de julho de 2009

Uma lembrança qualquer.

Estávamos ali, como se não estivéssemos, naquele bar onde éramos estranhos entre tantos outros estranhos, luz negra impregnando nos detalhes brancos da minha bolsa e no seu tênis importado daquela marca transadíssima, que me incomodava a visão todas as vezes que eu era obrigada a fugir de você e olhar para o chão, uma lembrança qualquer, espaço em branco em que eu poderia ter escrito algo a mais, diferente das reticências. Você não me olhava ainda com esse olhar de desespero e eu não te olhava ainda com este olhar de pena e de cansaço, mas meu olhar era de qualquer coisa como algo desprendido de qualquer lugar, mas sua mão se perdia no meu cabelo mal lavado e embaraçado, tateando minhas ideias vagas , prendendo meus sonhos entre seus dedos e os deixando ali, jogados e abertos como uma fruta podre. Um punk esbarrou em você de propósito, eu disse, é o que dá vir aqui com um tênis desses e uma cara tão lavada dessas e você, rindo, dizendo que era o único lugar aberto aquela hora e a gente tem que beber hoje a qualquer custo não importa se a gente usa um tênis importado e se não somos darks, claro , eu quis morrer e não te disse, você quis me beijar mas eu evitei, disse, acho que não somos bem vindos aqui.
Sorri pros punks, numa tentativa de parecer mais amigável e entrosada, do tipo de garota que só está lá porque se sente a vontade entre eles e não porque entrou pelo impulso de um cara escroto e pelo terrivel e mortal tédio de se estar ao lado de quem não se ama assim tão completamente, erguendo de uma maneira ridícula o meu copo de cerveja enquanto eles se aglomeravam em volta da tequila. Olhei para você que me condenava na falta de um sorriso, mas foram 3 garrafas de cerveja e você nem disse o que queria afinal de contas, eu mesma esqueci que estava ao seu lado, achava que era um estranho incômodo que me pagava as cervejas, mas quando me beijou, trouxe-me para a realidade. Você era o que me restou.
Não era pena de você, naquele momento, era pena de mim entende?De tanto lutar, procurei algo em que pudesse descansar meu corpo logo após a última batalha, ainda sangrando com um tiro próximo do coração, ali cravado na cravícula, a maldita cicatriz que não vai sumir como as outras, que vai doer no frio do verão, não importa que remédios eu tome, não importa que abraços me aqueçam. Fiquei perdida, estendida naquele campo, até que me achasse. Eu não pedi que me salvasse.
Você pegava minhas mãos, as faziam percorrer o seu rosto, carinhos involuntários. Cedi muito mais do que minhas mãos, deixei que meus olhos se fixassem em você, enquanto eu cantava com os demais, uma maneira de fugir do que eu tinha para lhe falar, I kill my baby and it feels so bad/ guess my race is run/She's the best woman that I ever had/I fought the law and the law won/I fought the law and the/Robbin' people with a six-gun, abafar sua voz entre um coral de punks depressivos que se debatiam entre si, muito parecido com o que acontecia ali entre eu e a minha maldita consciência, de te deixar logo no final da música sem motivo aparente, mas e a coragem? Onde está a tal da coragem, da determinação? Onde está minha felicidade, do seu lado incrivelmente bêbada e drogada que mal pode se levantar e se apresentar a mim?
Até hoje não sei.

domingo, 5 de julho de 2009

A mulher do armário

Começa assim.



Você descobre que então viveu 10 anos com uma pessoa e abre os armários e lá descobre uma outra pessoa, diferente dessa que lhe dá beijos de boa noite e dorme ao seu lado reclamando do exaustivo dia de trabalho & do trânsito & da vidinha que levam, e abismado com o que vê ali a sua frente não sabe o que fazer e o que dizer e se é real e se for, se é tão mal assim. Talvez lhe diga desculpas, eu não devia ter mexido em suas coisas assim tão pessoais e tão intro e eu prometo esquecer isso, continuaremos a vida ok, MAS talvez eu faça muitas perguntas a essa do armário, porque.

Acho que nunca soube quem você é, ou foi, ou quer ser.



Aconteceu que abri uma de suas gavetas, saudades quando bate nos faz revirar o que se encontra à frente para saciá-la, fome incontrolável que não se contenta com pouco alimento em pedaços, quer peça inteira dentro dos braços & dos lábios & dos ouvidos, entenda, abri uma de suas gavetas movido pela saudade faminta a uma semana de um corpo ao lado sem reação além de reclamar de muitas coisas e prometer que tudo há de melhorar, há de melhorar sim, mas deixe-me dormir e sonhe que tudo há de melhorar, essa oração silenciosa a algum Deus surdo, que rezo a tanto tempo que já a muito tempo substituiu o meu pai nosso e minha ave maria, há de melhorar meu deus, há-de-melhorar. Abri na esperança de encontrar a mesma pessoa do meu lado, versão do passado da mulher que sumiu dentro de você. Não lembro do vermelho cobrindo o seu corpo, lembro das lingeries negras escorrendo de seus seios porque segundo todas as mulheres neuróticas e você era uma delas, o preto emagrece, mas grande bobagem, que homem apaixonado iria reparar em qualquer coisa a mais além da mulher que ama tal como é desde que se tomou consciência disso? Mas a verdade é que nunca lhe vi de vermelho sob seus vestidos comportados de mulher de negócios que pensa em ter família e recatada nos gemidos sob meu corpo, renda detalhada quiçá francesa e quem se importa com isso agora? Porque ali no fundo, me responde, da gaveta & de você, há essa mancha vermelha em rendas e em decotes e em profundidades desconhecidas por mim?


Me sinto como um assassino, se é que sou, na verdade, se é que eu matei algo.

Não sabia dos seus perfumes secretos, dama da noite, lembrei, aquela flor que se perfuma ao luar. Lembrei das noites que você se esvazia de mim, some sem deixar rastros dos teus perfumes, não destes, dos outros, do meu. E assim vai, são perfumes, saltos altos que valorizam pernas torneadas, as suas das quais me lembro, escondidas em calças sociais, mostradas a mim como pernas muito cansadas de um dia extenso de trabalho. Vestidos delicadamente pequenos de cortes violentamente carnais, vermelho que escorre sobre vermelho, negro que se mistura a tez branca dos escritórios, se escritórios. Maquiagens pesadas para um rosto tão leve, máscara acredito, para a mulher atrás de rímeis & sombras & batons vermelhos. Ou a máscara é essa, digo, a sua ao meu lado, sem maquiagem percorrido de pequenas rugas e imperfeições? Miles Davis, cd escondido ali entre uns livros de auto-ajuda, besteira, cadê o Drummond que te dei? Que Vinicíus de Moraes é esse aqui? Desconheço.

Coração descompassado, olhos brigando com o cérebro, se verdade. Não sei, querida. Assim que chegar, vou pedir que me apresente a dona deste armário. Juro, acho que estou apaixonado pela primeira vez por você.